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O trabalho tem como função essencial o provimento da satisfação das necessidades biológicas primordiais, as quais podem ser de tipo material (e.g., alimentação, vestuário, habitação, saúde física e mental, recreação), psicológico (e.g., afecto, noção de pertença, apoio, realização, experiências novas, factor optimismo), ou social (e.g., posição entre os membros do grupo) (Mauro, Muzi, Guimarães & C. Mauro, 2004). Então, podemos dizer que o trabalho é uma actividade que é fundamental para o desenvolvimento das pessoas, e que em conjunto com outras actividades (como a alimentação, a comunicação, a eliminação, a respiração, o sexo, etc.) contribui para o complexo processo que é viver, contendo um conjunto de valores que lhe são intrínsecos, que lhe permitem ser o principal meio de aquisição de identidade e status, embora também seja causa de morbilidade, designadamente quando comporta factores de risco para a saúde e segurança (físicos, químicos, biológicos, ergonómicos e psicossociais, e de acidentes), relativamente aos quais os trabalhadores não têm instrumental para se proteger, podendo tornar-se uma fonte de bem-estar ou de mal-

estar ocupacional (Mauro, Muzi, Guimarães & C. Mauro, 2004; Murcho, Jesus & Pacheco, 2006; Murcho & Jesus, 2007a, 2007b).

Para além dos aspectos relacionados com as condições físicas dos ambientes laborais, os aspectos psicossociais, como sejam o aumento da precariedade e da pressão para a produção e para a utilização das novas tecnologias, são cada vez mais determinantes no surgimento de doenças laborais, e concomitantemente do aumento deste mal-estar ocupacional, que pela sua subjectividade tende a afectar particularmente a saúde mental das pessoas que trabalham (Heloani & Capitão, 2003).

Esta nova gama de patologias com ligação ao trabalho, como sejam as doenças cardiovasculares, psicossomáticas, e os transtornos mentais, é mais complexo do que as doenças ocupacionais, sendo de destacar o stresse ocupacional, o qual pode ser entendido como uma consequência das relações complexas que se estabelecem entre as condições de trabalho, as condições externas ao trabalho e as características individuais do trabalhador, em que as exigências laborais ultrapassam a sua capacidade de resposta, vindo a comprometer os indivíduos e as organizações (Stacciarini & Tróccoli, 2002, cit. em Fernandes, Medeiros & Ribeiro, 2008; Sato, Lacaz & Bernardo, 2006).

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS), dá enfoque à importância da promoção dos comportamentos salutogénicos, como os estilos de vida saudáveis e à identificação e prevenção dos factores de risco, que são, para além de outros, a alienação e o stresse profissional e social (OMS, 2002, cit. em Matos, 2004)

No caso das organizações de saúde, o stresse é considerado uma das principais fontes de mal-estar relacionado com o trabalho, e dentro do grupo dos profissionais de saúde, os enfermeiros são aqueles que mais são afectados pelo stresse ocupacional, talvez pela proximidade (temporal, social e psicológica) dos seus clientes (Murcho, 2006; Fernandes, Medeiros & Ribeiro, 2008).

De referir que esta problemática tem vindo a ser estudada em diversos níveis, em que destacamos o da Psicologia da Saúde, onde tem sido um tema que tem dominado a maior parte da investigação ligada aos aspectos organizacionais da saúde, produzida em Portugal (Teixeira, Cima & Cruz, 1999; Teixeira, 2000).

Até mesmo porque é necessário conhecermos esta realidade para prevenirmos consequências negativas, físicas e psicológicas, quer para quem trata como para quem é tratado, uma vez que a explicação de comportamentos de saúde e das reacções à doença não faz hoje sentido sem o contributo das variáveis psicológicas, e também porque a Psicologia da Saúde tem como fim, a partir do contributo técnico-científico da Psicologia, não somente a promoção e manutenção da saúde, e a prevenção e tratamento da doença e disfunções relacionadas, como também a promoção do bem-estar e da qualidade de vida, tanto na saúde como nas doenças (Ogden, 2004; Pais Ribeiro & Leal, 2004; Grilo & Pedro, 2005).

Para além disso, e é neste âmbito que esta investigação se enquadra, a Psicologia da Saúde também visa a análise e a melhoria do sistema de cuidados de saúde, potenciando a actuação de outros técnicos, como é o caso dos enfermeiros, objecto deste estudo, contribuindo para a melhoria das relações interpessoais (Teixeira, 2004).

Por outro lado, entre os diferentes domínios de investigação desta disciplina científica, está a melhoria do sistema de saúde, em que os estudos podem incidir entre outros aspectos, sobre o stresse ocupacional dos técnicos de saúde (Teixeira, 2004).

Complementarmente ao que temos vindo a expor, é importante mencionarmos a existência de um conjunto de factores de ordem pessoal e social (e.g., relações interpessoais, o ambiente laboral, a motivação com o trabalho, a actividade física e o lazer) que influenciam a saúde, quer directamente, ou indirectamente através da felicidade e do humor, podendo dizermos que a felicidade, o humor e a saúde se

influenciam mutuamente (Argyle, 1997, cit. em Matos, 2004).

Estes aspectos, interferem no bem-estar, e concomitantemente na qualidade de vida, que são dois aspectos essenciais para a Psicologia da Saúde, na medida em que esta área da Psicologia, está enquadrada também nos pressupostos da Psicologia Positiva, se bem que com uma perspectiva de investigação-acção e de intervenção psicológica, que tem como finalidade a promoção da saúde e do bem-estar das pessoas (Jesus, 2006).

Assim sendo, o bem-estar, e concomitantemente o mal-estar dos indivíduos, surgiram como um novo campo de estudo para a Psicologia, e em termos genéricos para as Ciências da Saúde, como a Enfermagem, uma vez que se trata da manifestação de uma dimensão importante do comportamento humano que tem repercussões na saúde, que é a felicidade (Jesus, 2006).

É portanto sobre os conceitos de bem e de mal-estar relacionados com o trabalho, e de alguns aspectos a eles associados que nos debruçaremos seguidamente.