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Vedlegg 2: Intervjuguide

Sandra Siqueira é beneficiária do PBF e reside com sua família próxima à antiga casa de Maria, o que facilitou meu acesso a essa família. Na minha primeira visita à sua casa, fui levada por Maria. Sandra estava arrumando seus filhos para a escola. Entramos e sentamo-nos em cadeiras de plástico. Sandra explicou que, na noite anterior, houve um culto religioso, motivo pelo qual estavam ali as várias cadeiras. A casa da família era de alvenaria e continha uma sala, um quarto, um banheiro e uma pequena cozinha. Na entrada da casa, havia uma porta com uma grade e, ao lado, uma janela que deixava a sala iluminada e arejada.

A sala possuía poucos móveis – algumas cadeiras de plástico, um armário de cozinha que tinha algumas portas quebradas e que era usado para guardar roupas e brinquedos, um tapete com almofadas, uma televisão, uma mesa de canto e uma geladeira duplex (modelo antigo). Durante algum tempo, permaneceu no canto da sala uma estrutura de carrocinha de venda de alimentos, pois Sandra pretendia ter

um “negócio de vendas na praia”, ideia que nunca se concretizou e que, com o tempo, foi descartada. O quarto não tinha janela e era dividido por uma cortina: de um lado, havia dois colchões de solteiro, nos quais dormiam as crianças; e do outro lado, um colchão de casal e um ventilador. Na cozinha, havia uma pia com um armário suspenso, um fogão de quatro bocas, uma máquina de lavar roupas e alguns eletrodomésticos. Ao lado da cozinha, havia uma porta que dava acesso ao banheiro, dotado de uma pequena pia e um espelho logo acima, um vaso sanitário e um chuveiro elétrico. A família era composta de dois adultos (Sandra e José) e três crianças (Joaquim, com 14 anos; Pedro, com 11 anos; e Beatriz, com cinco anos114 −

os dois menores são filhos de José). Sandra é uma mulher de 39 anos, de cor branca e de estatura média, que estudou até a quinta série. Era moradora da cidade de Duque de Caxias e mudou-se para a favela do Pavão-Pavãozinho há uns 17 anos, onde teve seus três filhos. Não falava sobre o pai do seu primeiro filho, mencionando apenas que foi um relacionamento que não deu certo e que nunca mais o viu. Relatou que seus pais eram falecidos e que, embora tivesse dois irmãos e uma irmã, mantinha contato somente com a irmã. Para viver, trabalhava como faxineira. Entretanto, como, quando ficou sozinha com o filho pequeno, o dinheiro que ganhava não era suficiente para sustentá-lo, começou a se prostituir. Em uma das tardes que a visitei, contou sobre o período que trabalhou como prostituta. Descreveu que foi por meio de uma moradora do Pavão-Pavãozinho que conheceu a “Vila Mimosa”115, onde começaria a trabalhar:

A vida estava difícil, as faxinas não davam para sustentar meu filho e eu sem estudo com filho pequeno. Aí, uma moradora me falou da Vila. Fui uma vez com ela e comecei a frequentar. Ganhava mais que fazendo faxina. Vi de tudo lá, até “madame” que queria ver como era. Não tenho

114 As idades aqui mencionadas remontam ao final de 2015. 115 Área de prostituição do Rio de Janeiro.

vergonha de contar, me sustentou (Sandra).

O trabalho como prostituta durou algum tempo, período em que conheceu seu atual companheiro José, um homem de 42 anos, com ensino primário completo, que veio do estado do Ceará para tentar “a vida no Rio”. Trabalhou como pedreiro na construção civil até conseguir um emprego com carteira assinada como ajudante de cozinha em uma pizzaria de Copacabana. Os dois conheceram-se em um bar na favela e logo decidiram morar juntos:

Nos conhecemos no bar perto da padaria. Já tinha visto ele lá até que ele veio conversar comigo. Eu ainda trabalhava como prostituta e contei, ele já sabia. Depois de um mês falou para morarmos juntos e eu fui (Sandra).

A casa onde Sandra e seu filho foram morar era de José. Mesmo depois de estarem vivendo juntos, Sandra continuou na prostituição, pois era a maneira que tinha para ganhar dinheiro. Quando ficou grávida, o companheiro solicitou que ela parasse de se prostituir e não retornasse mais à Vila. Sandra largou, então, a prostituição e passou a cuidar da casa e dos filhos. Quem sustentava a casa era José, mas Sandra expressava em nossas conversas a vontade de trabalhar, ou seja, de ter um emprego ou algum “negócio de vendas na praia”. O único rendimento “seu”, em torno de R$ 183, era oriundo do PBF. Com esse dinheiro, “se virava” e comprava roupas para ela e os filhos, principalmente para a filha menor. As roupas eram compradas em pequenas lojinhas na favela ou em lojas “populares” de Copacabana:

Aqui tem a loja da [...] eu compro alguma coisa lá, pois posso parcelar. Para os meus filhos que já estão mais crescidos, quando dá, compro em lojas de Copacabana, tem coisas mais baratas. Outro dia, um pediu uma bermuda da marca de surfista, ah não, não dá (Sandra).

Sandra também gastava o benefício com produtos de beleza, como tinta para cabelo e esmalte. Em uma das vezes que resolveu pintar de loiro os cabelos, pediu a ajuda da irmã para fazer isso em casa, pois considerava muito caros os preços do salão. Até chegar à cor que Sandra queria, foram gastas três caixas de tinta para cabelo: “Deu um trabalho, e gastei três caixas de tinta, mas ficou bonito, ainda bem que tenho o dinheiro do Bolsa [...]. A minha irmã me ajudou, sozinha não dá para fazer. O meu marido gostou muito”.

A maioria das compras da família era feita na favela, o que incluía alimentos. A facilidade de não precisar “descer até o asfalto” constituía uma das motivações para realizar compras na própria favela. Algumas vezes, a família comprava em supermercados de Copacabana, como o Mundial e o Pão de Açúcar − “Comprar aqui é mais fácil principalmente aquelas coisas do dia a dia. Descer e subir com compras cansa. Aqui é fácil, vai até ali e já volta. Subir e descer do moro não é fácil; em dias quentes, então, é horrível”.

O companheiro costumava deixar o dinheiro para as pequenas compras de alimentos do cotidiano. Sandra cozinhava no almoço, principalmente se o marido estava em casa. Eventualmente, o dinheiro do benefício era gasto com alimentação, sobretudo para comprar lanches e doces para os filhos.

Embora Sandra mencionasse que o dinheiro do PBF fosse “seu”, às vezes, sentia-se incomodada com o recebimento do benefício, pois considerava isso humilhante principalmente porque precisava dar a contrapartida por meio das condicionalidades:

Eu recebo o Bolsa Família, mas acho humilhante. Preferia trabalhar, ainda vou voltar a trabalhar ou botar venda de alguma coisa. Meus filhos estão

na escola, mas isso ser uma obrigação!? Ter que dar satisfação da nossa vida, não gosto (Sandra).

No final de 2013, indicada por sua irmã, Sandra conseguiu um emprego de faxineira em uma academia de ginástica no bairro de Botafogo, onde passou a trabalhar das 14 às 22 horas, ganhando, para isso, um salário mínimo. Quando começou a trabalhar, usou parte do dinheiro do benefício para adquirir um notebook, que foi comprado em prestações com o cartão de crédito do companheiro. Porém, enfatizava que era ela quem pagava as prestações:

Comprei o computador para as crianças e pra mim, eles pediram, e aí, como estou trabalhando, resolvi comprar. O José foi comigo na loja, e fizemos em 12 vezes no cartão dele, mas sou eu que pago. A prestação dá quase o valor do Bolsa, R$ 127; é uma garantia que vou pagar se perder o emprego (Sandra).

Com o salário que ganhava na academia, passou a ajudar nas despesas da casa e comprou uma nova televisão. Frisava que era importante para que os filhos ficassem em casa na parte da tarde quando saía para trabalhar. Pela manhã, os filhos iam para a escola e, à tarde, o mais velho ficava responsável por cuidar da filha menor. Assim como acontecia na família de Maria, Sandra era a responsável por cuidar da casa e dos filhos, mesmo após conseguir o emprego. Seu companheiro não tinha o mesmo horário de trabalho todos os dias, pois os turnos eram alternados pela pizzaria.

Em 2015, Sandra perdeu o emprego, ocasião em que ficou triste, mencionando a importância do dinheiro, de não depender do marido e das melhorias de vida que o seu salário proporcionava à família. Durante o período em que esteve empregada, o benefício do PBF continuou a ser pago, apesar de a renda per capita ter ficado acima do limite estabelecido pelo programa. Essa situação se explica pela

não atualização do seu cadastro − como no período em que Sandra esteve empregada não precisou realizar a revisão cadastral, sua renda no sistema continuou a mesma informada anteriormente. E Sandra estava entre as beneficiárias que omitiam a existência do companheiro, prática já descrita, de forma que o salário de José nunca foi computado na renda per capita da família.

A família de Sandra não sofria a mesma vigilância que a família de Maria, pois, como não recebia auxílio dos vizinhos e de ONGs, não estava entre as famílias em situação de risco social que deveriam ser acompanhadas pelo CRAS. Além disso, o companheiro de Sandra tinha um trabalho formal, sendo considerado um “pobre trabalhador” e “batalhador”, o que também os protegia da vigilância. Ou seja, como “pobre trabalhador”, saia de casa todos os dias para trabalhar, o que às vezes incluía os finais de semana, garantindo, assim, o sustento de sua família e cumprindo seu papel de provedor116. A sua imagem de homem “batalhador” estava

baseada na sua vinda ao Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida – apesar da escolaridade baixa, conseguiu um emprego com carteira assinada e comprou uma casa, demonstrando que soube superar as condições de vida adversas (SOUZA, 2010; CALDEIRA, 1984; ZALUAR, 1994).

O passado de Sandra como prostituta raramente era comentado pelos vizinhos, pois, cuidando dos filhos, ela havia se tornado uma mãe de família. Entretanto, no período em que permaneceu empregada, teve problemas com seu filho mais velho, pois este, segundo ela, começou a andar com meninos envolvidos com o tráfico. Alguns comentários dos vizinhos sobre o fato de o filho estar envolvido com “más companhias” faziam alusão ao passado de Sandra – “filho de quem é,

116 Motta (2014) descreve o valor moral atribuído a alguns homens por serem os provedores do “dinheiro da casa”, dinheiro este que garante o pagamento das despesas familiares.

algum dia ia dar problema”; “coitada, já passou por tanta coisa e agora o filho”. Como a responsabilidade para com o filho era sua, precisava ir atrás do menino quando algum vizinho contava que ele estava com traficantes ou “sumia” de casa. Várias vezes, relatou a vontade de ir embora da favela, devido às “companhias do filho” e à “má fama” atribuída a ela em virtude da situação do filho. A preocupação de Sandra é algo presente em comunidades onde existe tráfico. Motta (2014), pesquisando uma favela da Zona Norte carioca, descreve a preocupação das mães de as “más companhias” influenciassem seus filhos e de que seus estes fizessem “coisas erradas”. Elas buscam, assim, conciliar o cuidado dos filhos com um trabalho próximo de casa para poder vigiá-los:

É difícil trabalhar e ficar de “olho” no Joaquim. Ele era um menino que estudava e agora fica andando com esses meninos que fazem coisas erradas. Já tem gente falando, aí já falam que eu era prostituta. O José não quer saber, aí vou eu atrás dele. Tenho medo que leve o outro também [referindo-se ao seu outro filho] (Sandra).

Em um dos dias que a visitei, ela relatou que encontrou Joaquim fumando maconha na companhia de outros garotos na laje de uma casa. Quando perdeu o emprego, passou a controlar o filho mais de perto. Lamentava que o dinheiro do trabalho fizesse falta, mas ainda contava com o PBF e, estando em casa, podia cuidar melhor dos filhos. Entretanto, Sandra demonstrava certa insegurança quanto à união com o companheiro, como se tivesse receio de que, a qualquer momento, ele fosse embora, apesar de terem filhos e estarem juntos há anos. Falava bastante da importância de ter um emprego e um dinheiro “seu”.