Sabemos que tanto a reprodução como as transformações da comunicação passam por complexas redes de ideologias profissionais e cooperativas, por estruturas de decisão e diferenciação de tarefas, por rotinas e inércias do trabalho que não emanam do capitalismo, mas das condições operadas e dispositivos organizados da produção industrial. (Martin-Barbero, 2002, p.233, tradução nossa).
As associações ou desvios, incertezas e insatisfações, aspirações ou contradições se originam em um turbilhão de novos pensamentos e podem vir a atacar teorias e evidências paradigmáticas. Esse ambiente, com fatores que criam um meio diverso, é propício para um novo pensador, que de início, é tido como louco e pode ser rejeitado por isto (MORIN, 1991, p.47).
A ampla filiação cultural, que se aproxima do carnaval, propicia uma diversidade de condições favoráveis a uma maior hibridação e maior quantidade de sínteses. O carnavalesco vive e transpira esse ambiente, tipicamente urbano, e com ele é capaz de diferenciar o seu trabalho por se afastar das condutas mecânicas. Para Morin (1991, p.36), “A exclusão do determinismo mecânico acarreta a exclusão do reducionismo, que faz de todo o conhecimento um puro e simples produto e, de toda a idéia uma pura e simples ideologia de sociedade.
Diniz, como carnavalesco, não deixa as ideologias de campos diferenciados ignoradas ou isoladas umas das outras. Ele deve trabalhar com as experiências coletivas, com a lógica e a emoção, provocar atritos e compatibilidades, para alcançar uma dramaticidade singular em sua criação. DaMatta (1997, p.36) afirma:
Uma emoção é apenas um dado indiscernível no meio de um continuum de sentimentos que ocorrem numa linha indeterminada [...] é pela dramatização que o grupo individualiza algum fenômeno, podendo, assim, transformá-lo em instrumento capaz de individualizar a coletividade como um todo, dando-lhe identidade e singularidade.
O carnaval cria muita expectativa até a data de seu acontecimento. O momento ansiado é a realidade para a transformação do que ocorre em relação ao restante do período do ano. Pessoas/trabalhadores que se sentem desvalorizados pelo papel social que ocupam em seu cotidiano, na avenida, encontram seu espaço e a oportunidade de brilhar.
As fantasias usadas pelos foliões na avenida vestem muito mais do que o corpo desses sambistas. Mesmo quando quase despidos, a “fantasia” veste a alma do folião. Podemos compreender melhor o uso desta expressão ao conferir DaMatta (1997, p.60) quando afirma que “No carnaval, a roupagem apropriada é a fantasia, um termo que no português do Brasil tem duplo sentido, pois tanto se refere às ilusões e idealizações da realidade quanto aos costumes usados somente no carnaval”.
A realização deste sonho não tem preço. É curioso como alguns foliões investem grandes quantias, mesmo sem as ter, para cultivar este momento mágico e diferenciado no seu cotidiano. Como exemplo, podemos citar as fantasias criadas especialmente para os
destaques . É um reflexo do processo de transformação em busca do espetáculo da teatralização.
Podemos trasladar essa atitude do folião ao consumidor do mundo da moda. Em ambos os casos será observado o extremo valor à vestimenta como um retrato do cotidiano, imposto pelo mercado produtivo/consumista Ambos são paradigmáticos, por carregarem a vestimenta como uma “fantasia”.
Garcia (2005, p. 32) expõe, em relação à realidade dos consumidores da moda, que “O consumidor passa a querer usar para poder ser, já que somente aderindo ao look, receberá o reconhecimento social [...]. O consumidor transforma-se num outro, descobrindo-se diferente daquele eu no qual sua rotina o havia convertido”. É perfeitamente compreensível e aplicável este pensamento aos foliões do mundo do carnaval.
As fantasias, conforme escolhidas, são capazes de revelar o desejo do folião que a adquire para usá-la. Damatta (19997, p.60) afirma que “[...] as fantasias distinguem e revelam, já que cada um é livre para escolher a fantasia que quiser” e “uma fantasia, representando um desejo escondido, faz uma sínteses entre o fantasiado, os papéis que representa e os que gostariam de desempenhar” ibid, p.61.
O autor explica e exemplifica algumas possibilidades de trocas de papéis sociais, que podem ser vistos em um desfile de escola de samba:
Numa sociedade hierarquicamente ordenada como a brasileira, quando se escapa do esquema dominante (da hierarquia), os grupos entram em competição [...] chama a atenção, nesses desfiles, a inversão constituída entre os desfilantes (um pobre, geralmente negro ou mulato) e a figura que ele representa no desfile (um nobre, um rei, uma figura mitológica) e, ainda a participação de toda a sociedade inclusiva, seja como juiz, seja como torcedor. (DaMatta, 1997, p.58)
Nas escolas de samba, a “senha” para participar de um desfile é a escolha e compra de uma fantasia, em uma determinada ala. Existe uma dinâmica administrativa para atender, cativar e satisfazer este novo cliente que chega, e o carnavalesco deve se interar desta
19São pessoas que vestem fantasias diferenciadas, com custos que alcançam cifras que se aproximam ao valor de
um carro novo popular. São vestimentas muito luxuosas, com uso de matéria- prima cara, como pedras e plumas. Os nomes destes foliões ganham destaque na mídia, inclusive na transmissão pela emissora de TV no momento do espetáculo. Esses elementos ocupam lugares diferenciados nas alegorias. Para cada escola, do grupo especial, existem aproximadamente de 10 a 20 pessoas que atendam este perfil. Existem também as composições, que usam fantasias com custos mais baixos, mas se destacam por estarem posicionados nos carros alegóricos. Para estes casos, há um número aproximado de 120 pessoas por escola. Estas fantasias têm um custo, aproximadamente, cinco vezes mais do que as vendidas para os foliões que desfilam nas alas.
realidade. Hoje, este comércio pode ser feito até mesmo pela internet, sem que o folião necessite ir à escola, marcando sua presença, apenas, na hora do desfile.
Os responsáveis por organizar e vender as vestimentas são os chefes de alas. Eles se tornam integrantes sociais na construção do espetáculo, pois serão os responsáveis por fazer o elo entre seus clientes, os foliões e a escola, em especial o carnavalesco. Nesse mercado, uma massa de pessoas consumidoras de fantasias, que muitas vezes nem fazem parte da comunidade do samba, determina o modo como Diniz deve criar e desenhar um figurino.