13. Vedlegg
13.1 Vedlegg 1: Mandat
Nos textos abordados para o desenvolvimento desse trabalho, principalmente Tusculanae disputationes e De ira, os autores concordam que a paixão que se apresenta com maior intensidade seja a ira. Cícero dedica um significativo espaço nos livros 3 e 4 das Tusculanae para uma explanação a respeito dessa doença. Quanto a Sêneca, optamos pelo De ira por se tratar de um texto essencial para o tema proposto em nossa investigação e também por Sêneca ser um filósofo que desenvolveu estudos de filosofia estoica. Nesse tratado, Sêneca não só discute o tema, mas também desenvolve argumentos de uma terapêutica, de um tratamento através da filosofia.
Quando Sêneca (De ira 1.1.5) aborda os aspectos físicos que acometem aquele que está irado, afirma que as demais doenças até se podem esconder, mas ―a ira põe-se à mostra e sai à face e, quanto maior, com tanto mais evidência efervesce‖ (ira se profert et in faciem exit, quantoque maior, hoc efferuescit manifestius). Para os estoicos, a ira não está em conformidade com a natureza, logo o homem que é acometido e se deixa dominar por essa paixão assemelha-se a um animal que não tem consciência dos atos que comete. A ira seria o que mais se parece com a loucura, argumenta Cícero (Tusculanae disputationes 4.52):
Quam bene Ennius initium dixit insaniae. Color, uox, oculi, spiritus, inpotentia dictorum ac factorum quam partem habent sanitatis? Quid Achille Homerico foedius, quid Agamemnone in iurgio? Nam Aiacem quidem ira ad furorem mortemque perduxit. Non igitur desiderat fortitudo aduocatam iracundiam: satis est instructa parata armata per sese. Nam isto modo quidem licet dicere utilem uinulentiam ad fortitudinem, utilem etiam dementiam, quod et insani et ebrii multa faciunt saepe uehementius.
[A esta] muito bem chamou Ênio ―o princípio da loucura‖. A cor, a voz, os olhos, a respiração, as incoerências das palavras e dos gestos, até que ponto conservam [num homem irado] a sanidade [mental]? O que há de mais vergonhoso do que os insultos que lançam um ao outro Aquiles e Agamémnon [na Ilíada] homérica? Foi também a ira que levou Ájax à demência e ao suicídio. Não, a coragem não precisa para nada do patrocínio da cólera, por si só já possui todos os recursos toda a preparação, todas as armas de que necessita. Por esta ordem de ideias também poderíamos considerar a embriaguez útil para [despertar] a coragem, e útil também a loucura, atendendo a que os dementes e os ébrios muitas vezes cometem actos de grande bravura. (Grifo do tradutor)
Ainda sobre estar ―em conformidade com a natureza‖, Sêneca retoma um argumento platônico para discutir esse tema. A ira não é inerente ao homem, não é natural, o homem virtuoso – o sábio – não se deixa acometer pelas paixões (De ira 1.6.4-5):
Non est ergo natura hominis poenae adpetens; ideo ne ira quidem secundum naturam hominis, quia poenae adpetens est. Et Platonis argumentum adferam - quid enim
nocet alienis uti ea parte qua nostra sunt? "Vir bonus" inquit "non laedit." Poena laedit; bono ergo poena non conuenit, ob hoc nec ira, quia poena irae conuenit. Si uir bonus poena non gaudet, non gaudebit ne eo quidem adfectu cui poena uoluptati est; ergo non est naturalis ira.
Portanto, à natureza humana não apetece o castigo; por isso, de modo algum a ira está em conformidade com a natureza do homem, uma vez que a ela o castigo apetece. E eu referirei um argumento de Platão – de fato, em que prejudica servirmo-nos de bens alheios, daquela parte em que são nossos? –, ― O homem virtuoso‖, diz ele, ― não causa dano‖. O castigo causa dano; portanto, o castigo não se ajusta ao homem virtuoso, e por isso, nem a ira, porque o castigo se ajusta à ira. Se o homem virtuoso não se alegra com o castigo, não se alegrará sequer com essa paixão à qual o castigo serve de prazer; portanto, a ira não é natural.
Não há – para os estoicos – a necessidade de tentar controlar a ira, o melhor é evitar. Não se pode ceder, deve-se evitá-la em seus primeiros indícios (De ira 2.12.6):
Quantum est effugere maximum malum, iram, et cum illa rabiem saeuitiam crudelitatem furorem, alios comites eius adfectus!
Quão valioso é escapar do maior dos males, a ira, e junto com ela, da raiva, da violência, da crueldade, do furor e de outras paixões que são suas companheiras!
Assim como os peripatéticos (exemplificados aqui na figura de Aristóteles) apresentam duas causas para a ira, também os estoicos (aqui na figura de Sêneca) atribuem duas causas para o surgimento da ira: a iniuria e a iniquitas56.
Mas, diferentemente dos peripatéticos (para Aristóteles, as causas apresentadas simbolizariam excesso e falta), os estoicos não desenvolvem a noção de justa medida; logo, essas duas causas são excessos e devem ser evitados. Entendemos então que o ultraje (causa da ira para os peripatéticos) estaria em conformidade com a iniuria e a iniquitas (duas causas da ira para os estoicos), pois todas essas estão ligadas ao excesso e são prejudiciais. Já a indiferença (outra causa da ira para os peripatéticos) não teria um equivalente no estoicismo.
Uma das principais diferenças entre os estoicos e as demais escolas filosóficas helenísticas que abordaram a teoria das paixões é a proposta de rigorosa e supostamente mais eficiente terapêutica para a cura das enfermidades da alma. Observemos a seguir uma das orientações senequianas a fim de que a ira possa ser sanada (De ira 2.29.1):
Maximum remedium irae mora est. Hoc ab illa pete initio, non ut ignoscat sed ut iudicet: graues habet impetus primos; desinet, si exspectat. Nec uniuersam illam temptaueris tollere: tota uincetur, dum partibus carpitur.
O maior remédio para a ira é o adiamento. Pede a ela em seu início não que perdoe, mas que pondere. Ela tem fortes impulsos iniciais, irá deixá-los, caso espere. E não
tentes eliminá-la no todo, será inteiramente vencida ao ser consumida em suas partes.
No capítulo seguinte, aplicamos esses conceitos filosóficos à análise da Hecyra de Terêncio. Pretendemos compreender como a ira move as ações das personagens e contribui para o desenvolvimento do enredo da peça.
3 A IRA NA HECYRA
―O tolo dá vazão à sua ira, mas o sábio domina-se.‖ (Provérbios 29.11)
Como discutimos anteriormente em nossa Introdução, a presença da filosofia nas peças de Terêncio é bem comentada e pesquisada. Desde autores da Antiguidade Clássica, como Cícero, a pesquisadores contemporâneos de literatura clássica, como Pierre Grimal, desenvolveu-se uma leitura dos textos terencianos pelo prisma da filosofia.
Ao decidirmos lançar nosso foco sobre a teoria das paixões, investigamos as paixões mais salientes nos textos do autor e como contribuíam para o desenvolvimento do enredo das peças; observamos então que o vocábulo ira é recorrente nas seis peças de Terêncio, especialmente no texto da Hecyra (160 a.C.). Essa recorrência não seria casual; segundo Lord (1977, p. 198), revelaria ainda uma importância dada a esse tema pelo principal autor adaptado por Terêncio, Menandro: ―A questão do papel da ―ira‖ em toda a comédia de Menandro vai além de um interesse eventual. ―Ira‖ (Ὀργή) era o título da primeira peça de Menandro‖57.
Então, antes de analisarmos a ira na Hecyra, comentemos a presença dessa paixão nas seis peças de Terêncio: Andria (166 a.C.), Heautontimorumenos (163 a.C.), Eunuchus (161 a.C.), Phormio (161 a.C.), Adelphoe (160 a.C.) e Hecyra58 (160 a.C.).