2.5 Business Models
2.5.2 Value Delivery
[...] Que a antropologia é hoje a única disciplina do “distanciamento” social; que ela dispõe de um imenso aparelho teórico e prático que lhe permite formar práticos; e, sobretudo, que ela está disponível, inteiramente pronta para intervir em tarefas que, além disto, se impõem à atenção dos homens (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 405).
Tal afirmação é tão autêntica quanto reconhecer tamanho preconceito, ainda não superado, que se tem dela. Não bastassem todas as fragmentações teóricas e segmentações que a disciplina sofre, ainda existe uma forte barreira sobre pesquisadores que se voltam aos estudos considerados mais práticos da antropologia, como no caso, os laudos antropológicos. Ou ainda, talvez em proporção menor, mas com igual valor de inferioridade, alguns estudos voltados para a etnologia indígena.
Para se realizar uma etnografia em comunidades indígenas ou para se produzir um laudo antropológico, requer-se tanto quanto for possível de reflexões teóricas tal como é para a pesquisa científica realizada nos institutos de pesquisas e nas universidades pelos, então, antropólogos. A questão que se discute aqui é primeiramente, em que ponto se fundamenta tal preconceito e hierarquia dos tipos de trabalhos possíveis de serem realizados no âmbito da antropologia acadêmica. Essa questão é de caráter epistemológico, na medida em que cada indivíduo produtor de ciência escolha um ou outro direcionamento teórico e assuma uma postura particular em relação ao que entende por antropologia.
Como se vê na própria história da disciplina existem dois principais caminhos que podem ser escolhidos.
Um defende que a ciência do antropólogo é de ordem diferente da ciência do nativo, no sentido de que o antropólogo estará sempre em vantagem em relação ao nativo, na medida em que o pesquisador tem a capacidade reflexiva de exprimir sua cultura e dar significado ao sentido do outro.
A relação diferencial do antropólogo e o nativo com suas culturas respectivas e, portanto, com suas culturas recíprocas, é de tal ordem que a igualdade de fato não implica uma igualdade de direito – uma igualdade no plano do conhecimento. O antropólogo tem usualmente uma vantagem epistemológica sobre o nativo. O discurso do primeiro não se acha situado
59 no mesmo plano que o discurso do segundo: o sentido que o antropólogo estabelece depende do sentido nativo, mas é ele quem detém o sentido desse sentido – ele quem explica e interpreta, traduz e introduz, textualiza e contextualiza, justifica e significa esse sentido. A matriz relacional do discurso antropológico é hilemórfica: o sentido do antropólogo é forma; o do nativo, matéria. O discurso do nativo não detém o sentido de seu próprio sendo de fato, como diria Geertz, somos todos nativos; mas de direito, uns sempre são mais nativos que outros. (CASTRO, 2002, p. 02).
O outro caminho possível seria o de negação a este discurso. Viveiros de Castro (2002) sugere uma incompatibilidade entre essas duas perspectivas. Onde de um lado encontra-se essa imagem do conhecimento antropológico, em que o antropólogo possui instrumentos para reflexão (detém conceitos prévios) para com o objeto.
Sabemos de antemão o que são as relações sociais; o parentesco, a religião, a política, etc., e vamos ver como tais entidades se realizam neste ou naquele contexto etnográfico – como elas se realizam, é claro, pelas costas dos interessados. De outro (e este é o jogo aqui proposto), está uma idéia do conhecimento antropológico como envolvendo a pressuposição fundamental de que os procedimentos que caracterizam a investigação são conceitualmente da mesma ordem que os procedimentos investigados [...] (CASTRO, 2002, p. 03).
Para o autor, a antropologia “é a arte de determinar os problemas postos por cada cultura, não a de achar soluções para os problemas postos pela nossa.” (CASTRO, 2002, p. 03).
Essa é uma perspectiva diferenciada a qual contribui para o “renascimento” da antropologia brasileira, na medida em que tal ideia permite avançar para outros caminhos que nos levam a resultados muito diferentes dos que foram contatados em outros momentos. Permitindo novas indagações e retomada de velhas discussões que estariam, supostamente, ultrapassadas.
Autores, como Eduardo Viveiros de Castro, retomaram uma das principais questões da antropologia entre natureza e cultura e, observador e observado, que lhes permitiram se voltar, novamente, ao nativo. Buscando sentido nos estudos antropológicos desses povos, reformulando problemas e discussões sobre os limites entre natureza/cultura, homem/animal.
60 Nos últimos tempos, nós antropólogos temos mostrado grande inquietação a respeito da identidade e destino de nossa disciplina: o que é, se ela ainda é, o que ela deve ser, se ela tem o direito de ser, qual é seu objeto próprio, seu método, sua missão, e por aí afora... Fiquemos com a questão do objeto, que implica as demais. Seria ele a cultura, como na tradição disciplinar americana? A organização social, como na tradição britânica? A natureza humana, como na tradição francesa? Penso que a resposta adequada é: todas as respostas anteriores e nenhuma delas. Cultura, sociedade e natureza dão na mesma; tais noções não designam o objeto da antropologia, seu assunto, mas sim seu problema, aquilo que ela justamente não pode assumir... Portanto, há uma ‘tradição’ a mais a levar em conta, aquela que conta mais: a tradição do nativo (CASTRO, 2002, p. 04).
Dessa maneira, Viveiros de Castro toma as ideias indígenas como conceitos dotados de significados. Significados capazes de serem utilizados filosoficamente.
A pesquisa do autor incita novas ideias que lhe permite dialogar e incentivar a imaginação antropológica brasileira para que ela caminhe sozinha, sem depender teoricamente somente de conceitos e teorias importadas.
Dessa maneira, cria-se autonomia e legitimidade no seu pensamento. Viveiros de Castro, de certa maneira, constrói uma continuidade ao percurso que o próprio Lévi-Strauss iniciou na antropologia realizada no Brasil.
Essas são novas tendências que a disciplina assume e consolida no século XXI, que tem como um de seus objetivos, por exemplo, a responsabilidade social em relação ao meio ambiente. Um dos principais problemas que ameaçam a existência humana, caso se opte em permanecer nessas formas de vivência adotadas pelas sociedades modernas, trata-se da preservação e conservação dos ecossistemas, podendo a antropologia contribuir para a compreensão de sociedades que vivem em harmonia com o meio ambiente e que possuem diferentes maneiras de relacionar-se entre si.