6.3 A KTUELLE DATAKILDER
6.3.1 NorTraf
Deste modo, Venuti contesta o modelo descritivo de Toury quanto à sua finalidade de descrever normas e leis de tradução intersubjectivas, propondo estratégias de tradução que contrastam com a norma inicial de adequação e de aceitabilidade de Toury: “Norms may be in the first instance linguistic or literary, but they will also
include a diverse range of domestic values, beliefs, and social representations which e
carry ideological force in serving the interests of specific groups.” (V nuti 1998: 29) Este é o ponto central de divergência entre a perspectiva de Toury e Venuti. Enquanto Venuti avança com uma agenda assumidamente prescritiva, cujo objectivo é alterar a imagem do tradutor, Toury opta por um modelo descritivo de modo a estudar o comportamento tradutório. Toury apresenta uma definição sociológica de norma afirmando que a norma traduz alores gerais em instruções performativas aplicadas a situações específicas: v the translation of general values or ideas shared by a community – as to what is right and wrong, adequate and inadequate – into performance instructions appropriate for and applicable to particular situations, specifying what is prescribed and forbidden as well as what is tolerated and permitted in a certain behavioral dimension (1995: 55).
Segundo Koskinen (2000: 18), esta definição torna explícito que as normas estão intrinsecamente associadas a questões ético‐morais. Contudo, trata‐se de uma arena que Toury evita a toda o custo. Toury tem como objectivo desenvolver uma disciplina empírica, não prescritiva e o mais objectiva possível. Contudo, na impossibilidade de uma abordagem totalmente objectiva, aposta‐se numa
perspectiva intersubjectiva26. Toury apresenta a sua abordagem descritiva apondo‐
se à teoria do “skopos” que pelo seu pendor didáctico assume necessariamente uma
tendência mais prescritiva.27 (Toury 1995: 25)
Segundo Toury, a tradução é concebida como sujeita a constrangimentos de vários tipos e graus. Desta forma, Toury (1995) propõe um modelo baseado em conceitos chomskianos de competência e desempenho. As normas situam‐se a um nível intermédio entre "competência" e "desempenho", sendo as normas as opções que os
26
“Only a branch of this kind can ensure that the findings of individual studies will be intersubjectively testable and comparable, and the studies themselves replicable.” (Toury 1995: 3)
27
“[W]hereas mainstream Skopos‐theorists still see the ultimate justification of their frame of reference in the more ‘realistic’ way it can deal with problems of an applied nature, the main object being to ‘improve’ (i.e., change!) the world of our experience, my own endeavors have always been geared primarily towards the descriptive‐explanatory goal of supplying exhaustive accounts of whatever has been regarded as translational within a target culture, on the way to the formulation of some theoretical laws.” (Toury 1995: 25)
tradutores seleccionam num determinado contexto sociocultural. Então, pode‐se definir normas como regularidades do comportamento tradutório numa situação sociocultural específica (Baker: 1998). Aqui a própria definição de tradução é intrinsecamente dependente da noção de tradução presente na cultura de chegada. Theo Hermans acrescenta que: “The complex of translational rules and norms operative in a particular community defines what is translation for that community, because it determines what is recognized as translation.” (1996a: 42) Para além disso, as normas tradutórias, tal como Toury as apresenta, podem ser de três tipos: a) normas iniciais b) normas preliminares, e c) normas operacionais. Pode definir‐se norma inicial como a escolha de base entre a adesão às normas da língua e da cultura do texto de partida ou às normas da língua e cultura de chegada. Escolher entre estas normas é optar entre uma estratégia de adequação ‐ se se aderir às normas do texto de partida ‐ e uma estratégia de aceitabilidade ‐ se se aderir às normas determinadas pela cultura de chegada. No primeiro caso, a tradução não é realmente introduzida na cultura de chegada, mas imposta, tal como o autor indica. E, cria‐se então uma língua‐modelo: “which is at best some part of the former [source language] and at worst an artificial, and as such nonexistent variety." (1995: 60) No segundo caso, o que o tradutor introduz na cultura de chegada é uma versão do texto de partida adaptado a um modelo pré‐existente. Há que ter em atenção que é irrealista esperar observar regularidades absolutas num texto de chegada tal como Toury afirma e Lambert e Hendrik Van Gorp reiteram: “From an empirical point of view it can safely be assumed that no translated text will be entirely coherent with regard to the ‘adequate’ versus ‘acceptable’ dilemma.” (1985: 44) 3.7. PERSPECTIVAS CRÍTICAS As estratégias propostas por Venuti desencadearam um debate acesso. De entre as mos as seguintes: várias questões levantadas, destaca 1) As estratégias serão aplicáveis?
Venuti, ao incentivar os tradutores a optarem por uma estratégia de estrangeirização, tem como objectivo combater a imagem invisível do tradutor. Contudo, será que a imagem iria realmente mudar se os tradutores se recusassem a traduzir fluentemente? Pym (1996: 174) lembra que Venuti goza de um estatuto de autoridade que lhe permite adoptar a estratégia de tradução que prefere, mas põe em causa se outros tradutores sobreviveriam na profissão caso adoptassem o mesmo princípio.
2) A estratégia de domesticação é dependente da hegemonia da cultura de chegada? Embora Venuti se concentre nas traduções para inglês, a tendência para a estratégia de tradução domesticante ocorre em traduções para outras línguas. Pym (1996: 170) cita o Brasil, a Espanha e a França como exemplos. Isto parece sugerir que a tradução é tipicamente domesticadora independentemente da hegemonia das culturas de partida e de chegada. De qualquer das formas, Pym admite que Venuti: “does enable us to talk about translators as real people in political situations, about the quantitative aspect of translation policies, and about ethical criteria that might relate translators to the societies of the future." (Pym 1996: 176) Antes de mais nada, Venuti permite‐nos falar dos tradutores como agentes visíveis cujo papel no polissistema literário não só é importante como condiciona a leitura, a recepção e o stema. posicionamento de uma determinada obra no si 3) É possível testar a estratégia de resistência? Por um lado, Venuti não apresenta nenhuma metodologia para testar os impactos na cultura de chegada da estratégia de resistência. Por outro lado, como se poderia verificar se, de facto, a estratégia de resistência proposta por Venuti resulta numa maior visibilidade do papel do tradutor? Neste enquadramento Pym (1996)
ser testada. questiona se a “resistência” de Venuti é passível de
4) Qual é a metodologia de análise do TC aplicada?
Munday (2001: 156) aponta que Venuti não oferece uma metodologia específica para a análise de textos traduzidos. Os seus inúmeros estudos de caso abarcam um leque de abordagens, incluindo a discussão de prefácios de tradutores e análise de extractos do TP‐TC de modo a avaliar a estratégia de tradução dominante num dado contexto e cultura. Desta forma, Munday sugere sete métodos para o estudo das
estratégias de tradução domesticadoras e estrangeirizantes e da invisibilidade do
tra tdu or e do poder relativo do editor e do tradutor:
a) comparar linguisticamente o TP e o TC para identificar sinais de estratégias de ;
domesticação e de estrangeirização
b) entrevistar tradutores quanto às suas estratégias e/ou analisar o que os tradutores afirmam que fazem, a sua correspondência com os autores e os eventuais diferentes rascunhos de uma tradução;
c) entrevistar editores e agentes de modo a identificar os objectivos para as traduções publicadas, como se processa a selecção de obras a traduzir e quais são as instruções dadas aos tradutores;
d) analisar a forma como a maior parte das obras são traduzidas e vendidas, as que são escolhidas e para que línguas e como as tendências mudam com o passar do tempo;
e) analisar o tipo de contratos celebrados com os tradutores e a visibilidade do tradutor no produto final;
f) analisar a visibilidade real da tradução, olhando para o tratamento do texto, a (in)existência do nome do tradutor na capa, a atribuição de direitos de autor, prefácios do tradutor, etc.;
g) analisar as recensões a traduções, autores ou períodos históricos. O objectivo será perceber quais são as referências feitas aos tradutores (serão estes “visíveis”?) e quais são os critérios utilizados pelos críticos para avaliar as
da cultura. traduções num dado momento ou numa da
5) Qual é o critério de definição das estratégias?
Rosa (2003: 57) aponta que Venuti não apresenta claramente o critério de definição das estratégias: aproximação das normas do TP ou aproximação às normas da cultura de chegada – sugerida pelas designações e pela citação de Schleiermacher; ou a aproximação de normas desvalorizadas ou valorizadas na cultura de chegada, ou ainda em termos do conjunto de normas tradutórias da cultura de chegada. Segundo a autora, as definições ambíguas e a referência a Schleiermacher tornam os conceitos extremamente operativos já que pela indeterminação dos conceitos
possibilitam uma aplicabilidade alargada.