Os apontamentos de Maher (2007) apresentados nesta seção nos auxiliarão a analisar o “Projeto Pelo Mundo” e seus possíveis efeitos para contribuir com a educação do entorno para a diferença linguística e cultural no âmbito em que se desenvolveu.
A seguir, dedicamo-nos à metodologia adotada em nossa pesquisa.
2.4 Metodologia
Se, assim como no pós-modernismo, dentro de uma perspectiva pós-colonial, tudo está em fluxo, também meu olhar sobre a pesquisa está em movimento, é temporário, sofre alterações à medida que releio o que escrevo.
(CAVALCANTI, 2006, p.236)
Aliando-nos à perspectiva da Linguística Aplicada Indisciplinar (MOITA LOPES, 2006), em nosso trabalho, buscamos uma metodologia que possibilitasse uma investigação autorreflexiva, que considerasse a heterogeneidade e mutabilidade dos sujeitos – os participantes da pesquisa, incluindo a nós próprios, pesquisadores – por meio de uma visão política que nos permitisse contemplar “outras histórias sobre quem somos” (ibidem, p. 27) e outras vozes, sobretudo, as daqueles que vivem as práticas sociais sobre as quais empreendemos nossa investigação. Assim, como Bizon (2013) e Moita Lopes (2003), em nossa pesquisa, procuramos “entender os fatos sociais a partir da análise dos
- Buscar por aprender a “destotalizar o outro”. - Aprender a aceitar o “caráter mutável do outro”.
- Examinar sua própria cultura. “Chamar a atenção não somente para as diferenças interculturais, mas também, intraculturais.”
discursos que os constroem ou das interpretações das pessoas que vivem as práticas discursivas em foco” (BIZON, 2013, p. 135), por meio deste trabalho interpretativista e de cunho etnográfico (ERICKSON, 1986), na tentativa de ouvir o outro (BIZON, 2013). Para isso, refletimos sobre o que propõe Blommaert (2010), quanto à necessidade de se “repensar[em] nossos aparatos conceituais e analíticos” na contemporaneidade (BLOMMAERT, 2010, p. 1 apud CAVALCANTI, 2013, p. 214), de modo que pesquisadores busquem afastar-se da “utilização de conceitos naturalizados pelo positivismo em metodologias de pesquisa do paradigma interpretativista” (CAVALCANTI, 2006, p. 235). Ademais, compreendemos os participantes da pesquisa como sujeitos sócio- históricos, pensantes, ao invés de “objetos” de investigação (CAVACANTI, 2006), buscando pela compreensão e interação entre pesquisadores e membros das situações investigadas.
Entendemos que o objetivo de nossa pesquisa não foi, em nenhum momento, apresentar um modelo de projeto ou de ação que servisse como “receita” para outros contextos, ou mesmo, para o nosso contexto de ensino. Objetivamos observar as ações realizadas através do Projeto Pelo Mundo e analisá-las de forma crítica, ouvindo também as vozes dos outros participantes da pesquisa – professores envolvidos e estudantes do PEC-G que participaram do projeto – a fim de contribuir para futuras ações que possibilitem a visibilização dos estudantes do PEC-G na universidade onde se desenvolveu tanto a pesquisa quanto o projeto ora focalizado. Como pesquisadora, em consonância com Bizon (2013), entendo-me como ser político. Nesse sentido, as escolhas feitas em minha maneira de organizar e recortar os registros gerados nesta pesquisa, bem como as análises empreendidas se fizeram de forma não neutra; ao contrário, são “contaminadas” por minha “história pessoal” e meus “posicionamentos teórico-epistemológicos e políticos” (ibidem, p. 136). Isto posto, apresentamos os processos metodológicos que fundamentaram este trabalho.
Meu ingresso no mestrado se deu no primeiro semestre de 2015, e as disciplinas começaram na primeira semana de março. As aulas do Curso de PLA para o PEC-G já haviam sido iniciadas desde meados do mês de fevereiro e, desde aquele mês, eu já vinha ministrando aulas de português para aquele grupo. No edital de seleção para o mestrado do ano de 2015, não era necessário apresentar um pré-projeto de pesquisa. Assim, quando ingressei na pós-graduação, não havia um projeto definido, apenas o desejo de investigar sobre o contexto de ensino- aprendizagem de PLA para estudantes candidatos ao PEC-G, visto que eu já trabalhava naquele curso há cerca de três anos e suas peculiaridades me geravam diversas inquietações e questões, como mencionado anteriormente nesta dissertação.
Também como explicamos na seção 1.4 deste trabalho, o Projeto Pelo Mundo não era, a princípio, um projeto em si. Ele surgiu a partir de um problema encontrado pelos estudantes e pelas professoras em sala de aula: uma série de estereótipos e preconceitos que os estudantes trouxeram para a discussão em sala, após alguns deles, de países africanos, se sentirem ofendidos pela pergunta de sua colega, da Guatemala. Eram preconceitos que pareciam incomodá-los bastante, como eles diversas vezes relataram, vindos por meio de perguntas de brasileiros e mesmo dos colegas de sala, sobre seus países de origem, suas construções culturais, o motivo pelo qual estavam no Brasil etc. Os acontecimentos dessa aula serão melhor detalhados no capítulo 3 desta dissertação. Por ora, apenas preciso dizer que, dessa discussão, surgiram diferentes ideias tanto dos estudantes como da professora-pesquisadora e das demais professoras, que levaram ao desenvolvimento de um roteiro para uma peça de teatro37 e a uma série de atividades e iniciativas, por
meio de um convite que os estudantes receberam para participar em um
37 Não nos deteremos na análise desse roteiro em nossa pesquisa. Ressaltamos, no entanto,
que foi elaborado pela professora-pesquisadora com base nas discussões e entrevistas realizadas pelos estudantes e sofreu diversas modificações pelos próprios estudantes, que retiravam e acrescentavam falas e cenas, a nosso ver, para que o teatro realmente visibilizasse suas inquietações quanto aos preconceitos que sofriam, vindos de brasileiros ou dos próprios colegas da sala. Cf. anexo 1, p. 161.
Festival de Culturas da Faculdade de Letras daquela universidade. Esse conjunto de atividades culminou, então, no Projeto Pelo Mundo.
Decidi-me a analisar o contexto de ensino-aprendizagem de PLA por parte daqueles estudantes naquele curso. Como professora- pesquisadora, vi a oportunidade de desenvolver esta pesquisa, a fim de analisar as ações que foram se encaminhando em discussões dentro e fora da sala de aula, de forma a contribuir para a visibilização dos questionamentos e inquietações daqueles estudantes, assim como para uma educação do entorno quanto ao programa PEC-G no contexto daquela IES. A partir da primeira aula em que os estudantes, pela primeira vez – pelo menos para mim –, trouxeram inquietações quanto ao modo como eram narrados por alguns brasileiros e colegas de sala, comecei a registrar, em um diário reflexivo, o que acontecia em minhas aulas ou em outros encontros que propus para a realização de atividades paralelas, com “rodas de bate-papo” esporádicas, em que pudéssemos trabalhar mais profundamente as questões trazidas por eles. Eu buscava levar vídeos, reportagens, notícias e outros materiais que nos levassem a discutir sobre preconceitos, tipos de estereótipos etc. Foi em um desses encontros, por exemplo, que assistimos juntos à palestra de Chimamanda Adichie, no TED Talk, em 2009, intitulada “O perigo da história única”38.
Já no ano de 2016, passamos às entrevistas aos participantes da pesquisa. Estas foram realizadas entre junho e julho daquele ano, com dez participantes: Sè e Amie, professoras do Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G, tanto no ano de 2015 quanto no ano de 2016; Luz e Marie, professoras da Faculdade de Letras onde se desenvolveu o Projeto Pelo Mundo, em 2015; Marcius, estudante daquela mesma Faculdade de Letras, que atua no apoio pedagógico de uma escola municipal mineira; Upendo, Paulina, Sona Victor, Lempira, que, em 2015, eram estudantes do Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G e,
38 Disponível em
em 2016, já cursavam sua graduação em uma IES brasileira; e, finalmente, Sandy, que participou do Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G em 2015, apesar de estar, na verdade, pretendendo uma vaga para o PEC-PG, programa ao qual ela conseguiu se integrar em 2016. As entrevistas com Amie, Luz, Marie, Marcius, Upendo e Paulina foram gravadas na universidade onde se desenvolveu a pesquisa, e as entrevistas com Sona Victor e Sè foram gravadas por meio de uma chamada via Skype, visto que Sona Victor desenvolve seu curso de graduação em outro campus da universidade e Sè, à época da entrevista, estava desenvolvendo outros trabalhos em outra cidade. Paulina e Sandy preferiram fazer conceder a entrevista em suas casas. Os áudios foram gravados com o auxílio de um aplicativo de gravação de voz do celular da professora-pesquisadora. Quando finalizamos a parte de entrevistas, fizemos sua transcrição e passamos à análise dos registros. Na tabela a seguir, discriminamos os instrumentos utilizados para a geração de registros em áudio a partir das entrevistas realizadas, assim como suas datas e duração.
Tabela 8 – Geração de registros – entrevistas em áudio
Entrevistadas(os) Descrição Data Duração
Upendo Estudante do PEC-G. Nacionalidade: queniana. Início do segundo semestre letivo de 2016. 25min 44seg
Paulina Estudante do PEC-G. Nacionalidade: namibiana. Início do segundo semestre letivo de 2016. 31min 09seg
Sandy Estudante do PEC-G.
Nacionalidade: congolesa. Início do segundo semestre letivo de 2016. 35min 43seg
Sona Victor Estudante do PEC-G. Nacionalidade: gabonês. Início do segundo semestre letivo de 2016. 22min 12seg
Lempira Estudante do PEC-G. Início do segundo
Nacionalidade: hondurenho. semestre letivo de 2016. Sé Professora do Curso de PLA para Candidatos ao PEC-G em 2015. Início do segundo semestre letivo de 2016. 30min 12seg
Amie Professora do Curso
de PLA para Candidatos ao PEC-G em 2015. Início do segundo semestre letivo de 2016. 29min 50seg Marie Professora na universidade federal onde se desenvolveu o Projeto Pelo Mundo.
Início do segundo semestre letivo de 2016. 22min 18seg Luz Professora na universidade federal onde se desenvolveu o Projeto Pelo Mundo.
Início do segundo semestre letivo de 2016. 46min 56seg
Ederson Professor da escola
municipal onde a peça Pelo Mundo foi
apresentada. Início do segundo semestre letivo de 2016. 22min 23seg
Para que tivéssemos tempo hábil para finalizar nosso estudo no tempo determinado para este mestrado, selecionamos recortes das entrevistas e do diário-reflexivo da professora-pesquisadora que nos auxiliassem a responder às nossas perguntas de pesquisa. Dividimos nossa análise em duas partes: na primeira, buscamos observar o Projeto Pelo Mundo por meio da voz das professoras participantes da pesquisa e, na segunda, visamos a enxergá-lo por meio da voz dos estudantes do PEC-G, participantes da pesquisa, que estiveram, em 2015, envolvidos no desenvolvimento do projeto.
No próximo capítulo, apresentamos nossas análises ancoradas na perspectiva da Linguística Aplicada Indisciplinar e do Letramento Crítico. Ao nos determos sobre os discursos dos participantes, refletiremos, em particular, sobre questões de política linguística e da educação do entorno, com vistas a responder às nossas perguntas de pesquisa.