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variational reconnection

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A seqüência, depois de ser transcrita, foi resumida pelo instrumento da sinopse, conforme conceituada por Schneuwly et al (2005), um instrumento metodológico que permite reconstruir o objeto ensinado de maneira que se apreenda:

de um lado, as principais características do objeto tal como ele funciona na sala de aula; do outro, as restrições contextuais e os dispositivos didáticos que intervêm em sua construção; enfim, a ordem e a hierarquia na apresentação do objeto ensinado, graças à visão holística da seqüência de trabalho na qual ele se inscreve e se estende.(SCHNEUWLY, 2005, p. 1)

O grande mérito da sinopse, conforme modelizada por Schneuwly, está em ela instrumentalizar o pesquisador com um ponto de vista múltiplo, de modo que o analista pode analisar a seqüência tanto em seu todo, de forma global e

contextualizada - movimento em que apreendemos o gênero “seminário escolar” em sua totalidade, como objeto de ensino – quanto em seus aspectos, mais ou menos extraídos do contexto, como o trabalho do professor, as tarefas realizadas pelos alunos, os objetos ensinados, os instrumentos docentes utilizados, a interação em sala de aula, as formas de avaliação etc. Quer dizer, o analista olha o todo, em sua unidade, mas olha também as suas partes decompostas, topicalizadas, os diversos componentes que o estruturam.

Esse movimento de distanciamento entre o analista e a seqüência didática, que já se faz perceptível com as transcrições, permite que ajustemos a sinopse aos objetivos da pesquisa, trazendo para primeiro plano a dimensão e o fenômeno que se pretende analisar. Ou seja, por esse recurso podemos pôr em evidência a prática do professor ou os objetos ensinados ou as atividades dos alunos e ainda hierarquizar os diversos níveis do objeto selecionado para análise; ou ainda voltar o foco para o caráter epistemológico dos saberes de ensino, analisar o processo de modificação e de reconfiguração dos objetos de ensino a partir das interações dos parceiros no contexto de sala de aula e dos instrumentos utilizados, de como os três pólos do triângulo didático se recompõem mediados pelo contexto, pelos instrumentos de ensino e pelo trabalho docente.

Construímos a sinopse em duas etapas: um primeiro momento em que fizemos um apanhado geral e completo de todo o trabalho realizado e um segundo momento em que descrevemos os diversos episódios28 que constituem a seqüência. O quadro, a seguir, primeira parte da sinopse que construímos da seqüência didática “seminário escolar”, representa a dimensão mais ampla da seqüência. Convém, porém, não nivelar este momento com o anterior: a seqüência didática (quadro anterior) contém o que se planejou fazer e a sinopse contém a síntese do que se fez29. A primeira traz os objetos a

ensinar; a segunda, os objetos ensinados.

28 Estamos empregando “episódios” como definido por Schneuwly e compreendido por

Abreu e Gomes-Santos (2007), que o tomam “como “um evenenement d’une durée variable dont l’étendue temporelle est définie par le fait que le milieu créé reste identique, tendu vers un même objectif didactique” (Schneuwly, 2000, p. 25), podendo agregar uma ou mais aulas, essas consideradas uma unidade administrativa com duração de 45 ou 50 minutos, em geral”.

29Note-se, a exemplo, os episódios 6, 7, 8 e 9, que estavam planejados para uma única tarde e

acabaram sendo fragmentados em vários encontros, frutos das intempéries do contexto e do replanejamento já anunciado

Identificação da sinopse:

Sinopse de seqüência de ensino: Gênero Seminário Escolar

Professora: RCL Formação: Especialização em L. Portuguesa Classe: 1º ano / Ensino Médio Ano: 2006

Analista da Sinopse: HC

Seqüência didática “Seminário Escolar” Esquema de

aplicação Data/ C.H. Episódios/ Arq. Fonte

Formas de registro

Trans-

critos midos Resu- Recons-tituídos

Apresentação inicial da proposta 11.10.06 1h/a – 45’ Caderno de campo Exposição

inicial 19.10.06 31’ 1 - Seminário inicial 16.10.06 Áudio e vídeo X X

M Ó D U L O S Aval. Exp. Inicial 20.10.06 33’ 2 - Avaliação da Exposição Inicial 20.10.06 Áudio e vídeo X X Estruturas do gênero seminário 20.10.06 13’.18’’ 25.10.06 35’ 3 - Caracterização das estruturas do gênero seminário 20.10.06 25.10.06 Áudio e vídeo X X Escuta guiada de um seminário 25.10.06 47’ 26.10.06 1h:12’ 4 - Escuta guiada de um seminário modelo 25.10.06 25.10.06-2 26.10.06 Áudio e vídeo X X 5 – Ordenamento de seqüências de seminários 26.10.06 Áudio e vídeo X X Preparando um seminário: da leitura da fonte ao texto falado 01.11.06 47’ 03.11.06 1h:33’ 6 - Tomada de notas 01.11.06 Áudio e vídeo X X 7 - Construção do texto expositivo 03.11.06 03.11.06-2 Áudio e vídeo X X 8 – Preparação do Roteiro de Exposição (Horários por grupos )

Caderno de campo 9 – Organização da

Apresentação (Horários por grupos)

Caderno de campo

Exposição final 11.11.06 1h:09’ 10 - Produção final 11.11.06 Áudio e vídeo X X

Avaliação da Exposição Final 11.11.06 38’ 16.11.06 1h:30’ 11 – Comentários dos professores apreciadores 11.11.06 Áudio e vídeo X X 12 – Avaliação coletiva 16.11.06 Caderno de campo 13 – Avaliação individual 16.11.06 Ficha de avaliação impressa

Na sinopse, as oficinas e as atividades trabalhadas se desdobram em módulos e episódios de ensino. São também referidas as datas e as formas de registro de cada arquivo de modo a facilitar a localização de cada episódio

resumido nas transcrições ou nas fontes originais. Vale, ainda, notar a forma diferenciada com que tratamos a “Avaliação da Exposição Inicial” e a “Avaliação da Exposição Final”. O fato de termos considerado a avaliação da exposição inicial como um módulo de ensino decorre de que, nesse momento, já se inicia a construção coletiva do modelo didático (como demonstraremos mais adiante) e, portanto, já há um ensino cuja aprendizagem será evidenciada na exposição final. A avaliação da exposição final, embora o ato de ensinar apareça mascarado, não tenha aparência de aula, é, sem dúvida, também, um intenso momento de ensino-aprendizagem, principalmente porque os alunos estão com os sentidos atentos aos comentários apreciativos. Longe de ver a avaliação da exposição final como o fechamento da seqüência de ensino, sabemos, como Bakhtin (2003), que ela se abre para novos diálogos que vão se fazer na continuidade da vida estudantil do aluno. Entretanto, para percebê- los, teríamos que voltar à escola no ano seguinte, procedimento ideal, a nosso ver, mas que naquele momento não nos convinha fazer, mesmo porque não era previsto em nosso projeto de pesquisa. Já que não nos seria possível continuar no campo de pesquisa, e uma vez que precisávamos dar uma forma acabada à sinopse, julgamos que a posição de acabamento temporário não ficaria de todo negativa.

Depois da síntese inicial cada episódio vai sendo descrito de forma resumida. A descrição dos episódios é o lugar em que se revelam os fenômenos que ocorrem na sala de aula, bem como os saberes ensinados, os instrumentos docentes utilizados etc. É também o momento em que, conforme os objetivos do estudo, o analista traz para a superfície o pólo do triângulo didático em que vai centrar seu olhar30. Neste estudo a ênfase foi centrada no

trabalho do professor.

Abaixo transportamos um pequeno trecho da sinopse do sexto episódio. Note-se que a descrição põe em evidência os gestos da professora no trabalho de ensinar, mas ao descrevê-los, a sinopse vai demarcando o nível que cada gesto ocupa dentro da seqüência de ensino. O número 6, por exemplo, indica que essa já é a sexta atividade que a professora realiza para tornar presente e

30 A princípio, pensou-se que a sinopse deveria ser completa, exaustiva, de modo que, a partir

da sinopse, o analista pudesse eleger o pólo que iria enfocar, mas já no início percebemos que essa pretensão, além de extremamente trabalhosa, seria inútil porque, a exemplo do mapa de Borges (apud MARTINS, 2004, p. 440), a sinopse ficaria muito longa.

ensinável o gênero “seminário escolar”; o número zero indica movimentos que realiza fora da atividade do episódio ou em outro enquadre (TANNEN e WALLAT, 2002)31.

Episódio 6 – Tomada de notas

Níveis Arquivo de referência Recurso didático Descrição

6 01.11.06 02’.25’’.8 a 1.04’.38’’.6 Dois referenciais teóricos apostilados; Quadro- branco e lápis para quadro- branco

Atividade em que P ensina os alunos a tomar notas para fins de preparação de um seminário

6.0 02’.27’’.3 a

09’.00’’.0 Conversa introdutória

6.0.1 02’.34’’.5 P comenta as representações e dificuldades que os alunos têm em relação a um seminário

6.0.1.1 P retoma depoimentos de alunos que dizem que suas experiências com seminários não são agradáveis

6.0.1.2 P diz que trabalhar com o gênero oral é uma oportunidade de trabalhar com a língua sem ser dentro dos moldes tradicionais, uma forma de desempenhar bem tanto a escrita quanto a fala

6.1 P anuncia a proposta da aula do dia: extrair do texto pesquisado os elementos-chave para montar o texto de apresentação do seminário

6.0.2 P desabafa sua tristeza com o desinteresse do aluno pela aprendizagem. Diz que, quando o aluno já tem nota boa, ele se ausenta das aulas e com isso perde oportunidade de aprender; que as atividades são importantes para eles , mas muitos alunos estão faltando ; e, finalmente, faz referência ao excesso de feriados e facultados como um problema para o trabalho escolar

0 05’.11’’.0 a

06’.17’’.4 Diretora interrompe a aula para discutir, rapidamente, com a turma um problema referente à Feira Cultural

Tomemos por exemplo o nível 6.0.1.1: o número 6 identifica o episódio dentro da seqüência didática: atividade em que a professora ensina os alunos a tomar notas para fins de preparar um seminário; o número 0 indica que, naquele momento, a professora está fazendo algo diferente do que pede a atividade; o número 1 informa qual é essa atividade que a professora está fazendo: ela está conversando com eles sobre as dificuldades que os alunos têm para apresentar um seminário; o último número 1 informa o primeiro tema que ela convoca na conversa: a professora retoma depoimentos de alunos que tiveram experiências desagradáveis com seminários. No nível 6.0.1.2, o

31 Enquadres: estruturas de conhecimento que orientam as interpretações dos indivíduos nas

interações face a face. Em uma sala de aula, por exemplo, a professora ora dá a aula propriamente dita, ora conversa com os alunos sobre assuntos paralelos etc. Tannen e Wallat (1998/2002) perceberam essa mudança de enquadres como uma espécie de jogo, uma dança em que um enquadre substitui o outro ou sobrepõe-se a ele. Os falantes se movimentam nessa dança alinhando-se a cada novo enquadre posto em cena, ocupando um novo lugar no discurso.

número 2 informa o segundo tema ou argumento que a professora convoca na conversa: ela fala sobre as vantagens de se trabalhar com o gênero oral. Já no nível 6.1, o número 1 informa a entrada da professora no objeto de ensino, é o momento em que ela anuncia aos alunos a atividade do dia. À medida que os gestos da professora vão se modificando, que os objetos de ensino vão sendo ensinados, que os instrumentos docentes vão sendo convocados, os níveis vão se modificando. Mas o zero (0) reaparecerá cada vez que um incidente paralelo ocorrer ou que a conversa girar sobre um assunto fora do tema.

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