A questão mais polémica a que urge responder é a da razão de se utilizar o conceito de engenharia no domínio das ciências sociais.
Vejamos, “a Engenharia é o estudo e a aplicação dos vários ramos da tecnologia. O profissional neste âmbito recebe a designação de engenheiro. As funções do engenheiro consistem na materialização de uma ideia na realidade. Noutros termos, através de técnicas, desenhos e modelos, e com o conhecimento proveniente das ciências, a Engenharia pode resolver problemas e satisfazer necessidades humanas. A Engenharia também supõe a aplicação da inventividade e do engenho para desenvolver uma determinada atividade. Entre as várias tarefas que pode levar a cabo um engenheiro, destacaremos a investigação (em busca de novas técnicas), a projeção, o desenvolvimento, a produção, a sua construção e operacionalização”.115
A Engenharia é uma ciência porque requer conhecimentos matemáticos, técnicos e é altamente especializada, mas também é uma arte no modo como os articula e aplica na inventividade, aperfeiçoamento e criação de soluções, sob a forma de utilidades, aparelhos, materiais, estruturas e mesmo processos, cuja função realize os objetivos pretendidos. A Engenharia Social, também ela utiliza uma panóplia de técnicas e metodologia científica, para corrigir e melhorar sistemas sociais ou em problemas localizados, implementando novas práticas que os eliminem. A Engenharia surgiu como a arte de conceber e pôr em prática novas técnicas ao serviço da eficácia, o engenheiro é um estratega, um coordenador que se encontra no centro da ação.
A conotação que a legitima é a da perspetiva tecnológica e inovação que assume na atualidade. “Apesar das conotações tecnocráticas relacionadas com a noção de Engenharia,
parece-nos que a deveríamos aceitar plenamente por diferentes razões: de uma parte, a Engenharia Social constitui uma tentativa inovadora para colmatar o fosso, ao desenvolver métodos de diagnóstico e de intervenção, cuja pertinência muitas vezes nada tem a invejar às abordagens experimentadas no domínio tecnológico, porque os problemas com que lidam são de facto infinitamente mais complexos e os seus meios são bastante mais limitados. Por outro lado, ela designa melhor as formas de ação às quais fazemos referência. Como na nossa sociedade tudo o que diga respeito ao tratamento dos problemas sociais, se veja atribuído o mesmo estatuto daquele das populações que beneficiam desse género de intervenção, e se encontre de facto desvalorizado, inválido, é efetivamente o único meio para conferir uma certa legitimidade aos atores que põem em ação essas metodologias e o saber que as sustentam.”116 (Gaulejac, Boneti, & al, 1995, p. 17). É mais do que Sociologia aplicada, ou mesmo investigação-ação, porque os conhecimentos especializados e o leque de técnicas disponíveis, ultrapassam as fronteiras da Sociologia reunindo conhecimentos de outras áreas, tais como a psicossociologia, o marketing, a gestão de recursos humanos, etologia, neurociências, promoção e gestão de eventos, eventualmente física quântica, etc. Todo um reunir de técnicas de diferentes fontes para alcançar um objetivo coletivo. A sistematização e diagnóstico, a mestria ou engenho ao escolher as técnicas adequadas para o problema em questão, de modo a cativar e manter a participação e interesse coletivos. Por todas estas razões tomámos a ousadia de afirmar a diferença e demonstrar a existência e a necessidade da Engenharia Social, para que ao desenvolvimento da sociedade estejam subjacentes os conhecimentos científicos (tal como sonhavam Saint Simon e Durkheim).
A ideia de Engenharia é tão antiga quanto o Homem, pois foi o seu engenho que possibilitou a sobrevivência e propagação da espécie, a utilização de materiais para resolver problemas e que lhe permitiu desenvolver invenções fundamentais tais como a roda ou a alavanca. No ocidente a origem desta designação, remonta à alta idade média em contexto de guerra, ao serem desenvolvidos mecanismos de defesa e de ataque, sobretudo na arte da fortificação. Em França o mais famoso neste mester foi Vauban que recebeu o título de
116 “Malgré les connotations technocratiques attachées à la notion d’ingénierie, il nous semble qu’il faille
l’accepter pleinement pour différentes raisons : d’une part, l’ingénierie sociale constitue une tentative novatrice pour combler le fossé, en développant des méthodes de diagnostic et d’intervention dont la pertinence n’a bien souvent rien à envier aux démarches expérimentées dans le domaine technologique, car les problèmes qu’elles traitent sont en fait infiniment plus complexes et leurs moyens sont beaucoup plus limités. D’autre part, elle désigne le mieux les formes d’action auxquelles nous faisons référence. Comme dans notre société tout ce qui concerne le traitement des problèmes sociaux se voit attribué le même statut que celui des populations qui bénéficient de ce genre d’interventions, et se trouve de ce fait dévalorisé, voire invalidé, c’est effectivement le seul moyen pour conférer une certaine légitimité aux acteurs qui mettent en œuvre ces démarches et aux savoir- faire qui les sous-tendent »
“l’ingénieur ordinaire du Roy” no séc. XVII; Entre 1650 e 1658, Vauban participou em 14 cercos e realizou 6 trabalhos de fortificação de praças-fortes, a que se sucederam 8 anos de paz, durante os quais compilou e aumentou os seus conhecimentos (Dubéchot & Rivard, 2010).
Era uma profissão de risco, pois os engenheiros acompanhavam os exércitos para resolver os problemas que iam surgindo nas batalhas e normalmente estavam na linha da frente junto aos trabalhadores durante os cercos, pelo que a sua taxa de mortalidade era bastante elevada. Os engenheiros eram recrutados entre os arquitetos ou mesmo no momento da batalha destacava-se um soldado do regimento de infantaria para este propósito, a quem também competia a gestão logística e financeira da batalha. Leonard Da Vinci também foi engenheiro militar, pois desempenhava, ao serviço dos Médici, Sforza e Bórgia, a tarefa de construir ou inventar máquinas de guerra, dentre as suas outras artes ao serviço destes mecenas.
O termo de engenheiro surgiu na língua portuguesa no início do século XVI e referia-se a alguém que construía ou operava um engenho. Nos séculos XV e XVI, a engenharia naval desenvolve-se em Portugal, pois a conquista dos mares obrigava a novas invenções e novos tipos de navios.
Historicamente a Engenharia desenvolveu-se no plano militar e naval, enquanto na construção ainda não se distinguia engenheiro de arquiteto, pois seria a partir da engenharia militar que se começou a desenvolver o ramo da engenharia civil. Posteriormente, à engenharia civil, viriam a surgir as restantes especialidades.
Desde o início da sua profissão o engenheiro esteve ao serviço de uma estratégia, pois a Engenharia é a colocação em prática dos dados racionais, ou seja de conceção da ação (Cadiere, 2011), ou ainda como diria Max Weber “a gestão racional dos meios com vista a um fim” (Weber, A ética protestante e o espirito do capitalismo, 1904 (1989)).
Assim, não será despropositada a aplicação do termo àqueles que desenvolvem capacidades específicas ao serviço da colocação em prática de processos e métodos que conduzam à invenção de soluções ou de objetos técnicos complexos. O engenheiro é também um organizador: prevê, organiza, comanda, coordena e controla, devendo ganhar a confiança e simpatia do pessoal com quem trabalha, quer para uma melhor aceitação da sua função, das suas ideias, quer para a mobilização da equipa.
Em França as primeiras escolas de engenharia são fundadas na segunda metade do séc. XVIII, para a produção de génies para a guerra, para a marinha e para as obras civis. O reconhecimento de competências específicas e da mestria de um saber altamente especializado valeu-lhes desde então uma distinção elevada de entre as restantes profissões. Os cursos de Engenharia também foram criados pelo Estado, o primeiro
relacionado com as artes militares em 1571 e o de engenheiros de minas em 1783117, onde se viria a destacar Fréderic Le Play com as primeiras cátedras relacionadas com a Engenharia Social. Atualmente o ensino e pesquisa em engenharia compete aos Institutos ou Escolas Nacionais, como o INSA (instituts nationaux des sciences appliquées) 118 . Em finais do séc. XVIII, no prelúdio da revolução industrial, a classe dos engenheiros surgiu como uma nova classe intermédia entre os patrões e os operários, ocupando um posto legitimado pelo seu savoir faire, formação e experiência. Este posto não dependia da classe social de origem, pois estava ao alcance de qualquer um, que com esforço poderia estudar e ascender à profissão. Uma vez que, estes trabalhavam com ambas as classes sociais e estavam no meio da ação laboral, funcionavam como mediadores naturais em situações de conflito, participando nas reuniões tanto sindicais como nas do patronato. Viriam a revelar- se como impulsionadores das medidas de proteção social, da habitação e da ação social, visando a melhoria das condições de vida e trabalho dos operários e das suas famílias. À semelhança do que aconteceu em Portugal nos finais do Estado Novo, e que viria a fazer emergir a Sociologia no nosso país (Nunes A. S., 1988) (ver capitulo: a função social da Sociologia). Também uma organização católica de engenheiros formalizada em França em 1892, passou a movimento de ação social cuja preocupação central eram as condições de vida dos trabalhadores e dos mais desfavorecidos.