De maneira geral, as conversas apresentaram uma rotina semelhante entre as duas crianças, como ir à escola, brincar, estar com amigos, assistir TV. Podemos dizer que a rotinização da infância acontece porque há, em nossa sociedade, uma padronização das vivências sociais e culturais da criança: na “retórica cotidiana, assim como em muitos discursos teóricos, a infância é vista como algo tomado e garantido, inevitável e, como tal, parte da vida normal” (JENKS, 2002, p. 191). Assim, nossa sociedade é marcada por uma mesma significação de infância, uma concepção naturalizada e a-histórica que toma a infância como momento natural e universal do desenvolvimento dos humanos e que, por ser natural, exige, para seu progresso, desenvolvimento e crescimento. Apresentaremos a seguir o Quadro 4, que nos permite visualizar as semelhanças e diferenças entre o cotidiano de ser criança de Ludmila e Samira e posteriormente segue a interpretação dos dados.
Quadro 4. Eixo 1 – Os cotidianos das crianças urbanas: rotina, quem cuida, atividade e direitos e deveres
Ludmila Samira
Eixo 1 – Os cotidianos das crianças urbanas: rotina, quem cuida, atividade e direitos e deveres
Rotina: “[...] então nas férias eu dormia tarde, às vezes ia dormir duas horas da manhã, então... (risos)... Eu fiquei vendo dois filmes!”
“[...]eu acordo 05h00min da manhã. [...] minha mãe me acorda todos os dias. [...] Eu entro na escola às sete horas da manhã e saio meio dia e meia. [...] aí eu chego duas horas da tarde aqui em casa... Porque eu sou a última do meu ônibus. [...] aí eu já tenho que me arrumar para ir pro meu inglês. [...] de terça eu vou estar livre, posso fazer o que eu quiser (risos).”
Quem cuida: “[...] a minha vó ou a
empregada. Minha mãe me acorda todos os dias.”
Atividade: “[...] Eu fiz aula de desenho o ano
Rotina: “[...] eu acordo 04h25min, aí eu, minha avó levantava, aí eu escovava o dente, esperava ela (sua avó), pegava minhas coisas e minha bolsa, aí eu ia lá para Viviane (cuidadora). [...] a entrada na escola é às 07h00mim.”
“[...] hoje, eu acordei (nesse ponto está falando do período de férias escolares, quando sua avó a leva para o trabalho) 06h00min... seis e alguma coisa. [...] aí eu acordo, escovo os dentes, lavo o rosto, preparo minhas coisas, visto a roupa, aí eu venho... aí eu subo o morro, pego a perua (se referiu ao transporte público). [...] aí quando é fim de semana, eu acordo, tomo café, aí depois eu lavo o rosto, escovo os dentes, aí ou eu vou brincar com a minha prima.”
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passado, então minha matéria favorita é desenho! E antes [...]eu fazia jazz e, antes do jazz, eu fazia balé.”
“[...] aí eu já tenho que me arrumar para ir pro meu inglês, dia de segunda e quarta. [...] aí, só quinta eu vou ter teclado agora. [...] terça eu vou estar livre.”
“[...] acho que é mais depois do almoço (se referindo ao horário que assiste TV) [...] geralmente eu estou vendo Disney e Nicklodeon. Não muitos os outros canais. ...Liv e Maddie, lá do Disney Channel. ...Bob esponja... É, antes não tinha (se referindo à TV no quarto), então eu via lá na sala, né. (Se está brincando, a TV fica ligada) [...] Fica ligada...
“[...] tenho a lição do inglês... um dia sim, um dia não!”
Direitos e deveres: “[...] tenho... arrumar meu quarto, não deixar tudo bagunçado. Às vezes, eu deixo tudo esparramado no chão, aí as pessoas pisam (risos). [...] aí depois eu tenho preguiça de guardar, aí meu pai vem e me ajuda... a minha mãe ou a minha vó!” Direito de brincar: “[...] ah, porque é divertido e aí dá pra descansar um pouco! [...] Aí me deixa aliviada e tira a prova da cabeça, quando tem prova!”
(se referiu à cuidadora, Viviane) É... ela me leva (se referindo à avó) até lá na porta, aí quando eu entrava, eu descia as escadas, aí quando eu entrava, ela ia para o trabalho dela. A Viviane me colocava na cama junto com a filha dela, aí eu ficava dormindo até a hora de eu ir para a escola... Ela é legal, ela tem três filhas, e quando eu ficava lá, aí eu ficava brincando com as filhas dela. [...] eu comia e assistia TV até minha avó chegar.”
“[...] sempre a tia da escola fica no portão, quando está passando muito carro, ela atravessa a gente.”
Atividade: “[...]em casa... Eu assisto quando não tem nada para fazer, aí é quando eu assisto... eu fico brincando com as bonecas e fico assistindo. [...] eu brinco e assisto. Mas livro eu leio... na minha casa e na escola... os livros que eu tenho eu já li tudo! Na escola, quando é aula de leitura, eu fico lendo um monte de livro. Quando a professora deixa a gente levar para casa para ler, aí eu levo. Ela disse que posso escolher três livros, aí eu levo: um de matemática, outro de história e outro infantil.” Direitos e deveres: “[...] minha obrigação é guardar os meus brinquedos, não deixar nada jogado e ajudar a minha avó. [...] lavar a louça, a limpar o quintal, juntar as coisas jogadas... tem vezes que eu ajudo ela a arrumar a cama.” [...] mas quando eu estou fazendo alguma coisa e ela manda fazer outra, aí eu não... gosto.... todas as vezes que eu estou brincando, na parte mais legal: “Samira, vem fazer isso. Samira, vem fazer aquilo (se referindo à avó).”
Fonte: Elaborado pela autora com base nas transcrições das conversas.
Além de apresentarem similaridades de rotinas, as conversas também apresentaram evidências de condições desiguais de vida. O cotidiano da Samira é organizado de acordo com as necessidades de sua avó, uma trabalhadora doméstica. Samira acorda muito cedo para ir à casa da cuidadora, para que sua avó siga para o trabalho, como identificamos em sua fala: “eu acordo 04h25min, aí eu, minha avó levantava, aí eu escovava o dente, esperava ela (sua avó), pegava minhas coisas e minha bolsa, aí eu ia lá para Viviane (cuidadora)”. Às 07h00min, vai para a escola e, após o retorno, permanece na casa da cuidadora até que sua avó volte do trabalho e possam voltar para casa.
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A família de Samira é composta por mulheres: sua mãe, sua avó e ela. Os adultos trabalham foram de casa para garantir o sustento da família. Samira tem uma vida organizada a partir dessa realidade:
[...] Viviane (cuidadora) me colocava na cama junto com a filha dela, aí eu ficava dormindo até a hora de eu ir para escola [...] ela é legal, ela tem três filhas, e quando eu ficava lá, aí eu ficava brincando com as filhas dela. [...] eu comia e assistia TV até minha avó chegar.
Samira vivencia, em seu cotidiano, outras possibilidades de socialização para além da família e da escola: a casa da cuidadora é um espaço social onde existem crianças de outras famílias que passam a conviver em um mesmo espaço social e no qual as crianças criam relações sociais e culturais. A “tia da escola” também é outra referência de cuidado para Samira: “sempre a tia da escola fica no portão; quando está passando muito carro, ela atravessa a gente”, pois é quem ajuda as crianças a atravessarem a rua no horário de entrada e saída da escola.
No caso de Ludmila, os horários de sua rotina parecem sofrer uma menor interferência do cotidiano de seus pais: ela não relata, por exemplo, precisar acordar mais cedo em função do trabalho do pai ou da mãe. No entanto, o maior poder aquisitivo provoca outros tipos de impacto em seus dia a dia: seus pais podem pagar pelos serviços de uma empregada doméstica, por cursos extracurriculares e pelo transporte particular até a escola. Apesar de acordar cedo para ir à escola, conta com a ajuda de adultos para a realização das atividades, permanece em casa após a realização das atividades escolares: “acordo 05h00min da manhã. [...] minha mãe me acorda todos os dias. [...] entro na escola às sete horas da manhã e saio meio dia e meia. [...] aí eu chego duas horas da tarde aqui em casa... sou a última do meu ônibus”.
Ludmila tem uma rotina organizada pelos adultos em torno da formação via escola e via cursos extracurriculares; já participou de vários cursos, como relata: “Eu fiz aula de desenho o ano passado, então minha matéria favorita é desenho! E antes [...]eu fazia jazz e, antes do jazz, eu fazia balé”. Atualmente, Ludmila faz inglês duas vezes por semana, aula de teclado e, às terças, como ela mesma relata, “está livre”: “meu inglês, dia de segunda e quarta. [...] aí, só quinta eu vou ter teclado agora. [...] terça eu vou estar livre”. No tempo livre, fica em casa sob o cuidado de adultos, a avó ou a empregada.
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Os cuidados diários de Ludmila também são realizados por mulheres como os de Samira, no entanto, os cuidados que Ludmila recebe são individualizados, destinados especificamente a ela. Segundo Marchi (2009, p. 233), no ideário burguês chamado “familialismo”, a “criança torna-se o centro das atenções e das relações afetivas assim como a destinatária tanto dos projetos de ascensão social [...]”.
A projeção do futuro adulto com uma formação promissora é empregada no cotidiano de Ludmila, além de ser rodeada de cuidados, em que todos os membros da família contribuem para que ela realize tarefas, como guardar brinquedos ou fazer lições de casa. Ela relata: “tenho que arrumar meu quarto, não deixar tudo bagunçado. Às vezes eu deixo tudo esparramado no chão, aí as pessoas pisam (risos). [...] Aí depois eu tenho preguiça de guardar, aí meu pai vem e me ajuda... a minha mãe ou a minha vó!”.
Samira também deve cuidar de suas coisas, mas deve, além disso, colaborar nas tarefas da casa, como lavar a louça e limpar o quintal: “minha obrigação é guardar os meus brinquedos, não deixar nada jogado e ajudar a minha avó. [...] lavar a louça, a limpar o quintal, juntar as coisas jogadas... tem vezes que eu ajudo ela a arrumar a cama”.
Para Samira, essa contribuição nos serviços domésticos, algumas vezes, atrapalha suas brincadeiras, como identificamos em sua fala: “mas quando eu estou fazendo alguma coisa e ela manda fazer outra, aí eu não... gosto... todas as vezes que eu estou brincando, na parte mais legal, ‘Samira, vem fazer isso. Samira, vem fazer aquilo’” (referindo-se à avó)”.
Em sua fala, Ludmila relata que a escola e os cursos extracurriculares ocupam grande parte de seu dia, tendo apenas um dia da semana para ficar livre, para fazer o que quiser: “Aí eu chego duas horas da tarde aqui em casa... Aí eu já tenho que me arrumar para ir pro meu inglês. [...] Aí, só quinta eu vou ter teclado agora. [...] tenho a lição do inglês um dia sim, um dia não! [...] terça eu vou estar livre... (risos)”.
Ludmila fala do tempo livre (terça-feira) com muita alegria, repetindo várias vezes durante a conversa que nesse dia estaria livre, explicando que “dia livre” é poder escolher a atividade que deseja: ouvir música, assistir TV e brincar para relaxar. Sarmento (2002, p. 272) nos ensina que há “uma intensa restrição dos
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tempos livres das crianças, pela sua subordinação a aulas suplementares e a ‘explicações’ que intensificam profundamente a sua jornada”.
Samira parece não vivenciar uma restrição de tempo tão imposta e demarcada pelos princípios de formação educacional quanto Ludmila. Samira fala de fazer escolhas sobre suas atividades – esse fato se torna claro quando observamos as várias vezes em que ela usa a palavra “eu”: “eu brinco”; “eu leio”; “eu já li tudo”; “aí eu levo: um de matemática, outro de história e outro infantil”. Sua fala indica que ela não vivencia um cotidiano imposto pelo adulto. Ela parece estar menos sob a vigilância de adultos, em razão de dificuldades de vida, do trabalho dos adultos que cuidam dela, que parecem lhe dar uma “folga” maior.
Em suas vivências cotidianas, Ludmila tem os adultos de sua família como referência de cuidado, sempre em ações individuais. Ao passo que Samira vivencia situações mais coletivas, em que participa como membro das ações sociais, realizadas em conjunto com outros membros, como ir para a casa da cuidadora enquanto sua avó trabalha, ir para a escola e participar nos trabalhos domésticos com outros adultos.
Cotidianos que aparentam ser semelhantes, mas que guardam muitas diferenças: Ludmila, com uma infância protegida, cercada de cuidados necessários à realização de suas muitas tarefas escolares, acaba nos apresentando uma rotina repetitiva, com poucos momentos de descontração e liberdade, sempre guiada pela vontade do adulto. Samira, com uma infância cuidada na coletividade, mas em muitos momentos “solitária”, marcada por tarefas que são suas e do coletivo de sua família, acaba nos mostrando uma rotina com mais liberdade.