estritamente vinculado aos magnatas da indústria alemã e a Hitler (RIBEIRO JÚNIOR, 1987, p. 37).
O jeito singular de Tolstoi interpretar o Evangelho reflete, a nosso ver, o perfil de um livre‐pensador, erudito, racionalista e eclético, suficientemente heterodoxo para crer que a experiência de Deus, como dizia Leonardo Boff, “é a experiência do sentido, que se revela no ato criador do ser humano em todas as expressões nas quais se constroem significados para a vida e para a sociedade, em que o sagrado está ligado a tudo que amplia as dimensões do mistério da vida e que abre o entendimento a horizontes sempre mais vastos até o infinito” (1995, p. 08).
Tolstoi encontra impresso em distintas tradições espirituais e nas grandes religiões, registros dessa experiência do sentido da vida, lamentando que estas tenham‐se desvirtuado ao longo da história, vindo a pactuar com os poderes dominantes e se tornado religiões de dominação. Isso o leva a colher nessas fontes, relevantes subsídios para esculpir a tessitura de seu cristianismo anárquico, compósito e híbrido, que aqui elegemos como objeto de estudo, atento às suas linhas de força estruturante.
Os textos bíblicos, engendrados sob o signo de inúmeras injunções históricas, com suas metáforas e analogias, há milênios vêm sendo objeto de toda sorte de interpretação, não sendo reduzido o número daqueles que os tomam como a expressão irretocável e plena da revelação de Deus aos homens, para que estes cumpram Seus desígnios na Terra.
Tolstoi (2011), seguindo orientação diversa, denunciou várias incongruências existentes na Bíblia, e entre os conteúdos do Antigo e do Novo Testamento, demonstrando que se fazia necessário separar o joio do trigo, o essencial do acidental, a verdade da mentira pérfida ocultante do sentido profundo do ensinamento cristão. É com este sentimento que se lança o autor à decifração do significado essencial do Evangelho, convencido de que seus
cabedais lhe asseguravam às condições necessárias para depurar os textos evangélicos das escórias que ofuscam a simplicidade e a clareza dos ensinos de Jesus.
Para melhor avaliarmos as virtudes e fragilidades desse esforço interpretativo tolstoiano, partimos da hipótese de que as linhas de força do cristianismo por ele abraçado ganham inteligibilidade quando apreendidas como construções imaginárias moldadas sob a influência de diversas tradições filosóficas e religiosas que impressionam sua sensibilidade, a exemplo do budismo, hinduísmo e taoismo. Nestas tradições, Tolstoi identifica princípios universais condizentes com os ensinos de Jesus, levando‐o à conclusão de que para além das particularidades culturais de onde advinham esses ensinamentos havia uma matriz estruturante comum que os unia, rompendo fronteiras de tempo e espaço: esta é a base a partir da qual o pensador erige sua concepção de Deus.
Para desvendar o núcleo essencial dessa teologia libertária, dividimos este estudo em três capítulos, sintonizados com os objetivos planeados. Organizamos o primeiro capítulo em duas partes. Na primeira parte, dedicamos à identificação das principais etapas que marcaram o processo de europeização do Estado tzarista, entre o último quartel do século XVII e o século XVIII, objetivando caracterizar, em linhas gerais, a ambiência cultural condicionante do processo de individuação espiritual de Tolstoi, nomeadamente no ponto atinente à estruturação de sua religiosidade. Na segunda parte desse capítulo, destacamos circunstâncias que marcaram a história da vida pública e privada do escritor, o qual no ambiente familiar, em suas leituras, em seus contatos com os mujiques, em suas viagens, entre outras
experiências compartilhadas, colheu impressões que corroboraram a sua conversão e à definição do perfil de seu cristianismo anárquico.
De maneira mais detida, no segundo capítulo, esforçamo‐nos para dirimir duas questões que nos parecem importantes a um melhor entendimento do viés político ideológico do cristianismo tolstoiano, fundamentado numa modalidade de fé que o autor anuncia como livre de dogmas e superstições. Para tanto, cuidamos inicialmente de precisar a natureza da fé de Tolstoi, objetivando explicitar em que medida ela se compatibiliza com seu racionalismo enraizado em tradições iluministas. Partindo deste entendimento, na segunda seção desse capítulo, tratamos de destacar as principais imagens e representações construídas pelo autor a respeito de Deus e de Jesus, convencidos de que nestas construções imaginárias repousam elementos de forte significação à estruturação de sua teologia.
Já no terceiro capítulo, dedicamo‐nos exclusivamente ao exame da obra
O reino de Deus está em vós (1994), por entender que ela condensa o cerne do
cristianismo libertário tolstoiano. A originalidade e radicalidade desse escrito patenteia‐se, entre outras maneiras, na forma como o ensaísta aí expressa seu entendimento a respeito dos ensinos de Jesus, acolhendo os preceitos constantes no Sermão da Montanha como um apelo a reforma íntima, capaz de impulsar o agir humano na via da perfeição divina. Neste documento literário, procuramos destacar os princípios cristãos que formam a base da teologia libertária tolstoiana, voltada à destruição da ordem social, calcada em múltiplas formas de violência, que dão azo a múltiplas formas de sujeição no interior das sociedades de classes.