A investigação da pesquisa qualitativa através de narrativas é o meio de dar voz às pessoas investigadas, oportunizando a imersão do colaborador e do pesquisador no discurso de suas trajetórias e subjetividade, muitas vezes negada em outras abordagens metodológicas. Para este estudo, adotou-se a perspectiva da História Oral de Vida como um meio para se recorrer às narrativas, por possibilitar uma reconstrução temporal do itinerário da experiência do colaborador com a ferida crônica em sua vida.
A utilização do instrumento de coleta de dados possibilitou a caracterização dos sujeitos participantes da pesquisa, aqui denominados colaboradores; três deles, alegando motivos diversos (luto familiar, mudança de residência e interesse particular), desistiram de participar da última etapa da pesquisa, a qual consistia na conferência da entrevista e assinatura da carta de cessão; dessa maneira, suas narrativas não compuseram o corpus documental desta dissertação e a rede passou a ser composta por seis colaboradores.
Para garantir o anonimato dos colaboradores, estes foram identificados por elementos do espaço geográfico, paisagístico e literário que enreda e interliga as histórias de vida dos colaboradores: o sertão nordestino. O elemento escolhido para nomear os colaboradores foi a flora da região, aqui simbolizados pelo nome de seis árvores que se adaptaram ao clima da região.
Adaptação é o conjunto de modificações provocadas na constituição de um organismo pela ação contínua de um meio diferente daquele onde, inicialmente, este se desenvolveu ou seus ascendentes; a adaptação é a harmonia possível entre o organismo e o meio (AYOAMA; MAZZONI-VIVEIROS, 2006). Quando as plantas estão naturalmente ajustadas às condições ambientais, todas as características estruturais e funcionais estão compatíveis à sua sobrevivência; ao considerar o homem neste pressuposto quadro, para que ele enfrente as diversas repercussões que permeiam o viver com a ferida crônica, desenvolve estratégias de resiliência para conviver com a cronicidade da UV.
Rebatizados com nomes fictícios de árvores encontradas na paisagem do sertão, estes nomes representam, assim como identificado no imaginário sertanejo, toda a força e resistência da vida em meio às adversidades do clima, da falta de acessibilidade e das desigualdades sociais.
Quem vive no sertão ganha a sua imagem de homem “forte, esperto, resignado e prático”, para o qual “viver é adaptar-se”, nas palavras de Euclides da Cunha (2000). Superando com criatividade, força e fé as intempéries da vida, o nordestino é, “antes de tudo, um forte”; e
fortes são os colaboradores Sr. Juazeiro, Sra. Aroeira, Sr. Umbuzeiro, Sra. Carnaúba, Sra. Angico-branco e Sra. Algaroba.
Conhecer as características sociodemográficas é essencial para o adequado planejamento da assistência aos portadores de UV, considerando que a ferida não pode ser avaliada separadamente da pessoa e do contexto em que está inserida. Dessa maneira, faz-se necessário conhecer a população alvo das ações de cuidados de saúde para promover ações de saúde eficientes e resolutivas (TORRES et al., 2013).
Para melhor contextualização, os dados sociodemográficos foram distribuídos no quadros sinóptico a seguir (Quadro 1), que será discutido adiante.
Quadro 1 – Caracterização dos colaboradores da rede, Natal/RN, 2014 COLABORADOR ID SEXO NATURAL ESTADO
CIVIL
GRAU DE INSTRUÇÃO
PROFISSÃO RENDA LOCAL DA UV COMORBIDADES TEMPO
UV ATIVA
NÚMERO DE RECIDIVAS
Sr. Juazeiro 57 M Natal/RN Divorciado Ensino Fundamental
Carpinteiro Não possui fonte de renda
Face anterior e
posterior MID Anemia 22 anos 1
Sra. Aroeira 67 F Natal/RN Viúva
Ensino Fundamental
Incompleto
Artesã
Até 1 salário mínimo INSS Aposentadoria por
invalidez Maléolo medial e face anterior MIE Doença Arterial Obstrutiva Periférica Hipertensão Arterial Dislipidemia 28 anos 2
Sr. Umbuzeiro 66 M Natal/RN Solteiro
Ensino Fundamental Incompleto Comerciante Entre 1 e 2 salários mínimos INSS Aposentadoria por tempo de contribuição Maléolo
medial MID Obesidade 10 anos 2
Sra. Carnaúba 78 F Natal/RN Viúva
Ensino Fundamental
Incompleto
Dona de casa
Até 1 salário mínimo INSS Pensionista Maléolo lateral MIE Hipertensão Arterial Dislipidemia
3 anos Não houve
Sra. Angico-branco 79 F Juazeiro do
Norte/CE Viúva Sem instrução Agricultora
Até 1 salário mínimo Bolsa-Família
Maléolo lateral MID
Hipertensão Arterial Dislipidemia
3 anos Não houve
Sra. Algaroba 64 F Acari/RN Solteira
Ensino Fundamental
Incompleto
Comerciante
Até 1 salário mínimo Trabalho informal sem
carteira assinada Maléolo lateral MIE Hipertensão Arterial Dislipidemia Diabetes 22 anos 3
Os determinantes sociais possuem forte impacto na prevalência das doenças crônicas, considerando que a as desigualdades sociais, diferenças no acesso aos serviços e desigualdades de informação e baixo nível de escolaridade determinam uma maior prevalência das doenças crônicas e de seus agravos (SCHMIDT et al., 2011).
Observa-se que o perfil socioeconômico dos colaboradores deste estudo corrobora com dados de pesquisas desenvolvidas no Brasil, com predominância de pessoas com baixa escolaridade e com renda menor que um salário mínimo. O nível de escolaridade é, certamente, um fator importante com relação ao autocuidado, sendo, por vezes, impedimento para o tratamento adequado. (EVANGELISTA et al., 2012; SANT’ANA et al. 2012; SILVA; MOREIRA, 2012; TORRES et al., 2013; SOUZA et al., 2013; DIAS et al., 2014)
Os colaboradores que declararam serem beneficiados com aposentadoria por invalidez ou pensão, atendendo aos critérios do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), passaram a ser a única fonte de renda formal da família, evidenciado no quadro pelos os colaboradores que realizavam trabalho informal referiram ser esta a única opção de fonte de renda, dadas as incapacidades e limitações provocadas pela existência da UV.
Os colaboradores que declararam não possuírem renda oriunda de benefícios de seguridade social referiram situação financeira precária, incluindo aqueles que trabalhavam na informalidade; este fato cursa com um comprometimento em sua qualidade de vida que inclui características alteradas de sono, repouso e alimentação, incluindo o acesso aos serviços de saúde. Esta condição contribui também para o aparecimento de recidivas de lesões e deficientes cuidados básicos domiciliares. Numa situação econômica deficitária, a presença da ferida e os cuidados que essa condição necessita constituem-se um fator desestabilizador no equilíbrio financeiro da família (TORRES et al., 2013; MINISTÉRIO DA PREVIDENCIA SOCIAL, 2014; DIAS et al., 2014).
Outros fatores relacionados à ocorrência, recorrência e presença de recidiva da UV estão intimamente relacionados a comorbidades associadas, principalmente, a outras condições crônicas, sendo identificadas neste estudo a hipertensão arterial sistêmica (HAS), o diabetes mellitus (DM) e as dislipidemias, corroborando com outros autores (TORRES et al., 2013; MOURA et al., 2009; EVANGELISTA et al., 2012; SANT’ANA et al., 2012).
Todos os colaboradores da pesquisa apresentaram o diagnóstico de IVC associado com outras comorbidades, sendo mais frequentes a hipertensão arterial sistêmica (HAS) e as dislipidemias, embora estes referissem desconhecer seu perfil glicêmico ou não realizar exames de rotina, o que diminui a detecção precoce de outras doenças também frequentes em pacientes idosos, como diabetes e ateromas.
Quanto à localização, tanto a região maleolar medial como a lateral são áreas mais comuns para o surgimento da UV; as úlceras que acometiam o pé localizavam-se em sua região dorsal. Longos períodos de tempo de úlcera ativa são marcados por períodos de cicatrização e recidivas, encontrados nos colaboradores com 10 anos ou mais de IVC e UV, que afirmaram já terem vivenciado a cicatrização da UV. Como fatores associados ao evento da recidiva, os colaboradores referiram a falta de recursos materiais disponíveis para a prevenção de UV (uso de meias compressivas). Outros fatores como a falha da adesão às orientações no momento do pós-alta, a dependência dos serviços de saúde e fatores não modificáveis relativos à doença de base são diretamente relacionados às recidivas.
A associação entre o longo período de existência da úlcera ativa e o número de recidivas foram encontrados em pacientes que mantinham atividades da vida diária ou atividades laborativas com longos períodos em posição ortostática, com curtos períodos de repouso. As recidivas das úlceras venosas após a cicatrização estão associadas ao não uso de terapia compressiva, medidas de controle insuficientes e a inadequada ou inexistente intervenção cirúrgica para correção da anormalidade venosa. A úlcera ativa acarreta progressiva redução da mobilidade e inabilidade laboral, uma vez que o estado de saúde dos indivíduos influencia fortemente na participação no mercado de trabalho (DIAS et al., 2014).
A apresentação da caracterização dos colaboradores nos quadros sinópticos e a correlação com a investigação na literatura permitem a imersão inicial no cenário no estudo, subsidiando a análise das histórias de vida e a experiência de possuir a IVC e a UV, possibilitando conhecer as dimensões não ditas nas entrevistas. Dessa maneira, a interpretação dos dados socioeconômicos antecede o tópico a seguir.