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Havendo, então, a necessidade de uma nova designação para nomear as mais pequenas unidades significativas da fala, a teoria linguística contemporânea consagrou o termo morfema. A sua aceitação, contudo, não é consensual entre os linguistas modernos, sendo que o mesmo é de uso alargado na terminologia da gramática distribucional, mas restrito, na terminologia de André Martinet. (Dubois J. et al, 1973:419-420), que prefere chamar monema às unidades mínimas significativas (Marçalo, 1992:73). Ou seja, se na tradição da linguística distribucional americana designa-se por morfema a mais pequena forma linguística portadora de significação, o signo mínimo, portanto, na aceção martinetiana, adota-se a designação de monema, definida como unidade significativa mínima sucessiva (Martinet, 1991:20,97). O linguista francês recusa o uso do termo morfema (mas não o rejeita completamente, como será visto) numa altura em que já o mesmo havia conseguido

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uma projeção considerável nos trabalhos linguísticos (Marçalo, ibidem). Martinet prefere a terminologia monema à designação morfema por este insistir demasiado na forma. Neste sentido, o conceito de morfema refere-se “à unidade que diz respeito à morfologia enquanto ciência que estuda as desinências casuais e verbais e os diversos termos gramaticais (artigos, preposições, conjunções), ou ainda, num sentido mais restrito, ao elemento que confere aspeto gramatical à palavra” (Dubois J. et al, op. cit. p. 419).

Mas um exame atento permite perceber que, apesar de divergirem, ambas as posições apresentam também pontos convergentes. Em Martinet tem-se por monema as unidades de primeira articulação, ou o mais pequeno elemento da cadeia, o signo mínimo, que possui um sentido e que, como tal, pode ser objeto de uma escolha do locutor a nível do conteúdo (Gallisson, R. & Coste, D., 1983:488). O morfema corresponde ao signo mínimo, ou à mais pequena forma linguística portadora de significado, e corresponde à última segmentação na análise em constituintes imediatas (Gallisson, R. & Coste, D., op cit. p. 489). Como pontos convergentes, reporta-se o fato de ambas as correntes fazerem menção tanto ao monema quanto ao morfema como ‘signo mínimo’ e de esse signo mínimo dever ser ‘portador de sentido/significação’. Por outro lado, e como já referimos, se, no sentido americano do termo, o morfema não só designa os recursos linguísticos com funções estritamente gramaticais, mas também os elementos referentes a noções ou a categorias relativas à realidade extralinguística, o termo monema propõe-se dar conta das funções de comunicação da linguagem. A distinção consiste no fato de o monema poder ser objeto de uma escolha do locutor a nível do conteúdo, enquanto o morfema se inscreve numa descrição que não leva em linha de conta as escolhas do locutor (Gallisson, R. & Coste, D., ibidem).

Conforme foi anteriormente dito, Martinet não rejeita de todo o uso do termo morfema, pois, ao contrário de B. Pottier, por exemplo, que opta pelo termo gramema (Gallisson, R. & Coste, D., op. cit. p. 491) para se referir aos morfemas de natureza gramatical, Martinet reserva ou propõe a designação morfema para indicar os elementos de estrutura, desinências verbais, afixos, etc. (Dubois et al, ibidem), distinguindo-os dos elementos de nomenclatura, os lexemas (Freitas,1991:46). Nota-se, portanto, que a divergência terminológica relativa aos morfemas existe também na própria tradição gramatical francesa. Outro exemplo digno de referência é que, se Martinet usa o termo lexema (de que falaremos nos próximos parágrafos) para se referir ao morfema de natureza lexical, Vendryes elege o termo semantema para designar os morfemas da mesma natureza. Ora tudo isto deixa claro que se trata de uma discussão cuja abordagem ainda não é consensual entre os linguistas. Apesar disso, tem sido habitual dar o mesmo nome a todos os componentes significativos da palavra: morfemas e significativos, para os linguistas americanos; e morfemas ou formantes, para os europeus (Ducrot & Todorov, op. cit. p. 246). Com efeito, ‘‘é certo que atualmente, grosso modo, equipara-se o monema ao morfema’’, segundo Marçalo (op. cit. p. 73) e também Gallisson, R. e Coste, D. (op. cit. p. 489). Posta esta flexibilidade, e porque ‘‘em linguística são utilizadas as mais diversas terminologias, muitas vezes para se referir a conceitos análogos’’ (Marçalo, op. cit. p. 78), optamos pelo

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termo morfema para nos referirmos ao recurso linguístico que constitui o objeto de análise no nosso estudo, o morfema só. Mas a nossa opção não é, de maneira alguma, absoluta, pelo que poderemos recorrer à terminologia martinetiana, sempre que se afigurar necessário.

Ainda em relação ao conceito de morfema, ao definir-se morfema como ‘signo mínimo’, ‘‘o termo mínimo refere-se à extensão do seu plano de expressão, aludindo à qualquer forma, livre ou presa, que não possa ser dividida em partes menores dotadas de significado’’ (Bloch & Trager, apud Togeby, 1965:94). Tomemos como exemplo o sintema59 papel de parede. Com base em Lopes (s.d:151), “é comum dizer-se que um morfema consta habitualmente de curtas sequências de fonemas, as quais se repetem.” No sintema proposto o fonema /d/ ocorre duas vezes (na interpolação entre os constituintes do composto e no final do último constituinte). Mas, como acrescenta Lopes, nem todas as sequências de fonemas que se repetem são morfemas. Ora sendo que o morfema deve ser uma unidade portadora de significado, partindo deste ponto de vista, o fonema /d/ do último constituinte do sintema não constitui um morfema, por apenas constituir fragmento despido de sentido, ao contrário do fonema /d/ que relaciona os outros dois membros, pois o mesmo tem uma função gramatical, que é manter certas relações com os outros constituintes. Isto motiva a questionar que sentido tem a preposição no sintema em análise. O sentido de que o mesmo está dotado (e de cuja afirmação se faz acerca dos morfemas, em geral, isto é, que são unidades dotadas de um plano de conteúdo), não é, sublinhe-se, o sentido na perspetiva semântica dos elementos linguísticos que remetem para realidades extralinguística, mas um “significado ou sentido gramatical, nos termos em que Benveniste o definiu, a saber, como uma capacidade do elemento para se integrar no nível linguístico imediatamente superior, o da frase, cooperando para a constituição da mesma” (Lopes, op cit. p. 157).