7. The reduced form model - the probit
7.2 The variables
Tendo como objetivo fundamentar a opção metodológica julgada mais adequada ao es- tudo que nos propomos a realizar, buscamos contextualizar a pesquisa de tipo etnográfica dentre os métodos comumente adotados em pesquisas qualitativas, resgatando suas raízes históricas na sociologia e antropologia para que possamos compreender como se deu a adoção deste tipo de abordagem em pesquisas educacionais.
Os Princípios e Métodos da Abordagem Qualitativa
Buscando contextualizar as raízes históricas da pesquisa qualitativa, dentro da qual se insere a pesquisa do tipo etnográfico, encontramos respaldo nos estudos de André (2002), pois a autora nos remete ao final do século XIX, momento em que cientistas sociais empreendem um importante debate, colocando em cheque o tipo de pesquisa quantitativa em contrapartida às pesquisas qualitativas, acompanhando seu desenvolvimento e aproximação com a área da educação.
O embate surge a partir do momento em que os cientistas sociais passam a questionar- se sobre a aplicabilidade do método positivista de investigação, empregado nas ciências físi- cas e naturais aos fenômenos sociais e humanos.
Segundo André (2002, p. 16), o primeiro a realizar este tipo de indagação foi o histori- ador Dilthey, pois ele admitia a complexidade e dinâmica dos fenômenos sociais e humanos para serem submetidos a uma metodologia que visa o estabelecimento de leis gerais. Assim,
(...) ele sugere que a investigação dos problemas sociais utilize como abor- dagem metodológica a hermenêutica, que se preocupa com a interpretação dos significados contidos num texto (entendido num sentido muito amplo), levando em conta cada mensagem desse texto e suas inter-relações.
É Weber quem assinala a diferença entre as ciências sociais e as ciências físicas em ra- zão de seu objetivo, na medida em que as primeiras buscam a compreensão dos fenômenos, não a postulação de suas regularidades, como se observa nas ciências físicas e naturais.
Assim, o debate entre o qualitativo e o quantitativo se estende até o final da década de 80 e a corrente que se criou, a partir das idéias de Dilthey e Weber, fica conhecida como cor- rente idealista-subjetivista.
Desta forma, o paradigma (ou a abordagem) qualitativo de pesquisa se configura com base nos seguintes princípios idealistas-subjetivistas:
Não aceitando que a realidade seja algo externo ao sujeito, a corrente idealis- ta-subjetivista valoriza a maneira própria de entendimento da realidade pelo indivíduo. Em oposição a uma visão empiricista de ciência, busca a interpre- tação em lugar da mensuração, a descoberta em lugar da constatação, valori- za a indução e assume que fatos e valores estão intimamente relacionados, tornando-se inaceitável uma postura neutra do pesquisador. (ANDRÉ, 2002, p. 17)
Por não envolver a manipulação de variáveis, a pesquisa qualitativa também passa a ser denominada como pesquisa naturalística e passa a propor uma nova forma de abordagem dos fenômenos – buscando uma compreensão holística, ou seja, que possa levar em conside- ração todas as relações e influências que sofre o objeto de estudo do pesquisador.
Imbuídas nas concepções idealistas-subjetivistas, também se encontram presentes as idéias do interacionismo simbólico, da etnometodologia e da etnografia, que, por sua vez são derivadas da fenomenologia.
A fenomenologia parte do pressuposto de que “a realidade é socialmente construída” (BERGER & LUCKMANN, apud ANDRÉ, 2002, p. 18), logo, leva em consideração a ma- neira como os sujeitos se relacionam e compreendem a realidade na qual estão inseridos.
O interacionismo simbólico pressupõe que o sujeito humano interpreta a realidade a partir das interações que estabelece com outros sujeitos, inclusive construindo a visão de si mesmo, a partir destas relações com o outro.
Já a etnometodologia (corrente da sociologia) passa a preocupar-se com a maneira pe- culiar como os indivíduos compreendem e estruturam seu cotidiano, ou seja, a etnometodolo- gia busca os “métodos” utilizados pelos sujeitos para construírem sua realidade.
A etnografia surge como uma tendência da antropologia em compreender o significa- do das ações e eventos para os indivíduos ou grupos em estudo, significados estes, que consti- tuirão uma cultura particular desta população em estudo.
Assim, nas palavras de André (2002, p. 20), “o etnógrafo encontra-se, assim, diante de diferentes formas de interpretações da vida, formas de compreensão pelo senso comum, signi- ficados variados atribuídos pelos participantes às suas experiências e vivências e tenta mostrar esses significados múltiplos ao leitor”.
No âmbito das pesquisas qualitativas, que passaram a ser empregadas mais intensa- mente a partir dos anos 60, destacamos vários tipos de pesquisa entendidos como parte dessa abordagem:
• Pesquisa-ação ou pesquisa participante
A pesquisa-ação foi criada por Kurt Lewin, um estudioso das questões psicossociais, que visava modificar ações e comportamentos por meio deste tipo de pesquisa.
O processo de pesquisa-ação pressupõe uma série de ações planejadas pelo pesquisa- dor e executadas pelos participantes, que são submetidas à observação, reflexão e mudanças, apoiando-se nos princípios do paradigma crítico.
Este tipo de pesquisa também ficou conhecido como pesquisa participante, sobretudo nos países da América Latina. Seu principal objetivo se resume à “conscientização do grupo para uma ação conjunta em busca da emancipação”. (ANDRÉ, 2002, p. 32)
Na pesquisa participante, deve haver uma devolução dos dados aos sujeitos, pois o ob- jetivo é de conscientização das relações de dominação tornando o grupo capaz de aprender a fazer pesquisa. Este tipo de pesquisa, também, pode receber o nome de intervenção, por pro- vocar mudanças nos sujeitos que a ela se submetem.
• Estudos de caso
Os estudos de caso surgem da iniciativa do pesquisador em compreender determinada realidade como uma unidade, isto é, preconiza o conhecimento particular de uma instituição, um grupo social ou uma pessoa. Entretanto, isto não significa que o pesquisador irá isentar-se das inter-relações que seu objeto de estudo estabelece com o meio no qual está inserido. Por esta razão, a maioria dos estudos de caso acaba incluindo-se na perspectiva etnográfica de pesquisa. É preciso ressaltar, porém, que nem todo estudo de caso é etnográfico e nem todo estudo etnográfico é um estudo de caso. Para ser considerado estudo de caso etnográfico, é preciso contemplar alguns requisitos da etnografia que serão abordados posteriormente neste capítulo.
Sarmento (2003, p.137-138), citando Miles e Huberman, propõe que os estudos de ca- so podem ser “estudos de definição espacial – incide em indivíduos, papéis sociais, pequenos grupos, organizações, comunidades ou contextos ou em nações; e estudos de definição tempo- ral, que incidem em episódios ou situações, acontecimentos ou períodos limitados de tempo”.
É preciso registrar, ainda, que os estudos de caso podem ser múltiplos, como no caso de nossa pesquisa, na qual iremos nos aprofundar na análise de dois espaços educativos - uma creche filantrópica e uma creche pública - visando compreender as relações e as ações empre- endidas sem, no entanto, a pretensão de comparação.
• Pesquisa de tipo etnográfica
A pesquisa de tipo etnográfica, a qual vamos descrever mais detidamente neste estudo, foi desenvolvida pelos antropólogos para o estudo da cultura e da sociedade no final do século XIX e início do século XX. Segundo Ezpeleta & Rockwell (1989), etnografia também é um termo utilizado pela sociologia e articula-se como método e teoria, pois engloba tanto a ma- neira como o pesquisador deve proceder na sua pesquisa de campo como também no trata- mento que este denomina como “descrição cultural” (ANDRÉ, 2002, p.27).
A etnografia surge do impacto e confronto surgidos entre os povos europeus e os po- vos colonizados e traz em seu bojo uma crítica à negação da história dos povos colonizados e às mudanças ideológicas trazidas pelo capitalismo.
Segundo Ezpeleta & Rockwell (1989, p. 36), “esta perspectiva teórico-metodológica apoiava uma reconstrução do desenvolvimento das instituições humanas cujo ápice encontra- va-se sempre nos modelos europeus”.
Ainda segundo a autora, a ruptura inicial que representou esta nova perspectiva teórica continuou sendo refletida nos pressupostos que se tornaram os pilares dos estudos etnográfi- cos – a necessidade de realizar estudos holísticos dos fenômenos e a tarefa de documentar o não-documentado que fizeram com que a antropologia criasse seus traços próprios que culmi- naram com a acumulação de conhecimentos sobre a diversidade humana.
A etnografia proporcionou uma volta à observação da interação social em si- tuações “naturais”, um acesso a fenômenos não documentados e difíceis de
serem incorporados às exigências do levantamento e do laboratório. (EZPE- LETA & ROCKWELL, 1989, p. 38)
Ao longo de seu desenvolvimento, a etnografia passou a englobar algumas técnicas que derivavam das diferentes concepções dos pesquisadores frente a seus objetos de estudo. Dentre estas técnicas, destacamos os roteiros de campo, a nova etnografia ou etnografia se- mântica, a microetnografia e a macroetnografia, sobre os quais discorreremos brevemente a seguir:
Os roteiros de campo surgem da tentativa de sistematização do trabalho de campo an- tropológico, destinando-se a proporcionar categorias universais, que se apliquem a diversas culturas e possam abordar o estudo dos fenômenos educacionais através da objetividade.
Segundo Ezpeleta & Rockwell (1989, p. 40), “(...) longe de ser um instrumento ‘neu- tro’, o roteiro é coerente com a teoria social funcionalista”.
A nova etnografia ou etnografia semântica constitui o melhor exemplo de coerência entre teoria e método etnográfico. Baseando-se nas competências lingüísticas dos sujeitos da pesquisa, esta corrente criou uma série de técnicas específicas de entrevista e análise formal.
A contribuição desta técnica ao campo educacional se refere aos aspectos da cultura escolar, que pode ser evidenciada através da categorização específica que os professores fa- zem dos alunos e destes em relação às diversas situações escolares.
A microetnografia de orientação sociolingüística é o tipo que mais contribuiu para a compreensão dos fenômenos educacionais por concentrar-se na análise detalhada do registro das interações que ocorrem no interior das instituições escolares. Segundo Ezpeleta & Rock- well (1989), este tipo de investigação tem permitido a compreensão do fracasso escolar como decorrente do “conflito cultural”, pois as competências dos alunos diferem do código existen- te no interior da escola provocando tais resultados.
Posteriormente, esta corrente converge para a etnometodologia, pois passa a se interes- sar pela reconstrução das regras de interpretação e participação dos sujeitos, aprofundando seus instrumentos de análise e visando compreender a maneira como os alunos interpretam diferentes situações educativas.
A macroetnografia surge das críticas feitas a microetnografia, pois segundo Ezpeleta & Rockwell (1989), John Ogbu critica a hipótese de “conflito cultural” por entender que esta só se aplicaria a minorias. A partir disso, apregoa que “uma etnografia completa do fenômeno deve incluir as ‘forças históricas e comunitárias relevantes’ e que a unidade adequada para um estudo etnográfico é o bairro e não a sala de aula”.