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Ao publicar o artigo Alcides Maya (sobre um asserto)279, Paulo Arinos prenuncia, em 1922, a discussão que será travada, em 1925, com Rubens de Barcellos, nas páginas do Correio do Povo, sobre as obras Ruínas vivas e

Tapera, de Alcides Maya. Na primeira crítica a Alcides Maya, datada de 7 de

setembro de 1922,Paulo Arinos inicia seu texto contrapondo os comentários de Tristão de Ataíde280 a respeito do regionalismo de Maya, exposto na obra intituladaAfonso Arinos281.

A crítica de Paulo Arinos vem de encontro ao posicionamento de Tristão de Ataíde, que define Maya como o “melhor representante do

277 ALMEIDA, Marlene Medaglia. Na trilha de um andarengo: Alcides Maya (1877-1944). Porto

Alegre: EDIPUCRS: IEL, 1994. p. 26.

278 ALMEIDA, Marlene Medaglia. Na trilha de um andarengo: Alcides Maya (1877-1944). Porto

Alegre: EDIPUCRS: IEL, 1994. p. 26.

279 ARINOS, Paulo. Alcides Maya (sobre um asserto). Correio do Povo, Porto Alegre, 7 set. 1922.

280 Tristão de Ataíde é o pseudônimo usado por Alceu Amoroso Lima (1893-1983). Membro

eleito na ABL em 1935, atuou como crítico literário, professor, escritor. Foi Conde Romano, pela Santa Sé Apostólica.

281 O site da ABL indica que essa obra foi publicada em 1926. A crônica de Arinos, de 1922, já

aponta, no entanto, a existência da obra.

regionalismo espontâneo do pampa”282. Para o crítico, o problema do regionalismo de Alcides Maya está exatamente em não apresentar a espontaneidade como característica, pois,segundo ele, o discurso de Maya é marcado pela intencionalidade: “Em Alcides Maya houve, pois, graças ao poder evocativo que tem, uma inversão de influências. Ele é um regionalista intencional, não espontâneo.”283

Para Arinos, o artista e o seu temperamento são o que aparecem em suas obras de ficção. O ambiente não é exposto tal como ele é – Maya não mostra a força da paisagem, a vida pulsante que evidencia a “alma nacional, que todos temos, latejante”284:

Em suas páginas, nem sempre é o minuano que uiva, frio e cortante, [eri]çando o pelo do gado, sorumbático, à beira das aguadas, levando, para longe, o relinchar dos poldros assanhados: vezes frequentes parece adormentar seus ímpetos nas afastadas gargantas da serra, quebrantado, para deixar que um sopro de arte dominante transforme o quadro, iluminando aqui, correndo, além, uma cortina, erguendo o pano de fundo, mais longe, para a visão de novos deslumbramentos.285

Os textos regionalistas passam a destacar aspectos próprios da terra e do ambiente, características essas que, na maioria das vezes, ficavam em segundo plano, devido às influências europeias a que estavam presos grande parte dos intelectuais brasileiros, ou, como definiu Cyro Martins, pela configuração da “arte de reflexos estrangeiros”286 A crítica de Paulo Arinos a Alcides Maya, portanto, apresenta um contexto inflamado por discussões sobre o futuro da literatura nacional. Um futuro que os modernistas procuravam inscrever no presente. Sob essa moldura histórica e essa perspectiva, Paulo Arinos define as obras de Maya como saudosistas.

282 ARINOS, Paulo. Alcides Maya (sobre um asserto). Correio do Povo, Porto Alegre, 7 set. 1922.

283 ARINOS, Paulo. Alcides Maya (sobre um asserto). Correio do Povo, Porto Alegre, 7 set. 1922.

284 ARINOS, Paulo. Bendita vaia. Correio do Povo, Porto Alegre, 26 fev. 1922, n. 49, p. 3.

285 ARINOS, Paulo. Alcides Maya (sobre um asserto). Correio do Povo, Porto Alegre, 7 set.1922.

286 MARTINS, Cyro. Sem rumo. Introdução. 6. ed. Porto Alegre: Movimento, 1997. p. 14 et seq.

(1. ed.1937). Ensaio originalmente publicado em 1944. Disponível em:

<http://www.celpcyro.org.br/v4/Estante_Autor/visaoCriticaRelionalismo.htm>. Acesso em: 14 jun. 2012.

Interessadona definição do gaúcho, Arinos compara o gaúcho de Maya ao sertanejo produzido por Afonso Arinos:

O grande regionalista mineiro [Afonso Arinos] sentiu o sertanejo, e comoveu-se. De igual modo, o autor de “Alma Bárbara” sentiu o gaúcho. Ao revés de comover-se, porém, pôs-se a estudá-lo. Assim que os seus personagens não são bem homens: são tipos mais que homens.A identidade entre o meio sertanejo e o autor de “Pelo sertão” foi a mais completa. Ainda nos “boulevards” de Paris, não perdia de vista o Pedro Barqueiro, nem lhe esquecia o Joaquim Mironga. Já com Alcides Maya não é o mesmo que se dá. Nunca se lhe chega a confundir o colarinho alvo e rebrilhante com o lenço negligente que o guasca traz ao pescoço.287 [Grifo nosso].

Na concepção de Paulo Arinos, as personagens de Maya são tipos construídos e não resultados da soma dos “caracteres dispersos”288, que poderiam formar uma “personalidade” própria da terra. A crítica de Arinos volta-se para a falta de “alma” na figura do gaúcho. O germe desse pensamento pode estar associado à fusão que estabelece entre o autor e o meio, no caso, Afonso Arinose o sertão nordestino, que, nessa relação a identidade “foi a mais completa”289.Esse aspecto pode explicar a admiração de Moysés Vellinho pelo regionalista mineiro, de quem adotou o sobrenome 290 para compor seu pseudônimo como crítico literário. Ao defender o homem como sujeito capaz de expressar a identidade de seu meio, talvez Paulo Arinos encontrasse na produção de Afonso Arinos a forma capaz de o homem trazer consigo o seu meio, através de sua identidade, de seu espírito.

A sua primeira atividade crítica publicada elogia a postura e a obra de Monteiro Lobato diante das reações modernistas, por defender uma arte que seja proveniente dos elementos tipicamente nacionais: “[Monteiro Lobato] quer que os nossos costumes de hoje sejam a evolução dos nossos costumes

287 ARINOS, Paulo. Alma bárbara. Correio do Povo, Porto Alegre, 23 set. 1923.

288 ARINOS, Paulo. O sonho dos modernos. Correio do Povo, Porto Alegre, 27 jul. 1924.

289ARINOS, Paulo. Alma bárbara. Correio do Povo, Porto Alegre, 23 set. 1923.

290 Informação fornecida na entrevista realizada pela pesquisadora, em 19 de abril de 2011, na

residência de Heloisa Vellinho Corso em Porto Alegre.

d’antanho: que a arte brasileira seja o reflexo do nosso solo, e a reação do nosso ambiente. E tem razão, em não se conformando com a ausência de nossa alma em nossas obras”291. Paulo Arinos procura a alma, o elemento vivo na literatura regional. Seu interesse está no homem.

Paulo Arinos se posiciona contra a estilística de Alcides Maya. Nunca compartilhou, contudo, dos ataques modernistas à linguagem acadêmica e à forma tradicional de escrita. Essa postura pode ser ilustrada pela fala de Afonso Arinosde Melo Franco292, em Sessão Plenária293 no Conselho Federal de Cultura, em 1º de setembro de 1980, por ocasião da morte de Moysés Vellinho:

Ele não gostava de Guimarães Rosa. Aqui, no Conselho de Cultura, eu mineiro, devoto de Rosa, tive, mais uma vez, entreveros com Moysés Vellinho, porque repudiava Guimarães Rosa. E eu dizia: “– É um criador espetacular. É uma figura inteiramente indiscutível. É uma glória internacional.” E ele respondia: “– Mas em que língua escreve? Você traduza. Traga para mim, para que eu possa lê-lo.” Eu não dizia nada, porque gostava de ambos. Na verdade, o que o repugnava, em Rosa, era a invenção estilística, o malabarismo da forma, aquilo que ele considerava uma espécie de acrobacia inútil com a linguagem.

Para Arinos, nem a linguagem tipificada de Maya, nem a criação de uma linguagem repleta de neologismos, como a do regionalista mineiro Guimarães Rosa, configuram uma literatura tipicamente brasileira. O crítico condena o estilo de Maya, uma vez que contribui para afirmar a construção do tipo gaúcho por ele elaborado. Para Paulo Arinos, a arte necessita ser sentida e se comunicar dispensa-se intérpretes, tal qual a arte regionalista de Afonso Arinos e a obra do brasileiro Monteiro Lobato. A questão da linguagem e o regionalismo de Alcides Maya, expostas por Paulo Arinos nos

291 ARINOS, Paulo. Monteiro Lobato (A respeito de “Onda Verde”). Correio do Povo, Porto Alegre,

16 ago. 1921, n. 196, p. 3.

292Afonso Arinos de Melo Franco (1905 a 1990) – jurista, professor, político, historiador, crítico,

ensaísta e memorialista – era sobrinho do regionalista homônimo, que inspirou o pseudônimo de Moysés Vellinho. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Afonso Arinos de

Melo Franco (1905 a 1990). Disponível em:

<http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=26&sid=257>. Acesso em: 15 maio 2012.

293 CONSELHO FEDERAL DE CULTURA. Sessão plenária à memória de Moysés Vellinho. Rio de

Janeiro, 1º de setembro de 1980.

anos de 1922 e 1923, voltam a ser discutidos por Paulo Arinos em 1925, quando retoma esse assunto por meio das páginas do jornal Correio do Povo.

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