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Variation in state agencies’ effort levels and the state’s exposure to civil war risks

Vimos até este momento que, ao contrário do que a leitura em história econômica em geral pode nos induzir à concluir, a construção das convenções de equivalência não se dá por uma disputa entre “teóricos geniais” que se superam em uma disputa acadêmica descolada da realidade social. Suas teorias são alçadas ao protagonismo a partir de crises, momentos críticos e situações anômalas que ensejam resposta ou, alternativamente, quando a realidade se afasta tanto dos seus modelos que obrigam os acadêmicos a tentar demonstrar o novo fenômeno.

Como a aplicação da regra monetária em meados da década de 1970 e 1980 nos Estados Unidos não proporcionaram os resultados esperados pautados nos dogmas macroeconômicos, monetários e financeiros, abriu-se uma janela de oportunidade para a volta da discricionariedade na política monetária. Conforme Krugman (2014), o período de estabilização da economia americana entre 1985 e 2007 ficou conhecido como a “Grande Moderação”, contribuindo para emergir um consenso sobre várias questões

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expôs as limitações e vieses dos modelos econômicos, abrindo margem para a abertura à incorporação de outros princípios de equivalência.

O consenso em torno da Grande Moderação consistiu na crença da política monetária como principal instrumento de estabilização; uso da política fiscal discricionária com moderação por conta do risco dos ciclos político-econômicos e das defasagens temporais. Ao mesmo tempo, o Banco Central deveria ser independente, a fim de evitar o ciclo político- econômico (KRUGMAN, 2014,p. 473).

Há certo consenso de que papel do orçamento como estabilizador automático ajuda a manter a economia em equilíbrio; quase todos os economistas mainstream aceitam a hipótese da taxa natural de desemprego, levando a concluir limites precisos que a política monetária e fiscal poderiam atingir (KRUGMAN, 2014, p 472)

Segundo Krugman (2014, p. 473) a crise econômica americana de 2008 quebrou consensos sobre questões políticas fundamentais. A gravidade da crise tornou inadequadas as políticas que pareciam funcionar durante o que ele chama de Grande Moderação. Havia unanimidade de que o trabalho de estabilização da economia era mais bem realizado pelo FED e outros Bancos Centrais no exterior elevando ou diminuindo a taxa de juros à medida que a situação econômica justificasse.

Em 2009, os Estados Unidos responderam à crise com política fiscal expansionista, com um mistura de aumento de gastos e cortes de impostos temporários, no que ficou conhecido como Quantitative Easing (QE), em que o Banco Central comprou títulos de bancos privados e estes utilizam esse dinheiro para realizar empréstimos e aquecer a economia. Nos capítulos 6 e 7, será demonstrado como os governos de Lula e Dilma se utilizam dessa estratégia análoga à flexibilidade quantitativa em operações de mercado aberto, mas em grande parte em favor dos bancos públicos.

No caso americano em questão, essa prática foi determinada por Bernanke de quem, a princípio, não se esperava, visto que em termos de sua trajetória social e nas expectativas de mercado, seria um agente Hawkish. Da mesma maneira, Janet Yellen, atual presidente do

Federal Reserv, considerada Dovish, tomou posicionamentos em sentido contrário, gerando dúvidas no mercado financeiro.

Esse fenômeno será melhor investigado nas inflexões de juros, contextualizados nas situações em disputa das 4 cenas escolhidas, de maneira a buscar demonstrar em que contextos as posições correspondem às tomadas de posição e em que momentos agem com

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ordens de valor mais amplas, para além das expectativas acerca de seus capitais acadêmico e simbólico.

O mainstream econômico advoga que gastos deficitários contribuem para a elevação da taxa de juros, deslocando o gasto de investimento privado (crowding out); outro argumento é que famílias e empresas veriam qualquer aumento nos gastos do governo como um sinal de que a carga tributária aumentaria em um futuro, levando a uma queda do gasto privado e o programa de gastos poderia minar a capacidade do governo de pagar suas dívidas (KRUGMAN, 2014, p. 474).

Em 2010, vários economistas discutiam que a melhor maneira de impulsionar a economia seria cortar gastos do governo (uma perspectiva do mainstream neoclássico), aumentando a confiança do setor privado, resignificando um conceito keysesiano em uma ótica monetarista. Krugman (2014, p. 474) definiu essa prática como austeridade expansionista, que seria especialmente popular na Europa.

Esse processo de composição de um consenso macroeconômico hegemônico traz indicativos de que a inércia cognitiva está sempre no controle da incorporação ordens de

valor às convenções de equivalência, calcados em uma dimensão dialética com as imposições das consecuções dos cálculos entre acusação e defesa que encaminham desfechos e momentos

de paz.

Conforme aponta Krugman e Wells (2015), as sucessivas crises apontam que os modelos macroeconômicos ainda estão abertos e não há consenso entre eles.

Recentemente André Lara Resende, um dos principais defensores do tripé macroeconômico no governo Cardoso, iniciou um debate que gerou uma consecução de ataques e defesas sobre ordens de valor até então sedimentadas sobre a política de juros. As justificações e defesas tiveram origem no artigo “Juros e conservadorismo intelectual”, publicado pelo economista no jornal valor em 2017.

O questionamento do economista girava em torno do porque os juros brasileiros seriam tão altos, apontando ensaios de renomados economistas americanos do mainstream que estão buscando demonstrar que distorções institucionais e psicológicas estariam associadas à longos períodos de inflação crônica, baixa poupança e alta propensão ao consumo, tanto público como privado e tais períodos potencializariam ineficácias da política monetária. O economista trata então especificamente do caso brasileiro:

179 As altíssimas taxas brasileiras ficaram ainda mais difíceis de serem explicadas diante da profunda recessão dos últimos dois anos. Como é possível que depois de dois anos seguidos de queda do PIB, de aumento do desemprego, que já passa de 12% da força de trabalho, a taxa de juro no Brasil continue tão alta, enquanto no mundo desenvolvido os juros estão excepcionalmente baixos? Há quase uma década, nos Estados Unidos e Europa, e há três décadas no Japão, os juros estão muito próximos de zero, ou até mesmo negativos, mas no Brasil a taxa nominal é de dois dígitos e a taxa real continua acima de 7% ao ano (VALOR, 2017a)

Para Resende, com o reconhecimento de que o instrumento a ser usado pelos Bancos Centrais são os juros e não os agregados monetários e a adoção de metas de inflação, se construiu um consenso na condução da política monetária. Ele chama a atenção para a expansão monetária que ocorreu nos Estados Unidos sem ter influenciado na inflação:

A experiência revolucionária dos bancos centrais do mundo desenvolvido, desde a grande crise financeira de 2008, não deixa mais dúvida: todos os modelos macroeconômicos que adotam alguma versão da Teoria Quantitativa da Moeda (TQM) estão equivocados e devem ser definitivamente aposentados. Os bancos centrais aumentaram a oferta de moeda numa escala nunca vista. O FED, por exemplo, aumentou as reservas bancárias de US$ 50 bilhões para US$ 3 trilhões, ou seja, multiplicou a base monetária por 60, num período inferior a 10 anos. A inflação não explodiu, ao contrário, continuou excepcionalmente baixa. O mesmo aconteceu no Japão, na Inglaterra, e nas economias da zona do euro. Diante do aumento, verdadeiramente extraordinário, da oferta de moeda, a inflação manteve-se excepcionalmente baixa e ainda menos volátil do que no passado (VALOR, 2017a)

Esse contraponto demonstra em “tempo real” como momentos históricos específicos nos países centrais, como a crise econômica que estava até então não prevista, gera reações na fronteira entre o público e o privado na buscar por soluções que, num segundo momento, podem gerar uma reação dos economistas a produzir explicações do fenômeno e se colocarem como alternativa

As universidades do topo do ranking e aqueles agentes já bem posicionados no mundo valem-se de seu renome para construir os novos balões de ensaio, ao passo que economistas dos países emergentes buscam utilizar disso como instrumentos de distinção. Sem as cenas, as abordagens estruturalistas tem dificuldade em captar essas “irregularidades” em relação aos capitais; em outras palavras, sem as cenas, contenciosos e disputas narrativas, complica-se a demonstração dos processos de reificação; os capitais dos agentes são variáveis de análise que podem ter maior ou menor influência, mas não se pode partir de uma metodologia que não reflita sobre o que emerge do fazer econômico à priori.

Esse agente é relevante, uma vez que o mesmo sofreu uma espécie de violência simbólica dos orientadores de doutorado nos Estados Unidos, tendo de abandonar uma tese de

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doutorado mais heterodoxa e enquadrar sua tese em um quadro monetarista e com

modelização matemática; esse assunto será aprofundado no capítulo 5, de maneira a compreender a cena 1 de maneira mais refinada. A seguir, um trecho de sua fala expressa uma nova inclinação às origens:

O abuso da formalização matemática só mascara os graves problemas de identificação estatística. Esta é a essência que recebe duras críticas de Paul Romer, atual economista-chefe do Banco Mundial, a toda teoria contemporânea. Com a experiência radical dos bancos centrais das economistas avançadas, tem-se, entretanto, uma oportunidade única. O chamado quantitativa easing (QE) praticamente replica o que seria uma experiência de laboratório para observar o efeito sobre os preços de um extraordinário aumento da quantidade de moeda. A resposta contradiz frontalmente o que sustentava a teoria monetária quantitativista e a macroeconomia ensinada nas grandes escolas até muito recentemente: nada acontece. A inflação não explode, continua estável e impassível (VALOR, 2017a)

Resende assume uma crítica frontal aos modelos matemáticos até então prevalecentes. Os economistas, em geral então buscam novas demonstrações que busquem explicar esses fenômenos.

A leitura dos laços sociais dos dirigentes também perdem essas dimensões narrativas emergentes de discordâncias e contenciosos, bem como os deslocamentos da compreensão dos agentes frente a mudanças dos fenômenos econômicos e na relação na fronteira entre o público e privado, como a formação das arenas.

Como herança estrutural do capitalismo europeu do século XVI em diante, há um efeito dialético de produção de sentido entre as práticas econômicas e as teorias econômicas que tem base em fenômenos morais, econômicos, históricos, culturais e sociais, em que as disputas situacionais e contenciosos se fazem relevantes.

Em determinados momentos, as práticas econômicas conferem uma contra

performatividade que foi possível, no caso de Bernanke pelo uso da própria interpretação do mercado sobre seus capitais acadêmico e simbólico para “pegá-los” de surpresa e romper a inércia cognitiva da economia mainstream.

As práticas econômicas que emergem como uma contra performatividade, onde em determinados momentos a realidade econômica se distancia dos modelos e obriga os “produtores de teoria” a buscar novas chaves explicativas dos fenômenos. Dada a oposição dos Estados Unidos como credor simbólico, os agentes buscam esse capital acadêmico e simbólico de maneira a se diferenciar; o capítulo 4 se aprofundará sobre esse aspecto.

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Em continuidade na argumentação sobre esse possível novo paradigma, Resende reafirma que a validade dos modelos neokeynesianos, com a introdução da hipótese de Fisher de que a taxa de juros nominal de equilíbrio é igual à taxa real mais a expectativas de inflação futura. Esses modelos, segundo ele, prevêem que no longo prazo a relação entre taxa de juros e inflação é inversa ao que sempre se acreditou: se elevar a taxa de juros a inflação aumenta e se abaixar a taxa de juros a inflação cai (VALOR, 2017a).

O economista chama a atenção de que a hipótese é aventada por John Cochrane, da Universidade de Chicago, um renomado economista, como dimensão de poder simbólico.

Ao entrar no caso propriamente brasileiro, o economista chama a atenção para a crença de que com a queda da inflação crônica com o Plano Real, ainda sim os juros teriam se mantido altos por conta do equilíbrio fiscal precário. Porém, para o economista, o QE teria demonstrado que as elevações monetárias não são inflacionárias, concluindo então que a maior necessidade de financiamento público não exige necessariamente juro alto (VALOR, 2017a).

A idéia subjacente à esta discussão é que o juro alto sinalizaria que a inflação está alta, o que agravaria o desequilíbrio fiscal, no que o economista finaliza ao dizer que “o custo do conservadorismo intelectual nas questões monetárias, durante quatro décadas de inflação crônica do século passado, já foi alto demais” (VALOR, 2017a).

Essa provocação gerou uma reação em cadeia de economistas que já foram diretores do BCB, ministros ou Secretários da Fazenda, que defenderam para o caso brasileiro o uso da elevação dos juros para controlar a inflação, dentre eles: Marcos Lisboa, Samuel Pessoa, Eduardo Loyo, José Julio Senna, Francisco Lafaiete Lopes e Nelson Barbosa.

Essas mudanças podem “sacudir” e reorientar os laços sociais, podendo contribuir para formar novas redes de consolidação político-econômicas potencialmente distintas do passado. Segundo Boltanski e Chiapello (2009, p. 56), os princípios de equivalência que tem a pretensão de legitimidade estão orientados por algum tipo de construto, para uma validade universal.

Nesse sentido, o entendimento dos Estados Unidos como credor simbólico é relevante para compreender como se engendram os deslocamentos dos dispositivos morais monetários que decorrem de contenciosos, ao mesmo tempo em que se deve repousar atenção sobre as diferenças que tais dispositivos adquirem quando usados por agentes locais.