Coll, Bustos e Engel (2010, p. 276), ao tratar das comunidades virtuais de aprendizagem, cujo conceito foi apresentado em seção anterior, afirmam ser possível que recaia sobre alguns membros, mais do que sobre outros, a responsabilidade de auxiliar ou orientar outros membros da comunidade em seu processo de aprendizagem. Tal responsabilidade – historicamente atribuída a participantes que desempenham o papel de professor, tutor ou coordenador47, normalmente vistos como detentores de maior experiência e conhecimento – pode, na opinião dos autores, ser assumida por membros da comunidade que não tenham esse perfil. Os autores explicam:
Pela sua própria natureza, nas comunidades virtuais de aprendizagem todos os membros estão potencialmente habilitados para ajudar e apoiar os outros membros. Portanto, nas comunidades virtuais de aprendizagem a ação educacional intencional é definida como um dos componentes fundamentais de seu projeto e gestão (Coll, Bustos e Engel, 2010, p. 276).
Pensamentos como o de Coll, Bustos e Engel (2010) podem ser vistos como indícios de que existe uma tendência, entre os pesquisadores, a reconhecer que o espaço em que se desenvolvem as discussões dos fóruns de cursos online favorece a iniciativa de alunos que se sintam aptos a atuar de forma efetiva no desenvolvimento de colegas. Diga-se de passagem, a ação diferenciada de alunos com esse perfil é um bom exemplo do que afirmava Vygotsky sobre os participantes mais experientes, conforme discutido no início deste capítulo.
Neste trabalho, considera-se, além disso, a ideia de que alguns alunos expressam, de alguma forma, tal disposição de mediar o desenvolvimento de outros alunos por meio dos textos que postam no fórum e por meio dos quais desempenham ações mediadoras. Porém, antes da observação, propriamente
47 As características desses perfis serão devidamente explicadas no Capítulo 2, sobre a metodologia da pesquisa.
dita, das discussões do fórum do curso em questão, cabe aqui a reflexão sobre os fatores que podem levar esses alunos a assumir o papel de mediador.
A experiência docente talvez seja, no curso que aqui é objeto de investigação, um dos aspectos que favorecem a ocorrência da mediação feita por alunos. Em outras palavras, a experiência como professores – que tem a maior parte da clientela do Curso de Especialização Ensino-Aprendizagem da Língua Portuguesa – pode levar parte dos participantes a desempenhar, mesmo enquanto alunos e em relação a outros alunos, a tarefa de mediar.
Um outro aspecto que pode ser apontado como favorável à atitude mediadora de alguns alunos é a autonomia que eles – mas não só eles – demonstram ter. Freire (1996, p. 61) tratou desse conceito quando afirmou: “saber que devo respeito à autonomia e à identidade do educando exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber”. No caso do curso online, parece ser imprescindível que o professor estimule a prática mediadora do aluno que demonstra querer e poder atuar como mediador.
Como já vimos, segundo Celani e Collins (2006), a boa utilização do fórum de discussão implica novos papéis para todos os participantes. A presença de ensino, que, para as autoras, se concretiza na mediação, pode ser observada na participação de professores ou de outros elementos do contexto – os alunos –, já que
a liderança, não importa se de professores ou de alunos, se manifesta na capacidade de contribuir com ideias, de diagnosticar problemas e mal-entendidos, de explicar, esclarecer e sintetizar fatos e argumentos, de motivar a conexão das ideias e de conduzir a discussão para a resolução (Celani e Collins, 2006, p. 42).
Para Celani e Collins (2006, p. 55), então, no contexto online, a presença de ensino, conforme discutido em seção anterior, pode se manifestar por diferentes agentes. A investigação das autoras sobre a interação em fóruns de curso online levou-as, entre outras conclusões, a indícios de mediação por parte dos alunos, apesar de, como afirmaram, a liderança estudantil, uma forma de mediação em ambientes altamente interativos e cooperativos, ser tímida e rara.
Apesar de admitir que o professor, por ser o mais experiente entre os participantes das discussões do fórum, deve assumir nestas discussões uma posição central, Marques-Ribeiro (2010) afirma que este pode atuar na promoção de mais interações entre os demais participantes, pois
o sucesso de um fórum pode ser medido pelo deslocamento dos alunos de posições periféricas para posições mais centrais, nas quais os alunos também chamem para si a mediação (p. 43).
A autora toma como base a definição de Cho et al. (2005), para quem um indivíduo que se posiciona de forma privilegiada em uma determinada rede social, além de deter um grau expressivo de centralidade, geralmente tem bom desempenho em termos de aprendizagem. Marques-Ribeiro (2010, p. 23) afirma também que “a configuração da centralidade torna-se um indicativo fidedigno das relações e trocas estabelecidas no fórum”. Principalmente nos casos em que só o professor assume a posição central, corre-se o risco de se proceder à mera reprodução dos modelos tradicionais de transmissão de conhecimento ou de se transformar a ferramenta em um espaço de simples troca de informações, que não produza efeitos significativos no processo de ensino-aprendizagem.
As afirmações de Coll, Bustos e Engel (2010), Freire (1996), Celani e Collins (2006) e Marques-Ribeiro (2010), referidas aqui, parecem sugerir a possibilidade de o aluno mediador ser caracterizado como experiente enquanto mediador – mesmo que em outros contextos –, autônomo, líder e capaz de ocupar posição central com relação aos demais participantes que têm o mesmo perfil no contexto de ensino-aprendizagem.
Porém, além das atribuições individuais do aluno mediador, considero importante pensar no tipo de ambiente que favoreça e em que se saiba tirar proveito da ação desse aluno – pode-se dizer – especial, já que, no contexto que é objeto desta pesquisa, a mediação operada por alunos pode mostrar em que sentido o confronto das concepções do indivíduo com as concepções de parceiros mais experientes favorece a apropriação, por este indivíduo, de significados diferenciados que dialogicamente se constituirão em sentidos a serem negociados.
Acredito que, no contexto da sala de aula – seja ela presencial ou a distância –, é necessário estimular-se a participação dos alunos também no sentido de ter nessa participação um fator que auxilie o processo de ensino- aprendizagem de novos conceitos. O contato com diferentes visões de um mesmo objeto desafia o indivíduo e pode estimular a apropriação do conhecimento, possibilitando a elaboração de sentidos particularizados. Assim, o conhecimento que antes era interpessoal passa a ser intrapessoal e passa a mediar a aprendizagem de novos saberes.
A observação da atuação de alunos mediadores indica que a mediação feita por alunos é positiva a despeito da existência, nas relações de ensino- aprendizagem, de papéis sociais bem definidos, pois tais papéis não são tão rigidamente constituídos a ponto de se negar ao aluno a possibilidade de atuar como mediador no desenvolvimento dos colegas. Continua cabendo ao professor o gerenciamento das atividades de ensino-aprendizagem e também das relações sociais do grupo que partilha as ações que, naquele contexto, levam à construção, de forma conjunta, do conhecimento.
Aliás, uma constatação é inevitável quando se compreende a relação entre dizer e agir e quando, por conseguinte, se compreende a diferença entre os atos de linguagem: só se pode percebê-los enquanto prática social levando- se em conta o contexto, a situação de comunicação em que ocorrem. Isso significa que as escolhas feitas pelo indivíduo na produção de seu discurso resultam de uma determinada interação social. Logo, uma das maneiras de compreender o motivo de tais escolhas é proceder ao seu estudo levando em consideração os elementos do contexto.
Ao analisarem-se as escolhas feitas por alunos que atuam como mediadores no fórum de discussão, não se pode deixar de considerar as condições em que estes fazem essa mediação, as especificidades desse contexto.
Para Fuks et al (2005, p. 19), o fato de as mensagens do fórum serem postadas publicamente e permanecerem no ambiente leva os alunos a serem mais cuidadosos na expressão de suas ideias e de seus argumentos. Por meio
da ferramenta eles buscam compartilhar conhecimento e experiências, comentando respostas de colegas e selecionando parceiros com os quais possam aprofundar suas reflexões, construindo socialmente seu conhecimento.
Em pesquisa sobre a argumentação em fóruns educacionais, Coffin et al. (2005) parecem concordar que o contexto do fórum influencia a maneira como os estudantes debatem e trocam informações e pontos de vista. Para as autoras,
a tecnologia só pode ser pedagogicamente eficaz no desenvolvimento das habilidades de intercâmbio e de negociação de pontos de vista dos estudantes se as suas características distintas são explicitamente reconhecidas e exploradas criteriosamente pelo mediador (p. 476)48.
Coffin et al. (2005) listam alguns dos efeitos da tecnologia nas práticas argumentativas: o nível de dialogismo, a sequenciação e a coesão e a co- construção de argumentos. Em sua pesquisa, além de verificarem que a interação no fórum tende a diminuir – ou seja, os participantes postam mais mensagens no início do trabalho e registram uma participação cada vez menor –, Coffin et al. (2005) apontam como característica dessa interação a construção coletiva da argumentação, o que as autoras atribuem ao caráter colaborativo da ferramenta.
Coffin et al. (2005) afirmam ainda que a atuação do mediador é de grande importância para a eficácia do fórum de discussão na construção da argumentação, mas as autoras também vêem a mediação como incumbência do professor. Como já foi dito, neste trabalho será observada a atuação do aluno que tem uma participação diferente da maioria dos estudantes e que se aproxima, ao menos em alguns aspectos, da que comumente se atribui ao professor, o que sugere uma redefinição de aspectos sociais que caracterizam a interação feita por meio do fórum de discussão.
A reflexão sobre o conjunto de conceitos e considerações apresentados neste capítulo foi extremamente relevante para a investigação que me propus a
48 No original, “the technology may only be pedagogically effective in developing students' ability to exchange and negociate points of view if its distinct characteristics are explicity acknowledged and exploited judiciously by the conference moderator/lecturer.”
realizar, já que me auxiliou na definição dos aspectos a serem observados na atuação de alunos da turma de 2007 do Curso de Especialização Ensino- Aprendizagem da Língua Portuguesa com vistas à identificação de ações mediadoras. Com a leitura dos trabalhos que compõem o arcabouço teórico da pesquisa, senti-me capaz de eleger, entre as diversas orientações metodológicas disponíveis, um linha que conduzisse a investigação a que me propus no contexto que queria pesquisar. Optei, então, pela orientação metodológica com base na hermenêutica, fundamentando-me em Paul Ricoeur para o trabalho de interpretação das mensagens postadas pelos participantes das discussões do fórum do curso. Tudo isso será objeto de atenção no capítulo seguinte.
2 METODOLOGIA
Este capítulo tem como objetivo apresentar o desenho da pesquisa que realizei e todas as decisões metodológicas que foram tomadas para que este estudo fosse possível. Inicio pela definição da linha metodológica adotada, apresentando os pressupostos que orientaram a interpretação das mensagens postadas pelos participantes do curso, o que inclui a própria justificativa da opção pelo termo interpretar para me referir ao trabalho feito com os textos que formaram o corpus da pesquisa. A seguir, descrevo o contexto de pesquisa, focalizando o curso semipresencial e seus participantes. Concluo o capítulo detalhando os procedimentos de coleta e de interpretação do material coletado.