2.1 La variación lingüística en un contexto hispano: bases teóricas
2.1.1 Variación e identidad dentro del mundo hispánico
4 O FIO DE ARIADNE: navegando pela metáfora...
Os atenienses encontravam-se, naquela época, em estado de grande aflição, devido ao tributo que eram obrigados a pagar a Minos, rei de Tebas. Esse tributo consistia em sete jovens e sete donzelas, que eram entregues todos os anos, a fim de serem devorados pelo Minotauro, monstro com corpo de homem e cabeça de touro, forte e feroz, que era mantido num labirinto construído por Dédalo, e tão habilmente projetado que quem se visse ali encerrado não conseguiria sair, sem ajuda. Teseu resolveu livrar seus patrícios dessa calamidade, ou morrer na tentativa. Assim, quando chegou a ocasião de enviar o tributo e os jovens foram sorteados, de acordo com o costume, ele se ofereceu para ser uma das vítimas, a despeito dos rogos de seu pai. O navio partiu, como era de hábito, com velas negras, que Teseu prometeu ao pai mudar de brancas, no caso de regressar vitorioso. Chegando em Creta, os jovens e donzelas foram todos exibidos diante de Minos, e Ariadne, filha do rei, que estava presente, apaixonou-se por Teseu, e este seu amor foi correspondido. A jovem deu-lhe, então, uma espada, para enfrentar o Minotauro, e um novelo de linha[o fio de Ariadne], graças ao qual poderia encontrar o caminho. Teseu foi bem-sucedido, matando o Minotauro e saindo do labirinto. Levando, então, Ariadne, que regressou a Atenas, juntamente com os companheiros salvos do monstro.(BULFINCH, 2002, p.188).
O desafio ao qual se propõe Teseu é muito audacioso, pois envolve várias sensações e consequências que podem ser fatais, podendo inclusive resultar na exterminação de sua própria vida. Mesmo diante dessa possibilidade cruel, Teseu não se esconde ou foge. Ele enfrenta as barreiras por acreditar na esperança de vitória diante do desconhecido e amedrontador Minotauro e na sua capacidade de conseguir sair do abstruso labirinto. Movido pelo amor de Ariadne, ele encontra forças para seguir adiante. Esse sentimento pode mudar seu destino, diferente de tantos outros jovens que morreram e foram esquecidos no amaldiçoado labirinto. Dessa maneira, sua luta, ao enfrentar tantas dificuldades, não lhe traria apenas sua vida de volta, mas o descanso e paz do seu povo legado a carregar a maldição de Tebas.
Tocados pela sensação de desafio de Teseu, ao estudar a visão de discentes acerca do projeto pedagógico do curso de graduação de enfermagem da UFRN e sua articulação com o SUS, nos propomos então a trilhar através dessa metáfora nos avanços e retrocessos desse processo, traçando, através do fio de Ariadne, a constituição das análises travadas pelo diálogo entre os autores e os estudantes pesquisados. Ancorados em pensadores/autores e atores que utilizam a metáfora no exercício da escrita para além da capacidade de compreender e explicar os
fenômenos, nos sentimos afagados pelo desejo insistente de também abraçar com virilidade o lado demens da nossa condição humana. Morin nos alerta a não definir o ser humano de forma unilateral apenas por sua racionalidade. “O homem da racionalidade é também o da afetividade, do mito e do delírio”.(MORIN, 2007a, p. 58).
Negá-la seria como assassinar nossos sonhos e ideais de pesquisadores, na tentativa constante de olhar o mundo através da única suspeita que temos: a de estarmos no mundo e para o mundo. Fonseca (2008, p. 68) dá asas ao nosso desejo quando afirma que a metáfora “pode esticar um discurso e fazer a voz de uma pessoa ecoar por mais tempo no coração e na mente de outra pessoa. Deixa um discurso mais polifônico e prenhe de múltiplos sentidos”. Com a necessidade de nos permitirmos enveredar por caminhos, tão complexos talvez consigamos trazer na discussão tão árdua do projeto pedagógico na enfermagem e para o SUS a possibilidade de um re-encanto por uma ciência que sonha como nos conduz Almeida (2003). Na busca pela possibilidade de reencontrar paixão e prazer, nos debruçarmos de corpo e alma em nossa investigação nos apoiando no pensamento moriniano quando enfatiza que, necessariamente,
ser homo implica ser igualmente demens: em manifestar uma afetividade extrema, convulsiva, como paixões, cóleras, gritos, mudanças brutais de humor; carrega consigo uma fonte permanente de delírio; em crer na virtude de sacrifícios sanguinolentos, e dar corpo, existência e poder a mitos e deuses da sua imaginação.(MORIN, 2008a, p. 7).
Mesmo inebriados por essa sensação de êxtase, muitas vezes perdidos em devaneios que a entrega nos consente, desnudávamos da condição de sujeito histórico que somos na constante necessidade de vir-a-ser, mas que inevitavelmente ainda estará por vir. Diante dessa tentativa de fortalecer os laços do imaginário com a realidade ao nos entregarmos com a aventura do fio de Ariadne, talvez ainda tenhamos uma postura tímida na navegação e fluidez das palavras. Isso, em nenhum momento, significou para nós um empecilho para abandonarmos nosso objetivo ao fazer a analogia da essência de nossos resultados com a mitologia grega.
Com essa premissa, precisávamos conhecer e contextualizar o objeto estudado, na tentativa exótica de aliá-lo ao conto mitológico do fio de Ariadne, sem perder de vista o objetivo de nossa pesquisa, na medida em que podíamos contribuir
com algumas considerações que permeiam a formação da enfermagem para o SUS, na realidade da UFRN. Na tentativa de proporcionar esse diálogo polifônico, recheado de homogeneidade e heterogeneidade, que permeia a formação da enfermagem sob a égide do SUS, na visão de discentes, conduziremos a tessitura do fio de Ariadne nos próximos capítulos do trabalho.
Com o propósito de facilitar a compreensão da nossa tessitura, percorremos cinco teias temáticas: articulação do projeto pedagógico com o SUS: Teseu entra no
labirinto; relação ensino/serviço e teoria/prática: o encontro com o Minotauro;
transdisciplinaridade e/ou interdisciplinaridade: bifurcações no caminho; abordagens didáticas/metodológicas/relacionais: amarras no fio de Ariadne e a co-participação do discente no projeto pedagógico: Teseu no reencontro com os seus.
Para isto, enveredamos pela compreensão de que a teia tem diferentes significados, porém tomamos como referência entendê-la por nos possibilitar a criação e recriação de espaços, armadilhas, conflitos, emoções, realizações, na tentativa de religar saberes. Nesse contexto, lembramos que, no emaranhado de discussões na tessitura das teias, levaremos em consideração sua dinâmica e peculiaridades em manter ligação, entrelaçamento, constituindo-se em um único fio, composto por artefatos diversos que se comunicam e interagem.
Outro fator relevante desta pesquisa diz respeito a articulação das cinco teias com dois eixos norteadores: a formação baseada nas diretrizes curriculares para o curso de enfermagem, e a educação como prática libertadora e transformadora da sociedade. Gostaríamos ainda de acrescentar que o labirinto, componente contextual, nos fará repensar muitas de nossas atitudes frente ao projeto pedagógico de enfermagem, constituindo-se como estratégia eminente para a compreensão da nossa pesquisa inebriada pela inserção do mito do fio de Ariadne, que pulsa em nossas veias e dá vida ao desenrolar dessa história.