De acordo com Richardson (2008), a pesquisa qualitativa pode ser distinguida como a tentativa de uma abrangência detalhada dos significados e particularidades situacionais proporcionados pelos entrevistados, em lugar da produção de conceitos quantitativos de características ou comportamentos. Sua finalidade legítima não é contar juízos, ideias ou pessoas, mas, sim, explorar o leque de opiniões e as distintas representações do assunto pesquisado (BAUER; GASKELL, 2008).
Sendo o propósito deste estudo apresentar uma amostra da variedade de pontos de vista a respeito do tema em pauta, a presente pesquisa caracterizou-se como qualitativa, de caráter exploratório, amostral e descritiva. Ademais, foi monodisciplinar, por ter sido realizada apenas em um campo do conhecimento científico (MARCONI; LAKATOS, 2002). 3.2. Participantes
Foi utilizada uma amostra de conveniência composta de 12 professores de Língua Portuguesa do segundo ciclo do ensino fundamental, sendo seis da rede pública e seis da rede particular de ensino do Distrito Federal. A escolha do segundo ciclo se justifica pelo fato de que, nessa fase, espera-se que o aluno já tenha domínio sobre a escrita e que já realize atividades de produções textuais com maior independência, o que possibilita que sua atenção se concentre mais em outras questões, tanto do ponto de vista discursivo quanto do ponto de vista criativo.
No projeto inicial, previa-se a participação de 20 docentes. Entretanto, a exiguidade do tempo e as dificuldades de contato e permissão de coleta de dados em algumas escolas fizeram com que a amostra se restringisse a 12 professores. Este número de participantes, de acordo com alguns autores (BAUER; GASKEL, 2008; DEMO, 2000), é suficiente para a realização de uma boa investigação, uma vez que o que se busca não é uma representatividade, mas uma clarificação, uma ilustração, um delineamento da questão em pauta. A fim de preservar a identidade dos entrevistados, estes foram identificados com as letras do alfabeto, sendo o primeiro chamado de Professor “A”; e assim, sucessivamente, até o Professor “L”, independentemente do gênero, sendo que os professores A, B, C, D, E e F
lecionavam em escolas públicas, e os demais (G, H, I, J, K e L) trabalhavam em escolas particulares. Foram ouvidos professores de cinco escolas diferentes, sendo três escolas públicas e duas escolas particulares, todas situadas em Brasília-DF.
Entre os 12 participantes, quatro eram do gênero masculino (33,33%) e oito (66,67%) do gênero feminino, com idades entre 28 e 58 anos (M = 37). No tocante à formação acadêmica dos professores, todos eram graduados em Letras, sendo que três (25%) haviam concluído apenas a graduação, dois (16,67%) tinham especialização incompleta, seis (50%) possuíam especialização completa, e 1 (8,33%) tinha mestrado completo. A carga horária de trabalho semanal variou de 13 a 44 horas (M = 36,6 h), e o tempo de experiência como docente, de 3 a 21 anos (M = 11,5 anos).
A Tabela 1 apresenta uma síntese dos dados de identificação dos professores entrevistados com relação ao gênero, idade, formação acadêmica, carga horária semanal tempo de experiência como docente e rede em que atua (pública ou particular).
Tabela 1 – Síntese dos dados dos professores entrevistados
Variáveis Categorias f % Gênero Masculino 4 33,33% Feminino 8 66,67% Idade 20 a 30 anos 3 25,00% 31 a 40 anos 7 58,34% 41 a 50 anos 1 8,33% 51 a 60 anos 1 8,33%
Formação acadêmica Graduação completa 3 25,00%
Especialização incompleta 2 16,67%
Especialização completa 6 50,00%
Mestrado completo 1 8,33%
Carga horária semanal 10 a 20 horas 1 8,33%
21 a 30 horas 31 a 40 horas 1 9 8,33% 75,00% Acima de 40 horas 1 8,34%
Tempo de magistério Até 5 anos 1 8,33%
6 a 10 anos 3 25,00%
11 a 15 anos 6 50,00%
16 a 20 anos 1 8,33%
Acima de 20 anos 1 8,34%
Rede em que atua Pública 6 50,00%
3.3. Instrumento
Optou-se neste estudo pela entrevista semiestruturada, por ser esta uma tática muito utilizada na pesquisa qualitativa e que permite ao investigador perceber a dimensão da realidade dos entrevistados. Essa percepção é imperiosa para a interpretação dos dados e das relações entre os atores sociais e sua posição dentro do fenômeno estudado (BAUER; GASKELL, 2008).
A escolha do tipo de entrevista está diretamente ligada às intenções do entrevistador, e também dos objetivos de sua pesquisa. A sensibilidade, a preparação, a postura, a seriedade e ao mesmo tempo a empatia são qualidades fundamentais para o bom resultado de uma entrevista. O uso da entrevista individual, no caso deste estudo, possibilitou à pesquisadora coletar elementos que indicassem a percepção dos professores a respeito de diversos aspectos relacionados aos fatores inibidores e facilitadores da expressão criativa nas produções de textos dos alunos.
De acordo com Rudio (1998), o contato inicial entre o entrevistador e o entrevistado é de suma importância para motivar e preparar o informante, a fim de que suas respostas sejam francas e apropriadas. Uma das vantagens da entrevista é que ela compõe uma fonte de informações que ultrapassa a coleta de dados objetivos, podendo chegar à produção de dados subjetivos que revelam outros aspectos da realidade, como valores, crenças, juízos, postura moral etc (MINAYO, 2007).
No presente estudo, foi utilizado um roteiro de entrevista dividido em duas partes. A primeira, composta de questões de identificação; a segunda, contendo perguntas sobre o fenômeno investigado. Nesta, foram incluídos aspectos referentes ao trabalho dos professores e da escola no que dizia respeito às produções textuais discentes, por exemplo, a frequência com que estas eram solicitadas em sala de aula; também foi sondada a percepção que os professores tinham da criatividade textual dos alunos e da própria criatividade na tarefa de ensinar a redigir; a percepção quanto ao valor atribuído à criatividade nos cursos de graduação realizados pelos participantes; os procedimentos pedagógicos utilizados para a promoção da criatividade nas produções escritas e os fatores inibidores e facilitadores da criatividade nas produções textuais dos alunos (ver Anexo I).
3.4. Procedimentos
Em uma primeira etapa houve contato com algumas escolas, a fim de pedir permissão para entrevistar professores, ocasião em que também foram apresentados os objetivos da pesquisa. Ao mesmo tempo, foram feitos contatos diretos com docentes indicados por colegas de profissão, sempre apresentando a finalidade do estudo antes de convidá-los a participar da entrevista.
Na segunda etapa do trabalho, foi feito um estudo piloto com dois professores, com o intuito de verificar a clareza do roteiro de entrevista, bem como identificar prováveis falhas no instrumento e, a partir daí, fazer as adaptações necessárias para o alcance dos objetivos propostos pela investigação. Entretanto, como não houve dificuldade de entendimento das perguntas por parte dos dois professores, suas entrevistas foram incorporadas às demais.
Os encontros foram realizados nas escolas em que os docentes lecionavam, em dias e horários previamente agendados, tendo sido as entrevistas gravadas em áudio e posteriormente transcritas literalmente em seu conteúdo. Antes de iniciar as perguntas, foi solicitado a cada professor que lesse e assinasse o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ficando a pesquisadora e cada um dos entrevistados com uma cópia do documento (ver Anexo II).
A coleta de dados foi realizada no período compreendido entre os dias 31 de agosto e 31 de outubro de 2011. As entrevistas tiveram duração variável entre 14 e 50 minutos, com tempo médio de 24 minutos. Todas as entrevistas foram conduzidas, gravadas e transcritas pela autora da pesquisa.
3.5. Análise dos dados
Após a obtenção dos dados, estes foram ordenados e organizados para posterior análise e interpretação. Para tanto, foram codificados e tabulados, iniciando-se o processo pela classificação, que é a divisão do todo em partes, sob critérios previamente definidos (RUDIO, 1998; RICHARDSON, 2008). Foi empregada a análise de conteúdo, muito utilizada em pesquisa social, por ser uma estratégia de análise de textos que considera o conteúdo das mensagens e também uma técnica de redução, quando há grande volume de material em um conjunto de categorias de conteúdo (ANDRÉ, 1983).