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Segundo Gomes (2004), uma das principais vantagens introduzidas pelos métodos da família Electre é a utilização de um modelo de preferências diferente da Escola Americana. Tal modelo tem o intuito de ser uma representação mais realista do processo de tomada de decisão.

Quando um agente de decisão necessita avaliar duas alternativas segundo um critério, a Teoria da Decisão Clássica (Escola Americana) prevê que existem apenas duas possibilidades para julgamento: ou há uma preferência estrita (representada pela letra P) ou indiferença (I) entre as alternativas. Estes são os axiomas de “comparabilidade completa” e “transitividade” entre as alternativas que são as bases para a Escola Americana. Para Gomes (2004) pode ocorrer que no processo de decisão:

1. O agente de decisão não seja capaz de optar por uma das alternativas ou pela indiferença entre elas por falta de informação. Nestes casos, a decisão tomada

de forma arbitrária faz com que sejam agregados riscos involuntários e desnecessários ao processo de tomada de decisão.

2. O agente de decisão não possua condições de determinar as reais preferências dos tomadores de decisão por serem entidades remotas ou de difícil acesso (ex: chefes de estado) ou difusas (ex: opinião pública).

3. O agente de decisão pode não querer discriminar uma alternativa por não achar o momento adequando para tal, por falta de informação ou por esperar o momento certo com informação mais precisa.

Considerando as três razões apresentada, o sistema de avaliação que considera apenas a preferência estrita ou indiferença (P e I) deve possuir mais duas situações: incomparabilidade e preferência fraca, formando o Sistema Fundamental de Relações de Preferências (SFRP) apresentado na Tabela 20.

Tabela 20: Sistema fundamental de relações de preferências

Situação Definição Relação binária

Indiferença

Existem razões claras e positivas que justificam a equivalência entre duas alternativas.

I: Simétrica (reflexiva)

Preferência estrita

Existem razões claras e positivas que justificam uma preferência significativa a favor de uma (bem definida) das duas alternativas.

P: Assimétrica (irreflexiva)

Preferência fraca

Existem razões claras e positivas que não implicam uma preferência estrita a favor de uma (bem definida) das duas alternativas. No entanto, essas razões são insuficientes para que seja assumida uma preferência estrita a favor da outra ou uma indiferença entre as alternativas.

Q: Assimétrica (irreflexiva)

Incomparabilidade Não existem razões claras e positivas que justifiquem uma das três situações acima.

R: Simétrica (irreflexiva) Fonte: Gomes (2004).

Segundo o referido autor, tem-se a seguinte análise da Tabela 20 para alternativas genéricas denominadas a e b:

A relação aRb, ou incomparabilidade entre a e b, significa que o agente de decisão não obteve informações suficientes para definir os valores das alternativas a e b, fato este que não pode ser interpretado pela indiferença (aIb). Por outro lado, a noção de preferência fraca (aQb) significa que o agente de decisão está convicto

que a alternativa b não é preferível à alternativa a, ou seja, não bPa, mas o agente reluta entre aPb e aIb (GOMES et al., 2004, p. 95).

As quatro situações de preferências presentes na Tabela 20 permitem a elaboração de cinco situações de combinação de preferências presente na Tabela 21.

Tabela 21: Situações de combinações de preferências

Situação Definição Relação binária

Não-preferência

Ausência de razões claras e positivas para justificar uma preferência estrita ou fraca a favor de qualquer uma das duas alternativas. Essa situação combina indiferença e incomparabilidade de discriminação entre elas.

~: a ~ b se, e somente se,

aIb ou aRb.

Preferência (sentido amplo)

Existem razões claras e positivas que justificam uma preferência estrita ou fraca a favor de uma (bem definida) das duas alternativas. Essa situação combina a preferência estrita e a preferência fraca sem discriminação entre elas.

>: a > b se, e somente se,

aPb ou aQb.

Presunção de preferência

Existem razões claras e positivas que justificam uma preferência estrita ou fraca a favor de uma (bem definida) das duas alternativas ou uma indiferença entre elas, sem que haja uma separação significativa entre as situações de preferência fraca e de indiferença.

J: aJb se, e somente se,

aQb ou aIb; aQb → aJb; aLb → aJb ou bJa; (ou não exclusivo).

K-preferência

Nesse caso, ou existem razões claras e positivas que justificam a preferência estrita a favor de uma (bem definida) das duas alternativas, ou verifica-se a incomparabilidade de ambas, sem que nenhuma separação significativa seja estabelecida entre elas.

K: aKb se, e somente se,

aPb ou aRb; aPb → aKb; aRb→aKb ou bKa; (ou não exclusivo).

Superação

Existem razões claras e positivas que justificam seja uma preferência, seja uma presunção de preferência a favor de uma (bem identificada) das duas alternativas, mas sem que haja nenhuma separação significativa entre elas.

S: aSb se, e somente se, a>b ou aJb; então, aSb se, somente se, aPb ou aQb ou aIb; aIb→aSb ou bSa (ou não exclusivo). Fonte: Gomes et al., (2004).

Os métodos Electre são denominados métodos de superação por considerarem apenas as relações em que acontecem ou não a superação das alternativas e seus critérios, demonstrado na situação de combinação das preferências, no que se refere à situação superação descrita na Tabela 21.

O conceito de superação (referido na Tabela 21) pode ser desdobrado em mais dois conceitos: discordância e concordância. Esses dois conceitos se referem a consideração do

risco de se aceitar ao não a superação de uma alternativa sobre outra. Gomes et al, (2004) discorre sobre concordância e discordância conforme a seguir:

 Concordância: ocorre quando um subconjunto significativo dos critérios considera a alternativa a (fracamente) preferível à b.

 Discordância: ocorre quando não há critérios em que a intensidade da preferência da alternativa b em relação à a ultrapasse um limite inaceitável. É a partir da utilização dos conceitos de discordância e concordância que os métodos Electre definem a sua base de cálculos para criar uma seleção, ordenação ou classificação das alternativas analisadas. Os principais métodos Electre desenvolvidos e estudados se encontram na Tabela 22.

Tabela 22: Versões dos métodos da família Electre

Versão Autor Ano problema Tipo de Tipo de critério Utiliza pesos

I Roy 1968 Seleção Simples Sim

II Roy e Bertier 1973 Ordenação Simples Sim

III Roy 1978 Ordenação Pseudo Sim

IV Roy e Hugonnard 1982 Ordenação Pseudo Não

IS Roy e Skalka 1985 Seleção Pseudo Sim

TRI Yu e Wei 1992 Classificação Pseudo Sim

Fonte: Gomes et al., (2004).

Analisando a Tabela 22, pode-se perceber que existem várias maneiras de se aplicar os princípios do método Electre a fim de se obter diferentes tipos de resultados assim como desejado para cada tipo de problema. Porém todos os métodos utilizam o conceito básico de superação.

Na seção 5.1.4 é apresentado um exemplo de aplicação do método Electre I para o estudo de caso.

Na seção 5.1.3.2 é apresentado outra família de métodos pertencente à Escola Francesa, os métodos da família Prométhé , também muito estudados.

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