Bruno Latour (2001) propõe um esquema onde descreve as diferentes preocupações que os pesquisadores precisam levar em conta simultaneamente nos trabalhos científicos. É importante salientar que a proposta de metodologia desta tese é a produção de “Estudos Científicos”, conforme os concebem Latour:
Em suma, o projeto dos estudos científicos, contrariamente ao que os guerreiros da ciência queriam induzir todos a crer, não é estabelecer a
priori que existe “alguma conexão” entre ciência e sociedade, pois a existência dessa conexão depende daquilo que os atores fizeram ou deixaram de fazer para estabelecê-la. Os estudos científicos apenas
fornecem os meios de traçar essa conexão quando ela existe. (LATOUR,
2001, p. 104, grifos do autor).
Evidentemente, se falo em conexões no início deste trabalho, é porque durante meu estudo, em alguns pontos eu percebi a presença destas conexões e em outros eu percebi a sua ausência. Por exemplo, em um dia de trabalho na
hemeroteca7 buscando informações em jornais de 1929, eu entendi que muitas
vezes as conexões se apresentavam onde eu não as esperava, e simplesmente não
existiam onde eu supunha encontrá-las. Latour (2001) chama atenção para este
fato:
A história social da ciência não diz: “Busquem a sociedade oculta dentro, por trás ou por baixo das ciências”. Apenas faz algumas perguntas simples: “Num dado período, até que ponto é possível seguir uma política antes de ter de lidar com o conteúdo detalhado de uma ciência? Até que ponto é possível examinar o conteúdo de um cientista antes de ter de lidar com os detalhes de uma política? Um minuto? Um século? Uma eternidade? Um segundo? Não pedimos que corteis o fio que vos conduz, ao longo de uma série de transições imperceptíveis, de um tipo de elemento para outro”. Todas as respostas são interessantes e constituem dados de grande relevância para aqueles que desejam compreender esse imbroglio de coisas e pessoas – inclusive, é claro, os dados que possam mostrar que não existe a menor conexão, em dada época, entre uma ciência e o resto da cultura (LATOUR, 2001, p. 104, grifos do autor).
Buscando inspiração na medicina para metaforizar o fluxo de conexões nos estudos científicos, Bruno Latour se refere aos conteúdos conceituais da ciência comparando-os à dinâmica de “[...] um coração pulsando no centro de um rico sistema de vasos sanguíneos, ou melhor ainda, como os milhares de alvéolos dos pulmões que reoxigenam o sangue.” (LATOUR, 2001, p.127). Em seu livro, “A Esperança de Pandora” (2001), Bruno Latour propõe uma interação composta de cinco circuitos:
2.2.1.1. A Mobilização do Mundo
Primeiro circuito discutido por Latour, a mobilização do mundo é representada pelos instrumentos, equipamentos com os quais são feitas as coletas, ou seja, as informações do mundo circundante. Em outros casos, também designam as expedições ao redor do mundo, os levantamentos teóricos, os sítios onde são
7 Hemeroteca: (do grego heméra, que significa "dia", mais théke, que significa "depósito" ou
"coleção”), refere-se a qualquer coleção ou conjunto organizado de periódicos (jornais e/ou revistas). Pode ser uma seção de biblioteca apenas reservada à conservação de material escrito deste gênero, a uma coleção temática de recortes de jornais e revistas ou, mesmo, uma base de dados, em suporte informático, com material proveniente deste tipo de publicações. (OLIVEIRA, 1982).
buscadas as informações. A mobilização do mundo diz respeito à mediação pela qual os humanos, falando entre si vão discorrendo sobre as coisas com um grau de verdade cada vez maior, assim criando e constituindo os objetos de estudo científico, nem sempre visíveis à sua simples observação. Ao ser indagado sobre a autorização que passam a ter as pessoas a partir do domínio de certos dados científicos, Latour (2001) comenta:
Se quisermos entender por que essa gente começa a falar com mais autoridade e segurança, teremos que acompanhar a mobilização do mundo, graças a qual as coisas ora se apresentam sob uma forma que as torna prontamente úteis nos debates entre cientistas. (LATOUR, 2001,
p.120).
2.2.1.2. A Autonomização
Este segundo circuito diz respeito ao modo pelo qual uma disciplina, ou uma profissão, ou ainda um grupo se torna independente, criando seus próprios critérios de avaliação e relevância. Segundo o autor, “[...] ninguém pode se especializar sem a autonomização simultânea de um pequeno grupo de pares.” (LATOUR, 2002, p.121). Aqui cabe pensar a história das profissões, seus agrupamentos, suas diferenciações, seus mecanismos de avaliação e controle de sua prática. E ainda, o estabelecimento e a dinâmica das instituições além das publicações das idéias dentro do que Latour chama de “[...] ”panelinhas” que constituem as sementes de todos os relacionamentos entre cientistas.” (LATOUR, 2001, p. 121).
2.2.1.3. As Alianças
Como “alianças”, Latour (2001) anuncia no terceiro circuito a necessidade de atrair interesses e empenho por parte de pessoas não diretamente envolvidas com o processo de trabalho científico, mas indispensáveis na condição de aliados. O autor cita, por exemplo, a “[...] necessidade de atrair o interesse dos industriais para a química, o dos reis para a cartografia, ou mesmo o dos professores para a teoria da
educação.” (LATOUR, 2001, p.122). É preciso convencer autoridades, entidades de fomento financeiro ou de expressividade para o empenho do projeto que está em causa. Segundo o autor, o exame das alianças permite ir além de um estudo acerca da explicação contextualizada de uma disciplina ou projeto científico, para verificação das condições que permitiram aos cientistas inserir a disciplina em um contexto que garantiria sua existência e continuidade.
2.2.1.4. A Representação Pública
Bruno Latour (2001) apresenta o quarto circuito se detendo nas relações entre as exigências de um empreendimento científico e a comunicação deste com o “mundo exterior”, ou seja, com a opinião pública, com as idéias das pessoas comuns, com os leigos ou, por exemplo, com a imprensa. Segundo o autor, este circuito exige dos cientistas habilidades diversas das exigidas nos outros circuitos, mas determinantes para a existência do processo geral. Na verdade, trata-se mesmo de um fluxo, pois a informação não apenas flui dos três primeiros circuitos para este, mas também devolve a eles novos determinantes:
Nossa sensibilidade à representação pública da ciência pode ser ainda maior porque a informação não flui simplesmente dos outros três circuitos para o quarto, ela também dá corpo a inúmeras pressuposições dos próprios cientistas sobre seu objeto de estudo. (LATOUR, 2001. p.125).
2.2.1.5. Vínculos e nós
Para Bruno Latour (2001), o quinto e último circuito é considerado nuclear e o mais difícil de ser estudado. No entanto, o autor adverte que ele é tão importante quanto os outros quatro: na metáfora do sistema circulatório, o coração é tão importante como os vasos pelos quais o sangue circula antes e depois de passar pelas câmaras cardíacas. Este seria o ponto onde as amarrações entre os outros circuitos seriam elucidadas, de certa forma dando sentido ao processo de fluxo como um todo. Em relação aos estudos científicos, desta maneira, não poderemos manter
o conteúdo de um lado e o contexto de outro, pois segundo Latour (2001), desta forma não compreenderemos o fluxo da ciência.
Segundo o autor, os estudos científicos precisam do quinto circuito para relacionar os outros quatro, dando-lhe sentido e unidade:
O que os estudos científicos mais almejam explicar é a relação entre o
tamanho desse quinto circuito e dos outros quatro. Um conceito não se
torna científico por estar distanciado do restante daquilo que ele envolve, mas porque se liga mais estreitamente a um repertório bem maior de recursos. Trilha de cabra não precisa de cancela. O coração do elefante é muito maior que o do rato [...] o conteúdo de uma ciência não é algo que esteja contido: é, ele próprio, o continente. (LATOUR, 2001, p.127, grifos
do autor).
Bruno Latour (2001) considera que os trabalhos científicos onde o modelo adotado oponha conteúdo e contexto será marcado por desatenção e uso descuidado. Ele adverte ainda o cuidado dos trabalhos que historiadores precisam ter para que o contrário também seja evitado: se por um lado, as preocupações com “fatores sociais” ou “dimensões sociais” não podem desacompanhar as análises de partes consideradas tradicionalmente como “puramente científicas”, de um outro lado é insuficiente levantar essas dimensões circundantes sem a exploração dos conteúdos técnicos e científicos. Como diz o autor:
Com efeito, o que é mais sério nessa separação inteiramente artificial entre o núcleo e a célula, entre teorias e aquilo que elas teorizam, não é o fato de permitir aos historiadores intelectuais postular esse a-histórico e infindável desdobramento de idéias “puramente” científicas. O perigo real consiste na crença correspondente, entre os cientistas sociais, de que pela concatenação prévia de conceitos “enucleados” é possível explicar a existência de sociedades sem o concurso da ciência e da tecnologia.
(LATOUR, 2001, p.130, grifos do autor).
Como veremos no decorrer desta tese, o Projeto Lopes Rodrigues não se sustentou. No entanto, aparentemente, esse professor tinha em mãos todas as condições de possibilidade para realizar seu intento. Muitas perguntas se apresentaram. Apesar de sua posição de amarração, a idéia do quinto circuito, ao ser comparado ao coração, não “centraliza” o cerne das preocupações de um trabalho científico, mas dá a elas um caráter dinâmico, de interdependência. O estudo do Projeto Lopes Rodrigues, nesta perspectiva, envolve uma complexidade de inter-relações, expressas a partir de conexões geradas pelo reconhecimento da presença desses cinco circuitos.
Seguindo esse raciocínio, os impasses serão abordados e analisados dentro deste sistema transformado em um gráfico por Latour (2001):
Figura 1: O Fluxo Sanguíneo da Ciência8