Apesar de todas as relações que se estabelecem entre as Ciências da Educação e a prática pedagógica dos estágios curriculares supervisionados, há também distanciamento/desarticulação. Essa é a constatação de algumas das estagiárias, embora elas mesmas, em outros momentos, enfatizem aspectos que comprovem a ocorrência, também, da existência de proximidade e de articulação.
MILLEIDE: Nos estágios você vai conhecer toda a problemática, porque uma coisa é você estudar ali nos textos o que acontece na educação, quais os problemas, quais deveriam ser as soluções, como deveria ser levantado a respeito. Outra coisa é quando você vai, que você vai conhecer de perto mesmo, você vai sentir na pele. Aí a gente se coloca no papel do professor, porque às vezes a gente critica tanto quando a gente vai observar uma turma, aí a gente fala: “ah, se fosse eu faria melhor”. Mas quando nós estamos ali é que a gente vai perceber realmente as dificuldades, até em relação aos materiais, em relação ao próprio planejamento, em relação à carga horária, às vezes, do professor que é muito longa e ele não tem tempo de planejar como a gente, estudar como a gente vê que deve ser e como deve fazer essa relação mesmo. Relacionar a teoria com a prática sem esquecer porque às vezes a gente pensa que a prática é totalmente diferente. A gente não deve descartar na realidade, mas estar sempre associando e tentando buscar novas maneiras e os estágios já acrescentou assim, bastante.
O fato de o estudante colocar-se no lugar do professor, como afirma Milleide, constitui, por si só, uma dimensão importante da experiência dos estágios curriculares supervisionados.
MARIANA: É como eu sempre digo, a prática é diferente da teoria. Então, na prática a gente tem como ver as situações de perto, tem como sentir.
Perceber que na prática tem como “ver as situações de perto” e como sentir-se na situação mesmo do professor é mais uma grande contribuição dos estágios para a formação do professor.
ROSÂNGELA: Eu acho que as Ciências da Educação dão uma visão, acho que elas trazem uma visão daquilo que a gente vai estar encarando, mas é claro que muitas vezes a gente vê que a realidade é bem complicada, completamente.
Compreender que a “realidade é bem complicada” também é parte integrante do processo de formação do professor.
LUCILENE: Na verdade, quando eu cheguei na sala eu falei assim: “Gente! Eu queria que minha professora de estágio na educação infantil estivesse aqui”. Sabe por quê? Na hora de você falar, na hora de você passar a teoria, na hora de você estudar a teoria, a sensação que você tem é que o teórico não tem ideia do que seja a realidade na sala de aula. Você não consegue, gente. Você estuda, estuda, estuda e na hora da prática... você estuda, mas na hora que você tem que partir mesmo para prática na sala de aula você percebe que há um distanciamento muito grande. É como se quem escrevesse os livros e artigos nunca tivesse experiência de ser professor, só tivesse experiência de ter sido aluno, e não tivesse experiência de estar ali na sala de aula, no dia a dia. Eu acho que a dificuldade do professor é isso, você não consegue, não consegue muito levar mesmo para a prática o que aprende na teoria... Porque você sabe que na sala de aula são muitas relações, é muita coisa que implica dentro da sala de aula não é só o teórico, não é o que você estuda, tem outras coisas em jogo também que às vezes você não consegue. Eu acho que as discussões teóricas estão pouco relacionadas ou muito distantes das práticas quotidianas da sala de aula na hora da realização dos estágios.
Consideramos bastante naturais esses entendimentos de estranheza da prática em face da teoria durante o processo de formação. Todavia, defendemos que o estudante precisa superar esse entendimento de que a teoria é para ser levada para a prática. A teoria e a prática são dimensões da formação que devem ser ensinadas, aprendidas, experimentadas, vivenciadas e construídas quotidianamente durante a formação inicial, prolongando-se pela atividade profissional do professor.
prática tenha origem no fato de os estágios não retomarem as disciplinas do início do curso que tratam das Ciências da Educação de forma mais teórica.
Dessa forma, a relação entre teoria e prática, percebida através da ligação entre as Ciências da Educação e a prática pedagógica, é colocada em xeque novamente. Há estudantes que chegam ao final do curso de Pedagogia e não identificam semelhanças entre as disciplinas que têm caráter introdutório no estudo das Ciências da Educação e as que têm o caráter de natureza mais prática através da realização dos estágios curriculares supervisionados.
LUCILENE: Achei os estágios que eu fiz estão muito distantes de tudo aquilo que estudei nas disciplinas introdutórias do curso de Pedagogia que tratam das Ciências da Educação. Na verdade, não percebi assim que as disciplinas introdutórias que tratam das Ciências da Educação me ajudaram nos estágios. Se ajudaram, foi tão pouco que eu nem percebi... mas eu acho que não ajudaram mesmo. Eu acho que os estágios meio que esqueceram das disciplinas do início do curso. Para mim, não teve muita relação não ou então eu não consegui estabelecer essa relação.
O fato de não retomar os conteúdos das Ciências da Educação no momento de realização dos estágios curriculares supervisionados também está relacionado a outro fato, pois há estudantes que chegam ao final do curso de Pedagogia sem se lembrar sequer dos conteúdos das disciplinas de natureza teórica estudadas, sobretudo, na primeira metade da licenciatura.
O quadro que apresentamos a seguir comprova essa situação. Solicitamos que cada uma das estagiárias falasse apenas o título de alguns conteúdos estudados em algumas disciplinas. Focalizamos cinco das disciplinas estudadas por todas no curso de Pedagogia da UESB nos quatro primeiros semestres, quais sejam: Psicologia da