Todos(as) os(as) estudantes fizeram asserção correspondente a esta categoria temática, de modo geral, destacando que a convivência escolar é satisfatória, tanto com os(as) docentes quanto com os(as) colegas, embora, por vezes, tenham encontrado dificuldades no início.
Nessa categoria temática identificamos através de observações em sala de aula e de entrevistas com os(as) estudantes com deficiência que a inclusão destes(as) em muito se apóia nos demais colegas matriculados na escola, na família e nas salas de recurso, espaço no qual os(as) estudantes com alguma deficiência buscam superar as lacunas que ainda existem no sistema educacional inclusivo.
Freire é autor que resgata em muito o conceito de solidariedade, como processo de humanização. Partindo do princípio de incompletude, finitude e fé no humano, este teórico trata da solidariedade como ação possível e necessária entre grupos e pessoas, enquanto ampliação da ação de cada um. Não se trata de caridade, porque não se trata de uma relação onde alguém é mais que o outro; são sempre pessoas que sabem muito, mas não tudo, e que se apóiam e aprendem em comunhão.
Durkheim (1978), nas ciências sociais, dedicou-se fortemente ao conceito de solidariedade enquanto necessidade de coesão da vida social. Assim, grupos sociais, instituições e pessoas têm de se relacionar no sentido de garantir a vida de todos. Conceito revisto por Habermas, evidencia a necessidade complementar das relações, mas também comunicativa. Habermas considera a realidade composta por três mundos e, assim, a ação humana se faz nas e faz as relações que, por sua vez, ganham maior ou menor força se solidarizadas. Mello (2008), assim explica a perspectiva habermasiana:
Habermas (1987) descreve o mundo objetivo como “a totalidade dos estados de coisas que existem ou que se podem apresentar ou ser produzidas mediante uma adequada intervenção no mundo” (Habermas, 1987a, p. 125). O mundo social é o “contexto normativo que fixa quais interações pertencem à totalidade de relações interpessoais legítimas” (ibid., p. 128). O mundo subjetivo é a “totalidade de vivências subjetivas às quais o agente tem acesso privilegiado frente aos demais”
(ibid., p. 132). Ao agir no mundo ou comunicar-se, cada agente o faz simultaneamente nos três mundos, neles produzindo alterações. Assim, linguagem e ação são também indissociáveis e são os meios pelos quais agente e realidade se conectam e se produzem mutuamente" (p. 16).
Nesta perspectiva, vale também retomar a idéia de Habermas sobre a transformação dos sistemas que ocorrerem também pela ação dos sujeitos que, engajados e em articulação, alteram as práticas habituais nas sociedades em curso.
Assim, entre os(as) colegas estudantes percebemos ações cotidianas de solidariedade, tal como a expressa pelo estudante II, com Baixa Visão, matriculado em escola estadual:
Eu tenho uma amiga que me ajuda bastante mesmo, ora quando me empresta o caderno para minha mãe copiar, ora ela mesma me ajuda copiando para mim. Assim, ela copia a lição, dita a matéria. Principalmente quando tem algum trabalho para entregar, ou seja, alguma atividade. Olha, eu falo pra todo mundo, se não fosse ela, essa ajuda talvez dela de emprestar o caderno, ditar pra mim, talvez eu não estaria onde eu estou agora(Apêndice D, 11-A, p. 241).
Por outro lado, tal asserção demonstra que o processo de inclusão é parcial e muito depende do apoio que seus colegas lhe dispensam em sala de aula, conforme a nota de campo 6: “Os(as) estudantes estão incluídos apenas em relação ao apoio de alguns colegas que se preocupam em ditar conteúdos das aulas e ainda fazem exercícios juntos e até provas em grupo” (Apêndice C,NC 6, p.171).
O estudante III diz que sua convivência com os(as) companheiros(as) de classe é muito positiva: “No intervalo, meus colegas vêm conversar comigo, eu não sou discriminado por ninguém lá na escola estadual” (Apêndice D, 2-A, p.242). E, quanto aos(as) docentes, comenta:
Quando eu tenho alguma dúvida, quando eles acabam de explicar eu pergunto de novo e eles explicam pra mim (...).Eu acho que eles me tratam como os outros. Eu acho que o tratamento é bom (...), eu acho que eles são meus amigos (...), esses meus docentes (Apêndice D, 3-A,p.242).
(...) incluído como todo mundo (...). Lá dentro todo mundo vai conversa comigo, os docentes também conversam comigo, não sou discriminado por ninguém (...). Quando tem algum trabalho, eu faço em dupla (...). Lá, tem um colega meu que faz comigo. (...) Isso é questão de união (Apêndice D, 9-A,p.243).
A estudante VI de escola estadual, a única do sexo feminino, nos relatou que sua relação de convivência com colegas de classe e com docentes é muito boa. Diz ela que, por se tratar de voluntária da Associação de Mulheres da Unimed da cidade de São Carlos e sempre ajudar seus(as) docentes a lidar com os(as) estudantes deficientes visuais, sempre teve “uma boa relação de convivência com os(as) docentes e também com os(as) estudantes em sala de aula. Sabe, na sala de aula essa relação é tranqüila, porque eu sou tratada como uma aluna normal, igual aos outros”(Apêndice D, 1-A, p. 247). Em se tratando do componente curricular de Educação Física, a estudante VI declara:
Ao contrário de outros colegas deficientes, nas aulas de educação física, eu sempre participei, claro que não de todas as atividades. Eu tive um professor muito bom, quando eu não podia jogar determinado esporte, ele adaptava alguma atividade para mim, ou seja, ele mesmo jogava comigo (Apêndice D, 7-A,p.248).
Ainda sobre as tarefas escolares a estudante VI relata:
Algumas eu faço em casa mesmo. Já outras eu faço na sala de aula regular, junto com meus docentes também com os meus colegas na própria sala de aula. Ah! Sabe, os meus colegas em sala de aula contribuem muito para que eu faça minhas tarefas em sala de aula do ensino regular (Apêndice D,4-A, p.248).
A estudante VI expressa, no entanto, que a sua “relação de convivência com os colegas no início foi um pouco difícil, teve até um certo medo”(Apêndice D, 3-A, p.247).
A existência da solidariedade na relação de convivência entre estudantes favoreceu a inclusão do estudante IV, de escola particular, conforme expressa:
Ah! Eu me sinto bem, né? Porque tipo assim eu estou naquela escola desde quando eu comecei estudar então não tenho preconceito nenhum, eu conheço todo mundo, é normal, mas se eu mudasse de escola não sei como ia ser. Quando eu era menor meus colegas me ajudavam mais, sentavam do meu lado, me ajudavam fazer exercícios, ditavam a matéria para mim. Mas agora não preciso disso mais, porque agora eu estou usando mais a lupa, estou usando mais o óculos, consigo entender, faço meus exercícios sozinho, essas coisas. (Apêndice D, 5-A, p.244).
O estudante V, de escola particular, descreve: “No meu cotidiano, cada dia senta um amigo meu do meu lado, para fazer as anotações no caderno, na apostila, aquelas anotações que vão servir para eu estudar para as provas” (Apêndice D, 2-A, p.245).
O mesmo estudante, no entanto, adverte:
Essa relação de convivência varia muito de um professor para o outro. Têm alguns que eu converso muito, às vezes meia hora por dia brinco, dou risada com eles. Já outros, não tenho contato, às vezes é difícil até falar bom dia para eles, isso varia muito de professor para professor. Mas a maioria eu tenho uma boa relação de convivência. Apenas com a minoria deles que essa relação de convivência é difícil (Apêndice D,5-A, p.245).
Em nossa nota de campo 27 registramos que as atividades realizadas pelo estudante DV ocorreram porque o mesmo as realiza com a ajuda de um colega, que está sempre sentado ao seu lado, ora ditando as matérias, ora resolvendo os exercícios em conjunto, ou ainda lendo os textos (Estudante V, Apêndice C, NC 27,p.219).
Em relação ao estudante III, órfão de pai e mãe, desde o nascimento morava com a avó, a qual faleceu no final de 2007. Desde então, não tendo com quem morar em São Carlos, mudou-se para o Distrito de Santa Eudóxia com uma de suas tias. Esta tia o acompanha em todas as aulas do ensino regular diariamente, sendo esta uma exigência da escola estadual para aceitação deste estudante, segundo ela nos confidenciou em um de nossos encontros na sala de recursos que atendem os(as) estudantes com deficiência visual e que registramos na nota de campo (Estudante III, Apêndice C, NC 18, p.195). Ela o ajuda na realização das tarefas dentro e fora da escola.
O estudante V, de escola particular, também conta com apoio familiar, especialmente de sua mãe, que inclusive se propôs a aprender a ler e escrever em Braille, bem como o tem acompanhado nas atividades de informática, quando o mesmo precisa fazer algum trabalho em casa:
Quando os docentes passam trabalhos em grupo, eu faço com meus colegas, na hora de copiar eu faço geralmente a metade em Braille, aí minha mãe transcreve para mim e meu colega faz a outra metade e entregamos para os docentes. Minhas tarefas, como eu já falei, elas também são feitas em casa, claro com a ajuda da minha mãe, visto que eu não tenho um domínio da informática daí eu preciso da ajuda da minha mãe e dos meus amigos. (Apêndice D, 7-A, p.246).
O anúncio ao processo de inclusão não vem se dando apenas pela implementação no sistema educacional, mas principalmente pelo apoio solidário que as famílias e colegas de classe têm dispensado aos estudantes com deficiência visual.