Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Clarice Lispector
Depois de analisar a força plástica do esquecimento que se inscreve na escritura de Clarice Lispector, podemos agora observar a solidão, que atua também como elemento estruturador em seus textos375. A solidão está presente, de diferentes modos, em quase todos os textos da autora. Do lançamento de Perto do coração selvagem à publicação de A hora da
estrela, no final da década de 1970, passando ainda pelos escritos póstumos, a solidão parece
ser uma constante no corpus da ficcionista. Isso levou grande parte da crítica a conceber a
372
LISPECTOR, 1998d, p. 49.
373 LISPECTOR, 1999c, p. 115.
374“Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo
instante é feito por mim? Ou se faz sozinho? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena”. (LISPECTOR, 1998d, 09).
375 Silviano Santiago (2004) afirma que a solidão constitui um dos três mais salientes temas da ficção de Clarice,
literatura de Clarice como irremediavelmente marcada pelo signo da solidão376. Na crônica
“Solidão e falsa solidão”, a escritora cita Thomas Merton para refletir sobre o sentido da “verdadeira solidão”. Para o autor mencionado, a solidão é necessária tanto para o indivíduo
quanto para a sociedade e a verdadeira solidão é a que faz com que o indivíduo se diferencie da multidão377.
A epígrafe378 escolhida para o romance Perto do coração selvagem já é, de certo modo, um testemunho dessa escritura abalizada pela solidão. Tanto a epígrafe como o próprio título remetem o leitor para a reflexão sobre o lugar que a solidão ocupará na obra. A protagonista Joana precisa se construir a partir dessa solidão, que não pode ser amenizada
pelo pai, pela mãe, pelo marido, por ninguém. “E ela, solitária como o tique-taque de um
relógio numa casa vazia. Esperava sentada sobre a cama, os olhos engrandecidos, o frio da madrugada próxima atravessando-lhe a camisa fina. Sozinha no mundo, esmagada pelo excesso de vida, sentindo a música vibrar alta”.379 De modo análogo, Lóri, a protagonista de
Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, também se encontra no grande centro de si
mesma. Ela constata que se tornar um ser humano significa compreender que, em determinada medida, a solidão é inerente a nossa condição, “o humano é só”380.
Essas personagens de Clarice – assim como Martim e G.H., para nos atermos a alguns exemplos apenas – percebem, aos poucos, que a solidão é uma força plástica que pode ajudar o homem na construção de si mesmo, no encontro consigo e na afirmação da vida. À medida que essas personagens se afastam do ordinário e do outros, podem ter um embate consigo mesmas, com o lado menos vulgar de si mesmas. Num gesto de coragem elas saem dos terrenos comuns e se lançam em zonas de criação, onde podem experimentar o inaudito, aquilo que de outro modo ficaria sufocado pelo medo de se entregarem ao obscuro de si mesmas. Elas, portanto, se realizam, exercem sua força e sua superabundância de vida; quando impulsionadas pela própria força, conseguem sentir que “a trajetória somos nós
mesmos”381
. Efetuar um trajeto significa para cada homem colocar-se na passagem/paisagem
376Roberto Schwarz (1981, p. 56), em ensaio intitulado “Perto do coração selvagem”, observa que o primeiro
romance de Clarice é atravessado pela questão da solidão. Ele nota que Joana “experimenta solidão em face dos outros e de si mesma”. Acredito que Martim, assim como outras personagens claricianas, como G.H., Lóri e Rodrigo S. M., pertence à estirpe de Joana, a de um sujeito solitário, que experimenta a solidão diante do confronto intersubjetivo, mas, sobretudo, a solidão diante de si mesmo.
377
LISPECTOR, 1999a, p. 202.
378 Clarice Lispector (1998c) usa como epígrafe de seu romance uma passagem de A portrait of the artist as a
young man, de James Joyce: “Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida”. É
também dessa epígrafe, por sugestão de Lúcio Cardoso, que surge o título do primeiro romance de Clarice.
379
LISPECTOR, 1998c, p. 138.
380 LISPECTOR, 1998a, p. 74. 381 LISPECTOR, 1964, p. 23.
consigo mesmo, ser “o único próprio ponto de partida”382
. Em suma, é deixar para trás as multidões e tornar-se “o centro do grande círculo, e o começo apenas arbitrário de um
caminho”383 .
A história de Martim é justamente a de um homem que se afasta da multidão, do rebanho, das massas. Nesse sentido, é possível aproximar tal personagem de Clarice à figura de Zaratustra384. As palavras de Nietzsche, em Ecce homo, poderiam ter sido ditas tanto por
Martim como por Zaratustra: “tenho necessidade de solidão, quer dizer, recuperação, retorno a mim, respiração de ar livre, leve, alegre...”385
A solidão aparece aqui como possibilidade de convalescença, como meio de se alegrar com o instante, fazendo dele um espaço de restauração das forças necessárias para a afirmação da existência. Se Nietzsche declarou ser
seu Zaratustra “um ditirambo à solidão”386
, creio não ser exagero dizer que também Clarice, em A maçã no escuro, exalta a solidão, concebida como um estado potencial de revigoramento e encontro consigo mesmo. Tal encontro acontece, nesse romance clariciano, por meio da metáfora da montanha. A partir do momento em que o protagonista comete seu crime, ele foge de tudo e de todos, afasta-se do ordinário e se direciona para o alto. Seu
caminho é “escalar uma montanha”, chegar ao ponto mais alto, onde é possível ver por outra
perspectiva. A imagem de tal perspectiva aparece já na abertura do romance.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.387
A partir da perspectiva proporcionada pelas alturas, Martim começa a sentir a dimensão da solidão na vida de um homem. Em várias passagens de A maçã no escuro encontramos a metáfora do homem solitário, que se afasta dos outros em direção a um lugar que o eleva ao encontro e ao embate consigo mesmo. Do mesmo modo, essas imagens são recorrentes em Assim falou Zaratustra, levando Bachelard a falar de um “psiquismo
382 LISPECTOR, 1999c, p. 23. 383
LISPECTOR, 1999c, p. 23.
384 Cláudia Nina (2003), em A palavra usurpada: exílio e nomadismo na obra de Clarice Lispector, faz uma
aproximação entre Martim e Zaratustra, tomando como fio condutor a questão do nomadismo, do exílio e da errância.
385
NIETZSCHE, 2008, p. 31.
386 NIETZSCHE, 2008, p. 31. 387 LISPECTOR, 1999c, p. 13.
ascensional”388
em Nietzsche. Essa ideia de ascensão parece constituir a figura de Martim: a ascensão como gesto de se colocar só. Perto do ar, nas alturas, onde todo peso pode ser
deixado para trás. No capítulo “Da árvore no monte”, Zaratustra tem um diálogo com um
jovem e aparece um primeiro adágio que nos ajuda a pensar a questão da solidão ligada à ideia de ascensão. Nessa passagem, como Martim, ele observa árvores que crescem a partir de si mesmas, tateando as alturas.
“Eu me transformo demasiado depressa: o meu hoje refuta o meu ontem. Pulo,
amiúde, os degraus, ao subir – e isto nenhum degrau me perdoa.
Se estou no alto, acho-me sempre só. Ninguém fala comigo, o gelo da solidão me faz tremer. Que pretendo no alto, afinal?
Como me envergonho do meu subir e tropeçar! Como escarneço o meu
violento arquejar! Como odeio quem voa! Como me sinto cansado, no alto!”
Calou-se, nesse ponto, o jovem. E Zaratustra contemplou a árvore, junto da qual estavam, e falou assim:
“Esta árvore ergue-se solitária, aqui, no monte; cresceu muito, sobre-
excedendo homens e animais.
E se quisesse falar, não acharia ninguém que a compreendesse: tamanha altura
atingiu.”389
Sente-se solitário o homem que se arrisca a crescer a partir de seu próprio centro e a se tornar autossuficiente390, que pode desenvolver suas inclinações e não se entregar com facilidade aos valores dos outros. Em volta dele, existe um silêncio positivo e negativo, uma ausência de comunicação, ele se torna mudo por não conseguir falar a língua dos outros ou por não ter quem compreenda a sua. Sua língua é expatriada391, já que é a língua do homem em constante peregrinar, daquele que consegue mudar a cada dia. Martim experimenta pela primeira vez esse sentimento de como é estar num ponto isolado, no alto de uma montanha, de poder “descortinar” o mundo, vê-lo por outra perspectiva. “Havia uma gravidade em estar ali que ele próprio não compreendia. Mas a cujo sentido desconhecido ele correspondeu com a expressão que um homem tem quando o vento e o silêncio lhe batem no rosto. De algum
modo, pois, não era mentira!”392
Depois de caminhar muito, subindo sem cessar, ele se encontra no coração de alguma coisa que não pode nomear.
388 Cf. BACHELARD (2001). 389
NIETZSCHE, 1998a, p. 68-69.
390“O que fez com certo orgulho, de cabeça erguida. Em duas semanas tinha recuperado um orgulho natural e,
como uma pessoa que não pensa, tornara-se autossuficiente.” (LISPECTOR, 1999c, p. 23).
391 Cf. SOUSA (2004, p. 146). “Situando-se numa zona de fronteira, a literatura de Clarice implica a exclusão de
qualquer tipo de hierarquizações e propõe a instauração de um espaço de errância: não ser de nenhum lugar ou amplamente existir numa gravitação que é todos os lugares”.
Porque, vacilante de cansaço, ele ali estava de pé como se um homem tivesse uma profecia dentro de si. De pé, com as pernas enraizadas de cansaço, com uma trêmula avidez dentro de si como um homem que vai aprender a ler. E à beira de sua mudez, estava o mundo. Essa coisa iminente e inalcançável. Seu coração faminto dominou desajeitado o vazio.
Era um tempo surpreendente. O homem afortunadamente nem sequer tentou compreendê-lo. Talvez o que houvesse nele fossem apenas ecos do que ouvira
dizer: “que do alto de uma montanha a gente descortina”.393
Mas o que, afinal, Martim descortina? Ele parece entrever que um homem precisa de sua solidão. Um homem compreende melhor a si e ao mundo quando se dá o direito de arriscar tudo e começar um novo caminho, quando percebe que cada instante é a abertura para construir o irrealizável. Do alto de uma montanha é possível colocar-se de pé, fazer-se homem e sentir-se livre, como um andarilho que tem por companhia apenas sua própria sombra. Esse movimento de errância394, que caracteriza a escritura de Clarice e faz parte do estilo de Martim, coloca o personagem em questão num lugar privilegiado para descortinar as coisas do mundo, ou seja, num andamento cujos matizes permitem sua epifania. Essa revelação acontece à medida que ele, Martim, se isola para travar um embate com seus valores, pensamentos e sentimentos.
O vento e o silêncio desse lugar de solidão fazem Martim iniciar sua compreensão de que todo homem é só, ou de que cada homem precisa da sua solidão. Apenas o homem que inaugura o movimento de errância rumo a si mesmo pode construir seus valores e transvalorar outros. Escalar a montanha que abre perspectivas diferentes parece ser um dos passos mais importantes da trajetória de Martim. Do alto dessa montanha ele consegue ter uma
“perspectiva de pássaro”395
, um ponto de vista que permite agir sobre as coisas. Tal perspectiva possibilita a Martim começar seu trabalho de reconstrução. Ele pinta uma nova paisagem dentro de si mesmo, o que, como diz Nietzsche, só pode acontecer se pairamos acima da paisagem que queremos recriar: “Não há como pintar essa paisagem, a menos que se
paire acima dela como um pássaro. Aqui a chamada „perspectiva de pássaro‟ não é um capricho de artista, mas a única possibilidade”396
. Para rever seu passado, superar tudo que se tornou, Martim se coloca acima daquilo que constitui sua própria paisagem, se afasta daquilo que antes ele foi.
A partir dessa perspectiva Martim sente que estar só consigo mesmo também é um modo de se ultrapassar. Entender que a vida de um homem é maior que ele mesmo. “Ele 393 LISPECTOR, 1999c, p. 52-53. 394 NUNES, 2004, p. 293. 395 NIETZSCHE, 2008b, p. 228. 396 NIETZSCHE, 2008b, p. 228.
mesmo, aos poucos, tornou-se mais do que um homem sozinho. Fizera-se um desgastamento de seus conhecimentos anteriores, e, quanto a palavras, ele meramente as conhecia como
pessoa que tivesse adoecido delas”397
. Ultrapassar-se significa, em alguns termos, ter a capacidade de se desprender do passado, das palavras criadoras de doenças dentro do homem; de se livrar de todo um universo desprovido da alegria de se ver como um andarilho que pode percorrer um caminho diferente a cada dia, viajante que pode escalar uma montanha e compreender sua grandeza, a grandeza advinda do desafio de se tornar aquilo que se é.
Entendendo-se, afinal, uma calma enorme dominou o homem. Não o espantou sequer a enormidade insensata de seus propósitos. Uma vez que destruíra a ordem, ele nada mais tinha a perder, e nenhum compromisso o comprava. Ele podia ir ao encontro de uma ordem nova. Então, espantado, ele se indagou se algum homem fora alguma vez tão livre como ele estava agora. Depois do que ficou calmo. Não porque estivesse calmo: na verdade seu corpo tremia. Mas porque, de agora em diante, e a começar deste próprio instante, ele teria que ser calmo e incrivelmente astuto para conseguir se acompanhar e acompanhar a rapidez com que teria que agir. Tinha que ser calmo. Agora que alcançara na montanha a própria grandeza – a grandeza com que se nascia.398
Do alto de uma montanha um homem está só. Desse ponto, ele pode entrever sua grandeza. A grandeza de um homem consiste, em certa medida, no fato de ele aceitar que cada um nasce com sua própria solidão, uma solidão a partir da qual podemos criar aquilo que desejamos. A solidão, assim, pode ser entendida como uma potência, uma força plástica, que faz o homem descobrir aquilo que ele se tornou e pode se tornar. Enfrentando seu medo, Martim descobre, do alto da montanha, que é preciso que um homem, para se fazer homem,
seja um artesão solitário. Em outras palavras, “ser um homem fora alguma coisa sem
aplicação. Mas grandeza de que ele agora enfim precisava como instrumento. Pela primeira
vez Martim precisava profundamente de si mesmo”399
. Martim não apenas precisa de si mesmo, mas também precisa lutar consigo mesmo para, nesse embate, estabelecer novas formas de ser, agir e sentir. Instituir uma nova ordem num mundo em que as palavras, os outros, cada coisa que existe e ele próprio ganhem uma dimensão alegre e afirmativa. A solidão do personagem clariciano, desse modo, pode ser vista como uma espécie de agon400, que perpassa toda a escritura do romance.
397 LISPECTOR, 1999c, p. 108. 398 LISPECTOR, 1999c, p. 136. 399 LISPECTOR, 1999c, p. 136. 400
Cf. o ensaio de Michèle Cohen-Halimi (2008), “Nietzsche e a volta do agon”. Nele, a autora observa que a filosofia nietzschiana foi construída sob o signo do agon, luta travada pelo confronto de pensamentos. Acredito que a escritura de Clarice Lispector também confere um espaço privilegiado ao agon e seu personagem Martim é
Existe em A maçã no escuro um campo de forças que se digladiam, uma adversidade entre esquecimento e lembrança, comunhão e solidão, criação e destruição. Esses pares não se opõem, mas travam embates contínuos, que podem ser observados na própria solidão de Martim. O personagem compreende que uma de suas lutas precisa ser consigo mesmo e talvez seja a maior de todas. Essa luta com sua própria solidão será responsável por fazer dele um
criador, e, portanto, precisa ser algo que se aceita a cada instante. “Sentou-se enfim na cama.
E num plano frio e calculado resolveu que sua primeira luta devia ser consigo mesmo”401. Ao aceitar essa luta, Martim expressa seu desejo de destruir totalmente seu antigo modo de ser. Mais que isso, ele realiza um gesto de coragem próprio ao homem que aceita perder seus fundamentos para, a cada dia, construir novos valores, novos modos de sentir e de se relacionar consigo e com os outros.
Viviane Mosé, em O homem que sabe, fala do conceito de agon, que surgiu na Grécia Antiga e que, para Nietzsche402, é uma das mais altivas ideias gregas e “um dos fundamentos
de sua ética”403 .
O agon é uma luta na qual não há trégua nem fim; como é preciso que a luta perdure, para que as diferentes forças da vida se manifestem, os lutadores não podem chegar a um acordo; o que seria uma trégua, e nenhum deles pode ser aniquilado pelo outro, o que significaria o fim do combate. O combate não pode nem se tornar um extermínio, nem se resolver por meio de um acordo, ele deve se manter, de modos distintos e diversos, em prol da conquista em si mesma, ou seja, do engrandecimento da vida, que é uma luta constante. Por isso, mais do que ganhar ou perder, era preciso jogar, lutar. Se as forças são deixadas livres, prepondera a violência, mas se são rejeitadas, anuladas, predomina a passividade, a covardia. Por isso, estimular a força é o alvo, mas, ao mesmo tempo, é preciso construir diferentes espaços onde estas forças possam se manifestar.404
A literatura de Clarice é uma forma de agon. Sua escritura se baseia nessa luta constante entre forças que digladiam e que nunca cessam a disputa. Em A maçã no escuro, assim como em outros textos, o personagem protagonista também trava uma luta consigo mesmo. Martim pode ser visto como um herdeiro de Joana, de Perto do coração Selvagem, e um precursor de outras personagens que seriam criadas tempos depois, como G.H., Lóri e Rodrigo S. M. Se é certo que a escritura de Clarice é atravessada ou constituída pelo agon, no um dos representantes mais acabados do homem que, solitário, duela consigo mesmo no momento de pensar, criar e viver.
401 LISPECTOR, 1999c, p. 137.
402 Cf. Nietzsche (2007b, 1995). Nietzsche desenvolve a questão do agon no texto “A disputa de Homero”,
inserido no livro Cinco prefácios para cinco livros não escritos, e no livro A filosofia na era trágica dos gregos.
403 MOSÉ, 2011, p. 87. 404 MOSÉ, 2011, p. 86-87.
caso particular de Martim, essa luta parece se afirmar e ganhar contornos mais fortes, à medida que o personagem trava um embate consigo mesmo. É na sua solidão e a partir dela que Martim pode viver seus momentos de maior adversidade e, por meio dessa adversidade, construir um novo mundo, perceber sua grandeza, afirmar de modo alegre seu passado, seu
presente e entrever com olhos assertivos seu futuro. “O largo futuro que tinha começado desde o começo dos séculos e do qual é inútil fugir, pois somos parte dele, e „é inútil fugir porque alguma coisa será‟, pensou o homem bastante confuso. E quando for – oh como
poderia se explicar diante de uma manhã tão inocente?”405
Com a inocência de quem se entrega ao instante e faz da própria solidão um espaço onde sua força plástica pode se manifestar de modo mais intenso, Martim vai, aos poucos, compreendendo que cada dia é um novo tempo de lutar consigo mesmo. A cada instante, a vida se apresenta como abertura e imperativo para a disputa. Desse modo, ele sente que mesmo para compreender/descortinar o mundo precisa-se da solidão, “compreender podia se
tornar um pacto com a solidão”406
. Martim faz um pacto com sua solidão e compreende o mundo e a si mesmo, quando consegue se livrar dos valores, das ideias e das palavras alheias e passa a lidar com a construção de suas representações. Nesse sentido podemos dizer que “o
itinerário de Martim pode ser concebido como uma errância fora da linguagem comum”407 .
Assim como Zaratustra, que goza de “seu próprio espírito e solidão”408
, o personagem de Clarice sai do mundo abafado das multidões em direção ao ar puro das montanhas, em uma metáfora do sujeito que se coloca a sós consigo mesmo para reconstruir seu próprio mundo. É como se Martim ouvisse a convocação de sua própria solidão.
Foge para a solidão, meu amigo! Vejo-te atordoado pelo alarido dos grandes homens e picado pelo ferrão dos pequenos.
Dignamente sabem calar-se, contigo, a floresta e o rochedo. Volta a parecer-te