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Varens symbolikk

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A constelação das devoções diz respeito a todas as práticas devocionais em que o devoto se relaciona com o santo de sua preferência. Tais práticas podem ter caráter

34 Disponível em: <http://meuartigo.brasilescola.com/religiao/caminhando-com-frei-damiao-no-sertao- nordestino.htm>. Acesso em: 27 ago. 2011.

63 individual (preces, novenas, promessas) ou coletivo (procissões, festas de santos padroeiros, romarias). O que predomina aqui não é o caráter ético ou moral, mas o cumprimento de rituais e deveres. Nesse espaço de relacionamento entre o devoto e o santo, se estabelece uma relação de intimidade entre o dois.

Não se trata simplesmente de cumprir o dever religioso, mas de reafirmar a amizade constituída de modo pessoal ou coletivo. Nesse ponto, faz-se necessário investigar o perfil do santo e do Deus que se relacionam com o devoto.

O catecismo católico ensina que Deus "é um espírito perfeitíssimo, eterno, criador do céu e da terra." Depois explica que Deus é onipotente, onisciente e onipresente. Os santos são as pessoas que tiveram uma vida exemplar e que a Igreja canonizou, isto é, declarou que estão no céu e que sua vida é digna de ser imitada pelos fiéis. Os santos do céu fazem parte da Igreja triunfante, enquanto os católicos que ainda vivem na Terra fazem parte da Igreja militante. Os santos estão conscientes de nossas necessidades e intercedem junto a Deus em nosso favor, valendo-se dos méritos que alcançaram na terra.

Na experiência devocional cotidiana, Deus ocupa lugar privilegiado na vida dos devotos, sendo mencionado nas atitudes mais simples do dia a dia, como nas fórmulas de intercessão - “Que Deus te proteja”, nas advertências - “Deus mora nesta casa”, nos agradecimentos - “Deus é fiel”, expressões conhecidas e usadas por todos.

Diferentemente da Igreja, o devoto vê a Deus como um Senhor muito bondoso e poderoso, mas muito afastado de sua vida e de suas dificuldades cotidianas. Deus é poderoso para julgar e observar tudo o que se faz na Terra, mas sua participação na vida é a de um observador. Por isso, o devoto costuma buscar o santo com o qual se identifica e se sente próximo e amigo, por ser conhecedor de sua história e dos desafios e por ter sido alguém que viveu como ele e conseguiu superar os problemas.

Muitos devotos acreditam que Deus fornece as graças através dos santos. Por isso, a Igreja deseja que sejam reconhecidos pela vida exemplar e virtuosa, pelo referencial e modelo a ser seguido. Mas, ao contrário do que deseja a hierarquia oficial, o devoto não se vale do santo pela oportunidade de seus ensinamentos, pela heroicidade de suas virtudes ou pela beleza de seus exemplos, mas quase constantemente pelo seu poder. O povo não dirá "São Francisco é um modelo da virtude da pobreza", mas "São Francisco é muito poderoso".

64 Às vezes, o relacionamento afetivo do devoto com o santo emerge lentamente e isso independe de o santo ser reconhecido ou não pelo magistério da Igreja. Ainda que o santo não seja canonizado, ele é reconhecido pelo devoto. Um dos santos mais reconhecidos em todo Brasil é o padre Cícero35, o “padim Ciço” como é chamado carinhosamente por muitos peregrinos em Juazeiro, personagem não reconhecido como santo pela Igreja.

Assim, não se pode confundir o santo vivo com a imagem de santo. Apesar de muitos identificarem o santo com a imagem, como faziam alguns povos antigos, o devoto não acredita que o santo seja a imagem; esta tem o objetivo de identificá-lo, não de localizá-lo.

Ao santo, atribuem-se características que moldam sua personalidade e fazem supor a sua forma de existência na experiência do devoto. Assim, as imagens tentam representar os traços físicos e psicológicos da divindade, valorizando um ou outro aspecto, conforme a visão do santeiro. Isso explica porque certas representações acabam sendo mais apreciadas que outras, por se adequarem de maneira mais exata às perspectivas dos fiéis. É o que ocorre com a imagem de São Francisquinho, mais querida do que aquela sobre o altar e a fincada no Alto do Moinho, embora sejam as representações do mesmo santo. Apesar do que dizem os padres, existe uma profunda identificação do devoto com o santo que se comunica na imagem, pois se trata da presença do santo vivo, do ser que se comunica e se revela.

Outra situação interessante na experiência do devoto com o santo é que, para ele, o local onde o santo se encontra revela o espaço sagrado de encontro com a divindade. É por esse motivo que muitos devotos, oriundos de todos os lugares, chegam para ver o santo que recebe visita, flores, presentes, cartas e homenagens. Existem, também, os que recebem roupas caras e ocasionais, alimento e promessas. Alguns deles descem de seus altares para conversar e até para dançar com o povo, escutam confidências, atendem nos grandes e nos pequenos problemas. São tratados como alguém da família, são pais, mães ou padrinhos.

Há, ainda, na devoção popular, outra categoria de "santos", citados e invocados sempre no plural. São "as almas penadas". A devoção popular chama de “alma penada” àqueles que já morreram, cuja alma tenta sem sucesso o contato e o diálogo com os vivos. Falta-lhes a consciência de que precisam partir para o mundo espiritual e desligar-se deste.

Diz Hoefle a esse respeito:

35 Para uma visão mais ampla do Pe. Cícero, ver BRAGA, Antônio Mendes da Costa. Padre Cícero: Sociologia de um padre, antropologia de um santo. Ver também: MOURA, Abdalaziz. Frei Damião e os impasses da religião popular. REB 36, nº 141, março de 1976, p.216.

65 Quando morre uma pessoa seu corpo é enterrado no cemitério onde, normalmente, com o tempo, a carne se desfaz ficando a ossada no túmulo. Para o sertanejo, a morte não se dá por completo com a mera perda das funções vitais físicas, pois até que a carne seja consumida pela terra, ainda resta uma ligação entre o corpo e a alma do falecido. Durante esse período, a alma fica vagando em volta do túmulo até completar o processo da carne degenerar e virar terra, quando, então, a alma passa completamente para o outro mundo. É importante enfatizar o termo completamente porque se crê que, durante esse período, a alma também está no outro mundo. (HOEFLE, 1996, p. 12)

A Igreja possui uma concepção diferente sobre esse tema. Ela explica que se trata das almas do purgatório, ou seja, das pessoas que morreram na graça de Deus, mas que ainda devem purificar-se de seus pecados veniais ou expiar os pecados mortais que já foram perdoados. As almas do purgatório não podem rezar por si mesmas para obter alívio de suas penas, mas os vivos podem rezar por elas e amenizar seus sofrimentos. Essas mesmas almas podem rogar a Deus pelas pessoas que rogarem por elas. Assim, todas as recomendações da Igreja dão-se no sentido de que os fiéis rezem pelas almas do purgatório36.

O devoto que vive neste mundo costuma rezar pelas almas penadas. Assim, cada qual reza pelo outro. Outros piedosos acendem velas para as almas37 e para aqueles falecidos que lhes apareceram em sonho. Para Vilhena (2004, p.01), a morte é um evento social que congrega ou espalha pessoas, fortalece ou dissolve famílias, promove a solidariedade entre os vivos. Quando uma pessoa falecida aparece em sonho, isso significa que a alma desta pessoa quer reza, conforme a sabedoria popular. Essas almas ainda não conheceram a luz, vivem na escuridão.

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