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Various parameterizations

De acordo com Spinak (1998, p. 8) os estudos de citações buscam analisar

[...] os padrões e frequências das citações feitas e recebidas pelos autores, as revistas, as disciplinas de investigação, etc. e estuda as relações entre os documentos citados. A razão por trás dessa classe de estudos é que se considera que um artigo científico não é uma entidade solitária senão que está imerso dentro da literatura sobre o tema. A obra de um autor se constrói sobre as obras dos predecessores.

Em reforço a esse argumento, Hayashi e Bello (2014, p. 168) mencionam o caráter retórico da linguagem científica presente nas citações que funciona como um mecanismo de persuasão adotado pelo autor para fortalecer a sua opinião. As autoras recorrem a Latour (2000, p.58-59) para explicar esse fenômeno:

O número de amigos externos com que o texto vem acompanhado é uma boa indicação de sua força, mas há um sinal mais seguro: as referências a outros documentos. A presença ou ausência de referências, citações e notas de rodapé é um sinal tão importante de que o documento é ou não é sério, que um fato pode ser transformado em ficção e uma ficção em fato apenas com o acréscimo ou subtração de referências. [...] uma monografia sem referências é como uma criança desacompanhada a caminhar pela noite de uma grande cidade que ela não conhece: isolada, perdida, pode acontecer-lhe qualquer coisa. [...] Um documento se torna científico quando tem a pretensão de deixar de ser algo isolado e quando as pessoas engajadas na sua publicação são numerosas e estão explicitamente indicadas no texto. Quem o lê é que fica isolado.

Na visão de Spinak (1998, p.9) a análise de citações permite determinar “o conjunto de autores que contribuem significativamente para uma disciplina, a média de referências por documento, as formas da literatura citada e o núcleo dos documentos principais de uma disciplina”, entre outros aspectos.

Apesar da análise de citações possibilitarem compreender a estrutura de um campo científico, Garfield (1973) chama a atenção para suas limitações, enfatizando que essa medida, em si mesma, não traduz a significância de um trabalho, devendo tal método ser utilizado juntamente com outros.

No campo da Educação, Bittar, Silva e Hayashi (2011) analisaram as citações presentes nos artigos publicados na Revista Brasileira de História da Educação e na Revista

Brasileira de Educação. Os resultados obtidos pelas autoras apontaram, entre outros aspectos, que a produção científica em Educação apresenta elevados índices de “publicação individual, predileção por utilizar como referências livros e capítulos, frequência elevada de comunicação científica em fontes nacionais”. (BITTAR; SILVA; HAYASHI, 2011, p. 655). Outro estudo no campo da Educação foi realizado por Custódio (2016) que analisou as citações realizadas em dissertações e teses do Programa de Pós-Graduação em Educação de Marília visando identificar, entre outros aspectos, os autores mais citados e as principais correntes teóricas presentes nas pesquisas analisadas.

Vale ressaltar que no âmbito das análises de citações frequentemente o pesquisador se depara com dois termos quase sempre visto como sinônimos, mas que na verdade são distintos e se complementam na elaboração das teses e dissertações: citação e referências.

Spinak (1996, p. 50) define que “citação é a reprodução textual de uma passagem de um documento, normalmente colocado entre aspas”. Por sua vez, o autor chama a atenção que

referência serve “para sinalizar a transferência de um documento para outro, indicando a

relação entre eles, e isso também pode ser chamado de citação”. Um exemplo esclarecedor de ambos os conceitos é oferecido por Diodato (1994, p.33):

[...] quando o documento A é mencionado no documento B, a menção é uma citação. A menção pode ocorrer no texto do documento ou nas notas finais, notas de rodapé ou lista de referência do documento B.” [...] Para alguns a palavra "referência" é um sinônimo de "citação". No entanto, para ver como eles podem ser distinguidos, considere o exemplo de que o documento A está listado entre as notas de rodapé no documento B. No entanto, para ver como eles podem ser distinguidos, considere o exemplo do documento A que está listado nas notas de rodapé no documento B. Então, pode-se dizer que: o documento B dá o documento A como referência; que o documento B refere-se ao documento A; e que o documento B cita o documento. E também que: O documento A recebe uma citação do documento B; O documento A recebe uma referência do documento B; O documento A é citado pelo documento B. O s bibliometristas geralmente ignoram a terminologia "referência" e dizem que: O documento B cita o documento A; O documento A é citado pelo documento B.

Noronha e Ferreira (2003, p. 249) comentam que citação e referência são como duas estruturas com funções diferentes, sendo a referência “o conhecimento que um documento fornece sobre o outro” e a citação, “o reconhecimento que um documento recebe de outro”.

Moraes e Carelli (2016, p. 147) complementam o conceito de referência afirmando que essas constituem “as principais fontes de informação na técnica de análise de citação”. 3.2.2 Vida média e obsolescência da literatura

No âmbito da abordagem bibliométrica o conceito de “meia-vida” – do inglês half-life, ou “vida média” em português – tem origem na Física Nuclear para expressar o tempo de decomposição das substâncias radioativas. Burton e Kleber (1960) reportam que a área da documentação passou a utilizar dessa analogia para definir o tempo necessário para a obsolescência da literatura publicada3. Para os autores, no entanto, em relação à literatura

científica o conceito de “half-life” é um pouco diferente, pois “ao contrário de uma substância radioativa que se torna diferente quando é desintegrada, a literatura simplesmente se torna inutilizada, mas não inutilizável. É obsoleta, mas não “desintegrada”. (BURTON; KLEBER, 1960, p. 18-19). Ou seja, embora essa literatura não possa ser usada continua existindo. De Bellis (2009, p. 134) explica o significado do conceito de vida média:

É definido como o tempo durante o qual metade do uso total de uma determinada literatura foi feita. Na sua forma mais simples, se o uso é estimado por citações, ele é computado para um conjunto de documentos originais publicados em um determinado ano, subtraindo esse ano do ano de publicação mediano dos artigos citando os documentos. [...] Ou seja, o número esperado de citações acumuladas para os itens de origem diminui ano a ano pelo mesmo fator de envelhecimento.

Line e Sandison (1974) também problematizaram o conceito de obsolescência relacionando-o ao conceito de utilidade. Na visão dos autores, quando se fala na obsolescência da informação, é importante deixar claro se a preocupação é com documentos ou com as informações que eles contêm ao representar o conhecimento. Nas palavras dos autores:

3 Contudo, estudo mais recente (SZÁVA-KOVÁTS, 2002) baseado no exame dos usos anteriores do termo

mostra a falta de fundamento para atribuir ao bibliotecário Burton e a o físico Kleber o termo e a noção do índice de "meia-vida" da obsolescência da literatura, bem como seus empréstimos da Física Nuclear e adaptação à literatura da obsolescência da literatura.

Se a preocupação é com o conhecimento, a “obsolescência” pode ser definida como um declínio da validade ou utilidade da informação, e pode ocorrer pelas seguintes razões: i) a informação é válida, mas foi incorporada em trabalhos posteriores; ii) a informação é válida, mas foi substituída por outras mais atuais; iii) a informação é válida, mas está em um campo de declínio de interesse; iv) as informações deixaram de ser consideradas válidas. (LINE; SANDISON, 1974, p. 283).

Três tipos de estudos de obsolescência da literatura foram apontados por Line e Sandison (1974, p.286): os estudos sincrônicos, que seguem a citação de documentos ao longo do tempo; os diacrônicos, que analisam a distribuição etária dos documentos citados em um dado momento, e os estudos multisincrônicos, que comparam a distribuição etária de documentos citados em diferentes períodos de tempo permitindo assim a medição de mudanças nos processos de envelhecimento da literatura. Os autores ainda comentam que a grande maioria de estudos de obsolescência têm sido do tipo sincrônico, enquanto que os diacrônicos são mais raros devido às dificuldades encontradas em sua execução.

De Bellis (2009, p. 115-116) explica que Brookes (1970) canonizou o modelo de Burton e Kleber ao especificar as condições sob as quais uma distribuição exponencial negativa (ou uma distribuição geométrica, caso se trabalhe com quantidades discretas) pode ser aplicada para descrever fenômenos de envelhecimento.

Não cabe nos limites dessa tese uma discussão mais aprofundada sobre o debate mencionado por De Bellis (2009) a respeito do tema da obsolescência da literatura, que resultou em duas posições contrastantes: os defensores e os detratores. Esses últimos criticam o conceito de obsolescência enfatizando suas deficiências metodológicas, além de questionar a possibilidade de medi-la por meio de citações. Contudo, vale mencionar a posição de Larivière, Archambault e Gingras (2008, p.2) ao explicarem que “o ciclo de vida típico de citações de artigos científicos começa com um rápido aumento durante seus primeiros anos na cena científica, seguido por um pico e, em seguida, uma queda lenta, mas constante no esquecimento ou são incorporados no cânone da ciência normal”. Os autores ainda argumentam que

O conhecimento é mais rapidamente disseminado com meios eletrônicos e, assim, pode-se esperar que a vida útil da literatura científica seja menor. Por outro lado, outros (por exemplo, Odlyzko, 2002) sugeriram que esses meios eletrônicos e bancos de dados bibliográficos on-line teriam exatamente o efeito oposto - isto é, os autores refeririam cada vez mais material mais antigo. (LARIVIÈRE; ARCHAMBAULT; GINGRAS, 2008, p. 2)

No Brasil, diversos estudos sobre vida média e obsolescência da literatura foram realizados em diferentes áreas de conhecimento e tendo como objeto de estudo as citações de artigos científicos. Os estudos que analisaram a vida média de citações em teses e dissertações são menos frequentes na literatura científica brasileira. Contudo foram localizados dois estudos. O estudo de Arao, Santos e Guedes (2015) que buscou determinar a meia vida e a obsolescência do campo da Literatura tendo como base as citações que se encontravam na seção de referências das dissertações e teses do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Literatura da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os resultados da pesquisa indicaram ser de 14 anos a vida média no período entre 2007 e 2008 e de 15 anos, no período entre 2011 e 2012. As autoras concluíram que essa é uma vida média relativamente longa em comparação aos estudos encontrados em outras áreas de conhecimento.

Por sua vez, Osório e Oliveira (2010) realizaram um estudo que visou determinar a obsolescência da literatura utilizada pelos discentes da linha de pesquisa “Ensino, Aprendizagem Escolar e desenvolvimento Humano” do Programa de Pós-Graduação da UNESP – campus de Marília, em suas dissertações e teses, defendidas no ano de 2009. Os resultados apontaram que a literatura citada apresenta uma vida média de aproximadamente sete anos, considerado pelas autoras como uma “vida média jovem”, sendo ainda observado que o fator de envelhecimento dessa literatura é de 90%, ou seja, apresenta uma perda de 10% ano. (OSÓRIO; OLIVEIRA, 2010, p.6).