A ocupação da cidade pelas máquinas, no início do século XX, imprimindo seus territórios produtivos, seus fluxos de passagem, suas contenções e repousos, é um dado extremamente importante para a compreensão das transformações que não só o espaço visual, mas que também o espaço acústico tem sofrido no período moderno. O advento das tecnologias de produção autônomas transformaram a nossa percepção, antes vinculada à relação entre nossas corporalidades e os ambientes que as englobam e os fazeres que as determinavam. A partir da máquina, de sua emancipação, que inventa fluxos produtivos não reconhecidos na natureza, e de suas escórias (sonoras, visuais, tácteis), o homem convive com a tensão entre ser determinado e determinar o ambiente no qual se inscreve.
Os motores movidos a água, vapor ou carvão, não se comparam ao que se tornou possível com a eletricidade e a síntese de combustíveis não-renováveis, derivados especialmente do petróleo, com sua projeção para além dos processos produtivos tradicionais. De uma circunscrição bastante delimitada, como a de um descaroçador de algodão, que se baseava em uma etapa primária da produção, às indústrias automotivas, ou navais, e, recentemente, da tecnologia informacional que a cada dia se miniaturiza mais, há um vão que se traduz em uma mudança de paradigma. Da realização de funções primárias, agenciamento de matérias-primas, ao processamento de informação, há uma diferença tecnológica, de princípios, objetivos e funções. A multidimensionalidade do desenvolvimento tecnológico acaba por abarcar todos os estratos da vida em sociedade, transformando-a a sua semelhança.
No entanto, não são apenas os desdobramentos óbvios de seus usos, mas também os produtos inesperados de seus agenciamentos, que se instauram como nova realidade que exige ser compreendida. Desvios, retrocessos, prospecções, são algumas das dinâmicas a que se permitem nossos ambientes tecnológicos. Entre essas novas dinâmicas afetadas pelo novo ambiente urbano industrial, destaca-se o que chamar de paisagem sonora, proposta por Schafer (1991, 2001).
As condições de escuta que se consolidam hoje são, portanto, completamente diferentes das do século XIX, por exemplo, em que os trabalhos das máquinas eram realizados em proporções muito menores. Com o superpovoamento de sons, principalmente nas cidades, ouvimos o que nos é imposto, não aquilo que escolhemos. Somos continuamente
afetados por sons de automóveis, fábricas, etc. A cidade é, principalmente, um ambiente sonoro.
Com as revoluções Industrial e Elétrica o universo acústico torna-se povoado por sons antes inimagináveis. Inicialmente, as primeiras máquinas desenvolvidas a fim de otimizar a produção em série imprimem às paisagens sonoras padrões de repetição e volume não reconhecíveis na natureza. Depois, com o advento da eletricidade, em fins do século XIX, novos recursos são desenvolvidos e mais uma vez recriam nossas relações com os ambientes nos quais nos inscrevemos. Ao tentarmos esboçar um panorama das transformações que ocorrem em nossa cultura auditiva, podemos concordar com Schafer:
A Revolução Industrial introduziu uma multidão de novos sons, com consequências drásticas para muitos dos sons naturais e humanos que eles tendiam a obscurecer; e esse desenvolvimento estendeu-se até uma segunda fase, quando a Revolução Elétrica acrescentou novos efeitos próprios e introduziu recursos para acondicionar sons e transmiti-los esquizofonicamente através do tempo e do espaço para viverem existências amplificadas ou multiplicadas (2001, p. 107)
Nossa escuta, desse modo, se transforma e, com isso, evidencia seu processo contínuo de transformação, que antes não chegava a ser considerado matéria de interesse para estudiosos. A ascensão da consciência da escuta como um fato condicionado pelos ambientes materiais de sua inscrição e como sistema de significação só se torna possível com a fratura das paisagens sonoras imediadas, dos campos, das paisagens rurais. Com essa mudança de perspectiva, que reinventa um dos sentidos do corpo humano, mudam-se também as noções que informam os repertórios culturais e especialmente os repertórios poéticos, que sempre tiveram íntima relação com o som, o que pode ser percebida pela denominação de “lírica” à poesia acompanhada por um instrumento musical. No caso da tradição poética de língua portuguesa, os primeiros textos remontam ao trovadorismo, em que o som e a poesia mantinham uma relação indissociável, para citarmos dois exemplos significativos.
As cidades se reconfiguram não apenas em seu aspecto visual, assumindo novas formas, novos projetos que se adaptem às novas condições de produção, mas também imprimem sua marca na estrutura de nossos aparelhos auditivo e fonador. Segundo Schafer,
o aumento de intensidade da potência do som é a característica mais marcante da paisagem sonora industrializada. A indústria precisa crescer: portanto, seus sons precisam crescer com ela. (2001, p. 115)
Paralelamente ao projeto industrial de produção em série – de formação de um imaginário tecnológico, e do consumo de massas – os projetos acústicos também assumem um ímpeto dominador, autoritário. A expansão da indústria implica a expansão de seu ruído, e com isso uma maior disseminação em toda a vida cotidiana, não só de suas “escórias”, neste caso sonoras, mas de todo o aparato ideológico que está vinculado a ele.
Com a simplificação, em termos de profundidade e presença dos sinais sonoros, das paisagens sonoras da cidade, as indústrias da informação e do entretenimento desenvolveu tecnologias sofisticadas de registro e reprodução, a fim de sanar as deficiências originadas da poluição que originam:
Os benefícios da transmissão e reprodução eletroacústica do som são bastante celebrados, mas não devem obscurecer o fato de que precisamente ao tempo em que a alta fidelidade (hi-fi) estava sendo criada, a paisagem sonora mundial estava resvalando permanentemente para uma condição lo-fi. (SCHAFER2001, p. 131)
Como um desdobramento da ascensão dos ruídos nas cidades, os artistas se apropriaram da nova conjuntura, inscrevendo sua diferença na paisagens sonoras imperialistas e monótonas da vida das cidades. O desenvolvimento das tecnologias de registro, reprodução e manipulação do material sonoro tornou possível ao homem dialogar com os gigantes acústicos que faziam dele seu refém e espectador apático.
Assim como o homem pôde se aproximar dos mitos da ubiquidade com a transmissão radiofônica, sendo o som multiplicado ao infinito, pelas casas, ruas, lojas, e quaisquer outros espaços públicos ou privados, o registro sonoro se tornou um território passível de codificação em termos mais complexos. A aparelhagem eletroacústica tornou possível aos homens competir com as máquinas industriais através da pesquisa de timbres e dinâmicas nunca antes ouvidos, e que nunca o seriam caso não fossem desenvolvidas tais estruturas tecnológicas.
comunicativa permanente. Ao falar, o homem se inscreve na paisagem sonora, compondo-a, integrando-a, como mais uma peça, entre milhares de outras. Antes de haver qualquer domínio da linguagem verbal, os sons impelem-no a participar do universo sonoro no qual está submerso, mimetizando-o e, assim, estabelecendo vínculos com as pessoas que o rodeiam. O processo de resposta a essas ambiências, através do domínio do aparato vocal, se desdobrará na compreensão de sintaxes, de sistemas de signos, e por fim das línguas.
As paisagens sonoras, portanto, são o primeiro contato que temos com o mundo, antes mesmo da compreensão e normalização dos elementos visuais. Assim, as paisagens sonoras, como um dado culturalmente construído e como presença física, são condicionantes de nossa fala e de nossa escuta, e consequentemente, de nossa compreensão de linguagem, de arte, de poesia.