As trajetórias dos sujeitos dessa pesquisa convergem à Universidade Federal do Ceará em um contexto político crítico, em meio aos desmandos militares. Essa realidade já vinha sendo vivenciada no 2º grau científico, que atualmente se chama ensino médio e se aliava às vivências artísticas que também já vinham se desenvolvendo. O movimento estudantil tinha grande força política advinda do poder de organização em torno das entidades estudantis.
O espaço da universidade reunia as condições necessárias para o desenvolvimento da obra desse grupo de artistas e intelectuais. O acesso ao conhecimento, a efervescência política, a busca da profissionalização, a necessidade impulsionadora para definir um lugar no mundo revertida em uma grande força de vontade para escolher um caminho e ao mesmo tempo alimentar os sonhos de realização de liberdade que naquele momento encontrava-se cerceada pelo regime militar. Outro aspecto importante é que a universidade era, então, uma instituição muito nova, um espaço livre, com certa autonomia e à disposição para os agentes fomentarem pioneiramente suas idéias, seus sonhos, exercitando e experimentando a iniciação política e artística.
É nesse ambiente que surgem, na esteira do CPC, o Cactus e o GRUTA, mesclando teatro, música e poesia. “O Centro Popular de Cultura (CPC) surgiu em dezembro de 1961, no Rio de Janeiro. Foram responsáveis pela sua criação Oduvaldo Vianna Filho, Leon Hirzman e Carlos Estevam Martins.” (RAMALHO, 2002, p. 114).
Toda essa efervescência não surgiu de uma hora pra outra, ela veio de um grande caldo cultural forjado no otimismo brasileiro que ganhou incentivo ainda nos anos de Juscelino Kubitschek que para Augusto Pontes é “[...] a alvorada do Brasil, a criatividade se
exercendo, consentida e louvada em todos os campos: música, cinema, arquitetura, política, parlamentos, jornalismos, literatura, poesia, tudo; era um alvorecer.” (19 de maio de 2006).
Rodger acrescenta: “E os esportes! Maria Ester Bueno, Eder Jofre, a seleção de
basquete e a canarinha campeã em 58 e bi em 62.” (6 de novembro de 2006).
O entusiasmo nacional estimulou a vanguarda artística que podemos ilustrar com o cinema novo, a bossa-nova e a construção de Brasília. Esse desenvolvimento cultural aquecido no período JK resiste nos anos 60 às crises presidenciais de Jânio Quadros e João Gullar e nasce em dezembro de 1961 junto à União Nacional dos Estudantes (UNE) o Centro Popular de Cultura (CPC) se disseminando em várias universidades brasileiras.
Francis Vale nos empresta sua memória:
[...] os anos JK – esse período da segunda metade da década de 50 – foi nesse período em que diversos setores da cultura e das artes brasileiras adquiriram um maior desenvolvimento, é um momento de grande euforia nacional onde a auto-estima do país tava em alta; [...] construção de Brasília, o desenvolvimento, indústria automobilística, Brasil campeão do mundo [...] aí temos toda uma revolução na poesia, nas artes plásticas, o Teatro de Arena, o cinema novo começa a se articular, a “bossa-nova” [...]. (1º de maio de 2006).
O CPC criou a UNE-volante que percorreu todas as capitais com o objetivo de manter contato com os movimentos estudantis, operários e do campo. Cláudio Pereira nos informa que “a UNE-volante era um movimento que teve em todo o Brasil levando shows,
levando jograis, levando recitais, exposições de arte tudo enfocando a parte política.” (4 de junho de 2006).
O CPC gerou um movimento cultural engajado nas questões políticas ganhado adesão de importantes artistas brasileiros como Carlos Lyra, Ferreira Gullar, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal entre outros. Gozando de autonomia administrativa e financeira o CPC se expandiu e
Assim como o CPC da UNE iria dar margem a uma nova concepção de arte e cultura nos primeiros anos do pós-golpe, da mesma forma o CPC do Ceará se transmudou no Cactus, no GRUTA e iria inspirar as atividades artístico-culturais dos diretórios acadêmicos, em especial o da Arquitetura. (RAMALHO, 2002, p. 118).
O grupo Cactus tem esse nome justamente como símbolo de resistência às condições mais adversas possíveis que caracteriza a planta da caatinga, assim como as ações estudantis frente ao poder instituído. Esse grupo unia música e poesia ao teatro. Rodger citou como participantes as seguintes pessoas: “Petrúcio Salvino Mesquita Maia, Iracema Melo,
Olga Paiva, Nonato Freire, Renato Serra e este locutor que vos fala, que entrou para o grupo substituindo Sérgio Costa e uns dois anos depois foi substituído por Wilson Cirino.” (12 de fevereiro de 2006).
Embora a posição política contra a ditadura fosse unânime alguns não queriam ficar vinculados tão fortemente a essas questões e de certa forma o grupo cinde, ainda que mantendo contato, uns se afastam e outros se mantêm mais diretamente ligados às movimentações políticas.
[...] o Pereira fica com o negócio do GRUTA, ele vai organizar o GRUTA, que nós, eu, o Augusto e o Rodger todos participamos no início, mas depois divergimos na parte dos shows e criamos nosso teatro lá, nossa reunião musical, um pouco divergente do Cláudio. (12 de junho de 2006).
O GRUTA é o Grupo Universitário de Teatro e Arte. Idealizado por Cláudio Pereira que em viagem ao Rio de Janeiro assistiu o show “Opinião” com a cantora e compositora Nara Leão47, Zé Kéti48, um compositor e cantor popular da velha guarda do samba do Rio de Janeiro e João do Vale49, nordestino do Maranhão que na década de 50, através do rádio consegue projetar nacionalmente o seu nome. Pereira que já no Colégio Liceu do Ceará se envolveu com movimentos políticos e culturais, chegando a produzir com
47 “Nasceu em 19 de janeiro de 1942 e nos deixou em 7 de junho de 1989. Ficou conhecida como ‘musa da
bossa-nova’, por acolher em seu apartamento na Av. Atlântica no Rio de Janeiro os jovens que fomentavam um novo jeito de tocar e cantar samba. Contudo Nara Leão surpreendeu ao interpretar sambistas esquecidos no seu disco de estréia. No segundo trabalho, apostou tudo nas canções de protesto. A partir daí, popularizou-se como a mulher corajosa, diva do Show Opinião e ícone da juventude brasileira engajada contra a ditadura nos anos 60.” Cf. <http://www.mpbnet.com.br/musicos/nara.leao/index.html>.
48 “Zé Kéti (José Flores de Jesus) nasceu no Rio de Janeiro-RJ em 6 de outubro de 1921 e faleceu em 1999.
Neto do flautista e pianista João Dionísio Santana, companheiro do compositor Índio e de Pixinguinha, e filho de um marinheiro tocador de cavaquinho, Josué Vale de Jesus, desde criança interessou-se por música. [...] Em 1964, ao lado de Nara Leão e João do Vale, encenou o show Opinião, em que lançou alguns sambas de sucesso, como Opinião, Acender as velas e Diz que fui por aí (com Hortênsio Rocha).” Cf. <http://www.mpbnet.com.br/musicos/ze.keti/index.html>.
49 “João Batista do Vale nasceu em Pedreiras-MA em 11 de outubro de 1934 e morreu em 1996. Desde
pequeno gostava muito de música, mas logo teve de trabalhar, para ajudar a família. Aos 13 anos foi para São Luís-MA, onde participou de um grupo de bumba-meu-boi, o Linda Noite, como ‘amo’ (pessoa que faz os versos) [...]. Em 1964 estreou como cantor no restaurante Zicartola, onde nasceu a idéia do show
Opinião, dirigido por Oduvaldo Viana Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, que foi apresentado no teatro do mesmo nome, no Rio de Janeiro-RJ. Dele participou, ao lado de Zé Kéti e Nara Leão, tornando-se conhecido principalmente pelo sucesso de sua música Carcará (com José Cândido). Cf. < http://www.mpbnet.com.br/musicos/ze.keti/index.html >.
ilustrações do seu colega de classe Fausto Nilo um jornalzinho intitulado Alvorada, ao chegar no ambiente universitário amplia sua atuação como agitador cultural. O GRUTA realizou caravanas culturais para o interior do Ceará e para a Argentina. Também produziu um festival de música apresentado no Theatro José de Alencar em 1967 que teve como vencedor o estreante Raimundo Fagner. Esse ainda com a menor idade civil foi convidado por Cláudio Pereira para uma caravana cultural que saía de Fortaleza de ônibus e passava até 45 dias viajando.
Cláudio Pereira recorda que:
[...] o GRUTA era um grupo enorme, incansável [...] era anárquico, espontâneo. Você quer ver: nós juntamos uma vez, uma loucura, cento e tantos estudantes em dois vagões de trem pra levar cultura pro Cariri50, na maior
desorganização que deu certo, era uma confusão [...] fomos com uma exposição de arte, com som em praça, teatro de rua, teatro em palco também, show musical, foi realmente uma coisa marcante, tanto que depois da apresentação do Crato51, nós fomos proibidos de apresentar em Barbalha52 [...] esse ano faz
quarenta anos de GRUTA, quarenta anos da esquerda festiva. (4 de junho de 2006).
Em suas viagens, além de música, poesia e teatro, o grupo também levava exposições de artes-plásticas e fotografias, nessa viagem ao Cariri também foi um time de futebol e líderes políticos, somando mais de cem pessoas em dois vagões de trem. A expressão “esquerda festiva” usada por Cláudio Pereira denota uma certa autonomia artística frente às questões político-partidárias. O GRUTA funcionava como um órgão cultural do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFC mas mantinha certa independência assim como a relação estabelecida entre o CPC e a UNE.
Existe um documento de legalização do CPC local que aponta Augusto Pontes como seu coordenador artístico53 com data de 4 de outubro de 1963, e neste consta a assinatura do mesmo como relator. Não encontramos nenhum marco inaugural do Cactus e do GRUTA, contudo percebemos que foram iniciativas que movimentaram artisticamente o ambiente universitário com música, teatro, poesia, artes-plásticas, tendo como pano de fundo o discurso da liberdade, que inicialmente se contrapõe especificamente aos militares mas que
50 Região sul do Ceará.
51 Cidade localizada na região do Cariri, sul do Ceará. 52 Cidade localizada na região do Cariri, sul do Ceará.
53 Documento localizado no acervo da Associação 64/68 pelo pesquisador Wagner José Silva de Castro e
registrado em sua monografia aprovada pelo Curso de Especialização em Perspectiva e Abordagens em História da Universidade Estadual do Ceará, em 2004, com o título “Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem: artistas cearenses do CPC, da universidade e bares”.
também se amplia em todos os sentidos, inclusive a liberdade de não ter que fazer um discurso unicamente político.
Rodger assim nos apresenta o GRUTA como sendo
[...] do DCE (Diretório Central dos Estudantes, da UFC), uma invenção do Cláudio Roberto de Abreu Pereira, cujo diretor de espetáculos (Teatro, Música e performances) era Francisco Augusto Pontes. Cactus e GRUTA existiram nos anos de 1964 a 1967, tudo muito universitário. O GRUTA também realizou um festival importante, em 1967 [...]. Ali concorria "Mundo-Mudá" (Rodger/Augusto Pontes). Wilson Cirino me passou o violão e acompanhei minha música naquela noite e na grande final no José de Alencar54, onde
tiramos o 2º lugar. A Mércia Pinto ficou com o 1º e Petrúcio/Brandão com o 3º lugar. (2 de fevereiro de 2006).
Augusto Pontes nos informa que “Cactus e GRUTA são paralelos, o Cactus um
pouco antes.” (19 de maio de 2006). O que nos interessa observar é que estamos visualizando as convergências de um grupo de estudantes originários das classes médias do Ceará começando a desenvolver suas aptidões artísticas em torno de temas em comum, em um contexto político e cultural que proporcionava uma atuação coletiva. Essas ações culturais encontraram alguns referenciais externos que são comuns. Destarte, percebemos uma formação política e artística que definem gostos musicais semelhantes. Apontamos anteriormente as coincidências, não na qualidade de casuais e sim incidências que se dão concomitantemente em espaços diferentes tendo como suporte uma estrutura que faz circular nacionalmente os grandes nomes da música popular brasileira que os antecediam; observamos aspectos formativos desde a origem familiar, passando pela vida estudantil. Em seguida veremos que são recorrentes as menções aos bossanovistas, tropicalistas e aos mineiros que ficaram conhecidos com o Clube da Esquina, além dos Beatles e dos Rolling Stones.