Celso Furtado, em sua Formação Econômica da América Latina, destacou a seguinte questão (Furtado, 1969, p. 275):
A exportação de produtos primários constituiu para muitos países latino-americanos (...) o ponto de partida de um primeiro processo de industrialização. A indução externa de transformações estruturais internas de maior envergadura dependeu, entretanto, da ação concomitante de outros fatores tais como a importância relativa do fluxo de salários pagos, o grau de controle interno da atividade exportadora, a política fiscal, a existência de imigração recente de origem européia em volume significativo etc. Contudo, dentre esses fatores de ação concomitante é provável que nenhum haja sido tão importante quanto o tamanho do país, entendendo-se como tal, em primeiro lugar, a dimensão demográfica relativa e, em segundo, a base de recursos naturais.
Ao listar os inúmeros fatores influentes na industrialização e destacar, dentre estes, o tamanho dos mercados, Furtado, como outros autores estruturalistas, particularmente Prebisch, estaria preocupado com a eficiência do processo de substituição de importações na América Latina, especialmente no que diz respeito às economias menos desenvolvidas da região. Percebeu o fato de que a maior participação da indústria nos primeiros anos do século XX na Argentina, Brasil e México foi nitidamente beneficiada pelo tamanho dos seus mercados. Mas, mesmo nesses mercados, as limitações eram evidentes na estratégia de implantação de indústrias mais complexas, como as de bens de capital.
Essa questão era de suma importância para a continuidade do processo de substituição de importações e foi claramente destacada pelo documento de 1959 (PREBISCH, 1982d, pp. 471-472):
Los países de mayor población de la América Latina han podido llegar a una dimensión económica adecuada en algunas de sus industrias de consumo, aunque el mercado nacional sigue siendo demasiado estrecho en muchos casos para hacer posible una racional especialización que permita reducir los costos. Y a medida que se penetra en las industrias de bienes de capital, en las de automotores y en las de ciertos bienes duraderos de consumo se vuelve más evidente la necesidad de expandir el mercado nacional. Sin embargo, si no se organiza el mercado común, cada país, forzado por la necesidad ineludible de sustituir importaciones, tendrá que entrar cada vez más en esas industrias, y tendrá que hacerlo a costos sumamente altos. Es este un punto de la mayor importancia, pues la industrialización no es un fin en si misma sino un medio eficiente para acrecentar la productividad media y por tanto el nivel de vida de la población.
Y si las cuantiosas inversiones que requieren esas industrias arrojan un producto medio muy inferior al que tienen en los centros industriales de amplio mercado, se habrán malogrado en gran parte las consecuencias benéficas de esta nueva etapa de la industrialización en los países latino- americanos más avanzados. 45
De fato, dos 20 países da América Latina em 1960, apenas quatro tinham população acima de 10 milhões de habitantes (os recordes ficavam com o Brasil, com 72 milhões e México com 37 milhões), tendo doze população abaixo de 5 milhões de habitantes. 46 Os Estados Unidos, por exemplo, tinham na época cerca de 181 milhões de habitantes. Já a Comunidade Econômica Européia, formada então pela Alemanha, França Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo, somava 189 milhões de pessoas. Essa disparidade torna-se ainda maior quando se considera o problema da distribuição de renda, além das grandes diferenças em relação a outras variáveis, como níveis de produtividade, nível educacional, infra-estrutura, saneamento etc.
Um mercado comum latino-americano, que reuniria em 1960 cerca de 210 milhões de habitantes, poderia então dar maior racionalidade ao processo de substituição de importações. E, nessa conclusão, estava implícita a concepção
“ricardiana” da especialização (PREBISCH, 1982d, p. 476):
(…) en vez de tratar de implantar toda suerte de industrias, substitutivas, cada país podrá especializarse en las que juzgue más convenientes según sus recursos naturales, las aptitudes de su población y las posibilidades de su propio mercado, y acudirá a importaciones provenientes de los demás a fin de satisfacer otras necesidades de bienes industriales que no hubieran podido satisfacerse con base en importaciones del resto del mundo
Com essa interpretação, pode-se considerar que o documento avança na proposta de planejamento industrial sugerida nos primeiros trabalhos da CEPAL ao considerar
45 "Os países de maior população da América Latina conseguiram atingir uma dimensão econômica
adequada em algumas de suas indústrias de consumo, embora o mercado nacional continue sendo demasiadamente pequeno, em muitos casos, para possibilitar uma especialização nacional que permita reduzir os custos. E, à medida que se penetra nas indústrias de bens de capital, nas de veículos automotivos e nas de alguns bens de consumo duráveis, torna-se mais evidente a necessidade de expandir o mercado nacional. Entretanto, se o mercado comum não for organizado, cada país, coagido pela necessidade inelutável de substituir a s importações, terá que entrar cada vez mais nessas indústrias, e terá que fazê-lo a um custo sumamente alto. Esse é o aspecto de maior importância, pois a industrialização não é um fim em si, mas um meio eficiente de aumentar a produtividade média e, por conseguinte, o nível de vida da população. E, se os investimentos vultosos que essas indústrias requerem vierem a gerar uma produção média muito inferior à que eles têm nos centros industriais de grande mercado, malograrão, em grande parte, as consequencias benéficas dessa nova etapa da industrialização nos países latino- americanos mais avançados. " (Tradução extraída do livro cinquenta anos de pensamento da CEPAL, organizado por Ricardo Bielschowsky, vol. 1, p. 356.)
dois importantes critérios de eficiência: as vantagens comparativas, ainda que em nível regional e o tamanho dos mercados. Ao destacar os benefícios da especialização regional, não desprezou totalmente a concepção clássica do livre comércio. 47 Ao enfatizar as dimensões do mercado, buscou chamar a atenção para os efeitos dinâmicos da integração nesse processo. Ao considerar a impossibilidade dos benefícios do livre comércio na concepção multilateral, sugeriu a integração como uma “segunda melhor
opção”. Enfim, a criação de um mercado comum latino-americano se impunha como um
instrumento particularmente importante na mudança estrutural proposta nos primeiros documentos da CEPAL e trazem para a discussão às criticas provenientes da economia neoclássica.
Ao se considerar a heterogeneidade da região, tornava-se evidente a necessidade de adoção de outro importante critério na construção de um programa industrial regional: a eqüidade. Essa concepção fica mais evidente quando se consideram as possíveis mudanças estruturais decorrentes da intensificação do fluxo de comércio regional e com os seus efeitos distributivos. A questão era saber se a América Latina estava preparada, sozinha, para tratar de um problema tão difícil de ser solucionado. Senão vejamos.