A redução da participação da indústria no PIB e do emprego industrial no total, tema de debate desde os anos 1980, ganhou destaque na década seguinte, mas é nesta última década que ganha notoriedade, principalmente depois de 2008-09.
Para alguns heterodoxos, sobretudo, os novos-desenvolvimentistas86, a desaceleração da indústria pode ser caracterizada como desindustrialização precoce, causada pela sobreapreciação do câmbio real, ou seja, como doença holandesa. Contudo, para Oreiro & Marconi (2014), a doença holandesa não foi derivada da descoberta de recursos naturais87 ou pelo aumento das exportações de serviços, mas pela forma de condução da política macroeconômica, principalmente devido às aberturas financeira e comercial em meados dos anos 1990 e pela valorização dos preços internacionais das principais commodities exportadas pelo Brasil na última década. Bresser-Pereira e Marconi (2008, p. 1) corroboram o argumento acima:
A taxa de câmbio sofreu apreciação significativa em termos reais desde o início de 2003 e mesmo assim a receita de exportações continuou evoluindo favoravelmente até hoje; por outro lado, o saldo comercial só começou a se reduzir recentemente devido ao aumento afinal explosivo das importações. Este é um cenário típico de doença holandesa que torna compatível moeda nacional apreciada e equilíbrio comercial. Quando o superavit comercial começou afinal a diminuir, isto significava que agora era a entrada de capitais que estava adicionalmente (em relação à doença holandesa) provocando a apreciação do câmbio.
Segundo Palma (2005) e Oreiro & Feijó (2010), o Brasil saiu de uma situação acima da posição ricardiana natural para a posição das vantagens comparativas. Assim, para os novos-desenvolvimentistas a economia brasileira está passando por um processo de desindustrialização precoce, cuja causa principal encontra-se no câmbio sobreapreciado88.
As figuras 3 e 4 parecem confirmar a hipótese novo-desenvolvimentista. A taxa de câmbio tem seguido uma trajetória de apreciação contínua desde 2004, derivada primeiro do aumento dos preços internacionais das principais commodities exportadas pelo Brasil, alavancados pela demanda da China89.
86 Vide Carneiro (2012).
87 Pelo menos até a defesa deste trabalho. No entanto, a exploração do pré-sal pode levar a este tipo de doença
holandesa nos próximos anos.
88 Nassif, Feijó & Araújo (2011), encontram evidencias empíricas que a taxa de câmbio real esteve
persistentemente sobreapreciada no período 1999-2011. Essa sobreapreciação da taxa de câmbio real, em abril de 2011, foi de cerca de 80% em relação ao nível considerado ótimo pelos autores.
89 Veríssimo, Xavier & Vieira (2012) encontram correlações fracas entre os preços das commodities e a
valorização cambial real para o período 1995-2009 e correlações estatisticamente significantes para o período 2003-2009, período este que a China passou a demandar mais matérias-primas.
Como esta é atualmente a grande demandante e ofertante mundial, a China tornou-se o principal player mundial e determinante dos preços internacionais. Dado que a China possui um mercado interno relativamente grande e custo de produção relativamente baixo, os preços internacionais dos produtos que ela exporta ou importa são reduzidos e aumentados, respectivamente90. Sendo a China um grande importador de commodities, os preços internacionais das commodities se elevaram significativamente em relação aos produtos industriais, permitindo inclusive questionar a teoria cepalina dos termos de troca no período em questão91.
Figura 3: Taxa de Câmbio Real Efetiva (média 2006) e Índice de Preços Geral das commodities (média 2002) – média móvel (12 meses): Brasil, 1981.01-2012.05.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Bacen (2014).
Figura 4: Saldo em Transações Correntes (STC) e Saldo da Conta de Capital e Financeira (CCF) – média móvel (12 meses) – US$: Brasil, 1995.01-2014.5.
Fonte: Elaboração própria a partir de dados do Bacen (2014).
90 Vide Acioly, Leão e Pinto (2011).
91 Além dessa explicação do lado da demanda comumente utilizada para explicar a valorização dos preços das
commodities, Serrano (2013) mostra que essa valorização também se deve a elementos relacionados com o custo de produção. 70 80 90 100 110 120 130 140 80 130 180 230 280 330 1995. 01 1995. 07 1996. 01 1996. 07 1997. 01 1997. 07 1998. 01 1998. 07 1999. 01 1999. 07 2000. 01 2000. 07 2001. 01 2001. 07 2002. 01 2002. 07 2003. 01 2003. 07 2004. 01 2004. 07 2005. 01 20 05 .07 2006. 01 20 06 .07 2007. 01 20 07 .07 2008. 01 2008. 07 2009. 01 2009. 07 2010. 01 2010. 07 2011. 01 2011. 07 2012. 01 Câmbio Commodities -8.000 -6.000 -4.000 -2.000 0 2.000 4.000 6.000 8.000 10.000 12.000 1995. 12 1996. 06 1996. 12 1997. 06 1997. 12 1998. 06 1998. 12 1999. 06 1999. 12 2000. 06 2000. 12 2001. 06 20 01 .12 2002. 06 2002. 12 2003. 06 2003. 12 2004. 06 2004. 12 2005. 06 2005. 12 2006. 06 2006. 12 2007. 06 2007. 12 2008. 06 2008. 12 2009. 06 2009. 12 2010. 06 2010. 12 20 11 .06 2011. 12 2012. 06 2012. 12 2013. 06 2013. 12 CCF STC
No mesmo sentido, o aprofundamento da política econômica baseado no tripé “câmbio flutuante”, metas de inflação e metas de superavit primário, se revelou tão perverso nos anos
2000 quanto o observado no final dos anos 1990. Como uma das prioridades deste modelo é preservar a inflação dentro da meta, sempre que a demanda for considerada aquecida o suficiente para tornar a inflação acima do tolerável pelas autoridades monetárias, a taxa de juros será aumentada para conter a inflação. Entretanto, como a inflação no Brasil parece estar mais relacionada aos componentes autônomos do custo de produção do que propriamente com o aumento da demanda agregada92, o controle da inflação ocorre via apreciação real do câmbio. O aumento da taxa de juros amplia o diferencial em relação à taxa de juros externa, gerando um aumento da entrada de fluxo de capitais especulativos e, portanto, valorizando a taxa de câmbio real. Esta, por sua vez reduz o custo das matérias-primas e os preços dos produtos importados e, assim, reduz a inflação93. Dentro de um cenário externo em crise, esse movimento de capitais provocado pelo diferencial de juros tende a ser mais forte, aumentando a velocidade de apreciação do câmbio real no Brasil (Bresser-Pereira, 2013).
O governo de Dilma Rouseff tentou se desfazer desse trade-off entre competividade
externa e controle da taxa de inflação através do que Holland (2012) denominou de “nova matriz macroeconômica”, caracterizada pela combinação de juros baixos, câmbio competitivo
e política fiscal expansionista. No entanto, segundo Oreiro (2014), o problema foi que essa
nova matriz macroeconômica não rompeu com o “desenvolvimentismo inconsistente” iniciado no segundo governo Lula, de modo que se comportava como uma espécie de “biruta de aeroporto”, ora adotando medidas para acelerar a desvalorização do câmbio nominal com o
intuito de recuperar a competitividade externa da economia brasileira, ora desistindo dessas medidas com o objetivo de reduzir a inflação, sendo o resultado desse comportamento a manutenção da sobrevalorização cambial e do patamar elevado da taxa de juros real, isto é, da
“armadilha câmbio-juros”.
Utilizando um modelo similar ao de Corden e Neary (1982), Bacha (2013) mesmo sendo ortodoxo corrobora com a tese de que a desindustrialização seja derivada da doença holandesa. No entanto, ao contrário da tese dos novos-desenvolvimentistas, argumenta que a alta dos preços das commodities, ao provocar o deslocamento da mão de obra da indústria para o setor de serviços, causaria a desindustrialização independentemente da apreciação cambial ou do aumento do consumo doméstico.
92 Diversos estudos mostram uma correlação direta entre inflação e taxa de câmbio real para a economia
brasileira (Braga, 2011; Martinez e Braga, 2012).
93 Essa redução da inflação ao provocar uma queda no IGP-I, leva ao reajuste dos preços indexados da economia,
Segundo os novos-desenvolvimentistas (Oreiro & Feijó, 2010; Marconi & Barbi, 2010; Marconi & Rocha, 2012; Feijó & Lamonica, 2012), a combinação desses dois aspectos tem gerado, em suma, quatro efeitos sobre a economia brasileira: 1) sobreapreciação cambial;
2) “reprimarização” da pauta de exportação; 3) valorização dos termos de troca e tendência à
especialização regressiva da estrutura produtiva; e, portanto, 4) a combinação desses três efeitos tem levado à desindustrialização precoce da economia brasileira.
Assim, diante do crescimento da demanda da China por commodities e na ausência de políticas adequadas para controlar a inflação, o câmbio tem se tornado sobreapreciado. Essa sobreapreciação torna os produtos domésticos menos competitivos vis a vis os produtos importados, prejudicando principalmente a indústria nacional.
Usando a metáfora de Bresser-Pereira (2012), o câmbio é uma espécie de “interruptor
de luz” que, ao apreciar-se, desliga as empresas nacionais do mercado mundial e, ao mesmo
tempo, liga as empresas internacionais ao nosso mercado interno.
Nesta perspectiva, na visão dos autores supracitados, se o Brasil continuar se especializando na produção de produtos primários, a desaceleração mais rápida do crescimento da China pode, como está ocorrendo, reduzir o crescimento do Brasil, se não gerar um crescimento negativo do PIB. Além disso, mesmo que a economia mundial se recupere, o crescimento do Brasil pode ficar aquém da média mundial. Como já é trivial, o aumento da renda real tende a aumentar mais a demanda de produtos com maior conteúdo tecnológico do que a demanda por produtos primários94 e, portanto, países exportadores de produtos primários, como o Brasil, tendem a crescer abaixo da média mundial, o que torna o crescimento do país extremamente dependente das importações de um player mundial, como a China, e/ou da entrada de fluxos de capitais (poupança externa), de modo que o crescimento não esbarre na restrição externa.
O efeito da sobreapreciação cambial sobre a demanda agregada, no governo Lula, foi
um pouco compensado pelas políticas que ficaram conhecidas como “populismo cambial”, ou
seja, aumento do consumo das famílias derivado do próprio câmbio apreciado, de políticas redistributivas, valorização salarial, expansão do crédito e da redução dos impostos sobre os produtos industrializados o que permitiu ao país crescer impulsionado pelo seu mercado interno. Para Lamonica & Feijó (2013), esse populismo cambial levou ao vazamento da demanda e, portanto, enfraqueceu o efeito feedback do aumento da renda sobre a estrutura
produtiva no sentido de fazer avançar a introdução do progresso técnico na velocidade correta para evitar a estagnação da produtividade.
Segundo Pastore, Gazzano & Pinotti (2013), em períodos de recessão o custo de retenção dos trabalhadores qualificados pode ser menor do que o custo de demissão e o de qualificar novos trabalhadores na fase de recuperação. Assim, as empresas tendem a reduzir as horas trabalhadas e a reter a mão de obra e, portanto, reduzir a produção e consequentemente a produtividade. Contudo, as políticas contracíclicas pós-2008, combinadas com o populismo cambial diante de uma economia próxima do pleno emprego, aumentaram o custo da força de trabalho industrial. Como esse é um setor de tradables, ocorreu o estreitamento das margens de lucro e, portanto, o desestímulo à produção doméstica. Além disso, a demanda que não foi atendida pela produção industrial doméstica vazou para o exterior na forma de importações líquidas, gerando déficits no saldo comercial. Diante disso, parece haver um consenso relativo entre Lamonica & Feijó (2013) e Pastore, Gazzano & Pinotti (2013) de que os erros de política econômica estão por trás de parte da letargia da indústria no período pós-2010, embora a relevância do câmbio nesse processo tenha mais força para Lamonica & Feijó (2013) do que para os demais autores
O governo tentou evitar a apreciação cambial através de controles de capitais, mas para Bresser-Pereira (2012) e Oreiro (2012), a introdução de um imposto sobre as exportações de commodities, a exemplo da Austrália e Argentina, é fundamental para eliminar a sobreapreciação, uma vez que esta é causada em grande parte pela doença holandesa95. Bresser-Pereira (2013) argumenta que a taxa de câmbio de equilíbrio industrial no Brasil é cerca de R$ 3,00 por dólar. Assim, as desvalorizações do câmbio no final de 2013 não foram suficientes para retirar a indústria brasileira de sua condição de crise permanente e de desindustrialização. Além disso, as empresas brasileiras enfrentaram a concorrência severa dos produtos importados, o que tem dificultado sua recuperação. Segundo Bresser-Pereira
95 Em suma, seria criado um fundo internacional de estabilização onde seriam depositados os dólares adquiridos
pelo imposto sobre as exportações. Assim, como esses dólares não passam pelo câmbio interno, eles não alimentariam a oferta de moeda estrangeira e o câmbio se recuperaria ou pelo menos deixaria de cair. O valor da alíquota deverá variar conforme a taxa de câmbio e os preços internacionais. Se a taxa de câmbio for igual ou maior que a taxa de câmbio de equilíbrio (ou seja, a taxa de câmbio que viabiliza a indústria), a alíquota será igual a zero. Caso contrário, a alíquota será positiva, mas com sobra para o produtor. Por exemplo, se a taxa de câmbio for para R$ 2,50 por dólar, o imposto deverá ser no máximo de R$ 0,40, restando um ganho de R$ 0,10 para o produtor (supondo que a taxa de câmbio de equilíbrio seja igual a R$ 2,00 por dólar). Por outro lado, se ocorrer uma queda muito forte nos preços internacionais desses produtos com incidência do imposto, o fundo de estabilização compensará os produtores até que os preços voltem ao normal. O problema com essa medida é que diferente da Noruega, Chile, Rússia, Argentina e Austrália onde houve êxito, a pauta de exportação do Brasil é bastante diversificada e, portanto, as alíquotas seriam diferenciadas, o que requer uma administração complexa. Além disso, podem surgir problemas relacionados a Organização Mundial do Comércio (OMC).
(2014) mesmo com o governo Dilma realizando alguma desvalorização real, a taxa de câmbio ficou longe da que torna as empresas competitivas e que leva à aceleração do crescimento e ao catching-up.
Portanto, para os novos-desenvolvimentistas o Brasil foi contaminado pela doença holandesa tanto na definição clássica como na definição contemporânea. Porém, trata-se ainda de um estágio inicial, mas que tende, se não for devidamente neutralizado, a sucatear a indústria nacional, condenando o país a um baixo crescimento no longo prazo. Porém, essa tese não é consenso para o caso brasileiro, vários autores ortodoxos discordam desta posição como se verá na próxima seção.
3.2. A Desindustrialização na Perspectiva Ortodoxa e a Contrapartida Novo-