4.3 Results
4.3.5 Validation of results
No Novo Testamento, a morte é concebida como uma consequência do castigo pelo pecado. A morte é vista como um grande inimigo a ser derrotado. Paulo exprime sua concep- ção sobre a morte, partindo da fé no crucificado, que é portador da salvação, porque a huma- nidade que descende de Adão está sujeita à morte. Ele se refere, em primeiro lugar, à morte física, mas compreende também a morte espiritual, a do afastamento de Deus. Ele entendeu a morte como salário do pecado. (Cf. Rm 6,23). A reflexão sobre a morte encontra uma ligação direta com o ensinamento do apóstolo sobre o pecado, a lei, a carne (sarx), o pneuma.138 No Novo Testamento, os termos que designam o ser humano em sua totalidade são sarx, soma e
pneuma. Sarx lembra o termo hebraico basâr, a sua natureza humana e sua fragilidade. Viver
segundo a carne não significa que a carne é pecadora, mas que é a existência isolada de Deus que faz o ser humano pecar. Soma é o ser humano inteiro vivendo no espaço-tempo e solidá- rio com os demais, portador da imagem de Adão e capaz de reproduzir a imagem de Cristo. O termo pneuma tem sua equivalência em ruah, ou seja, a comunicação de Deus para o ser hu- mano. É o ser humano aberto para Deus.
Embora sarx não seja uma potência ativa da morte, é nela que se manifesta a domina- ção do pecado. Por isso, Deus enviou seu Filho, que assumiu na carne o pecado para nos li-
137 Cf. GEFRRE, C. Morte. In: LACOSTE, J-Y. Dicionário crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas; Loyola,
2004, p. 1.195-1.201.
bertar da morte (Cf. Rm 8,3). 139 Remetendo-se à queda do ser humano em Gênesis, Paulo faz a relação Adão-Cristo, em que pelo primeiro entrou o pecado, a desobediência e a morte, e, pela obediência de Cristo, entrou a vida no mundo.
Em 1 Cor 15,22, analogamente, Paulo diz que morremos em Adão, mas que todos fo- mos trazidos de volta à vida em Cristo. Nessa concepção, Cristo é denominado o Novo Adão. Se Deus assim “encerrou todos os homens na desobediência era para fazer misericórdia a to- dos.” (Rm, 11,32). Em Cristo, ele se reconcilia com o mundo (Cf. 2 Cor 5,19). Cristo é o novo Adão porque traz em si a nova humanidade, nele se realiza a morte ao pecado, e todos quantos se ligam a ele participam na obra da salvação. (Cf. Rm 5,12ss; 1 Cor 15).140
Um elemento importante da concepção neotestamentária é constituído pela afirmação de que Jesus superou a morte com sua própria morte. (Cf. 1 Cor 15,25s). Cristo despojou a morte de seu poder (Cf. 2Tm 1,10) e nos libertou da lei do pecado e da morte (Cf. Rm 8,2). Por isso, o Novo Testamento afirma que Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos. (Cf. Rm 14,9).141
O batismo cristão também faz referência à morte. Em Rm 6, 3-11, o apóstolo faz a se- guinte reflexão: “Ignorais que, batizados em Cristo Jesus, é na morte que todos fomos batiza- dos?” Com essa indagação, Paulo salienta que, para aquele que é batizado em Cristo, a vida diária é uma morte e uma ressurreição com Cristo (Cf. Rm 6,2s).
Nos evangelhos Sinóticos, o centro dos relatos está no anúncio da salvação deste mun- do de morte através do envio do Filho de Deus ao mundo (Cf. Jo 3,17-19; 6,14; 9,39; 12,46), que, com sua morte, vence o pecado. Alguns textos remetem à busca de sentido na morte de Jesus: “O Cristo foi entregue por nossas faltas e ressuscitado para a nossa justificação.” (Rm 4,25). Outras passagens bíblicas evocam que Cristo morreu por nós. (Cf. Rm 5,6-8). Outras, ainda, que ele morreu por nossos pecados. (Cf. 1 Pd 2,24).
De acordo com os evangelhos, foi o próprio Jesus quem se colocou no caminho para Je- rusalém, onde aconteceu a entrada triunfal e messiânica que levou as pessoas a identificarem-no como o Messias esperado. (Cf. Mc 11, 15-17). Porém, mesmo deixando-se conduzir à morte que o devolverá ao Pai (Cf. Jo 14,28), a sombra da cruz é tão pesada que Jesus chora e se sente
139 Cf. HOFFMANN, P. Morte. Dicionário de Teologia: conceitos fundamentais da Teologia atual. 2. ed. São
Paulo: Loyola, 1987, p. 363-374, v. 3.
140 Cf. REY, B. Nova criação em Cristo no pensamento de Paulo, p. 102-103.
perturbado. A expressão Minha alma está perturbada (Jo 12,27) mostra que aquele que veio para vencer a morte deixa-se tomar pela consciência acerca da violência, da hostilidade.142
Na literatura romana, a crucifixão é descrita como uma punição cruel e temida, não sendo aplicada aos cidadãos romanos, mas aos escravos e criminosos. Na cruz, Jesus tomou sobre si os pecados de toda a humanidade, trazendo a ela a redenção dos pecados. (Cf. Cl 2,14).143 A voluntariedade de sua autoentrega é fortemente sublinhada na captura e na prisão (Cf. Mc 14, 46; Mt 26,50; Jo 18,12), mostrando que Jesus enfrentou o momento de sua morte. Cristo, ao morrer na cruz, deixa claro seu incondicional amor à humanidade. (Cf. Rm 8,35;
Gal 4).
Jesus atravessou a porta de nossa solidão extrema. Na exclamação: Meu Deus, meu
Deus, por que me abandonaste? (Mc 15,34), encontram-se duas interpretações diferentes
entre os teólogos. Uma apresenta que, na Paixão, Cristo afundou no abismo de nossa sensação de abandono, sentindo-se abandonado pelo Pai. Por isso, é o total abandono de Jesus por parte da humanidade e de Deus. A outra interpretação ressalta que a expressão dita por Jesus são palavras do Salmo, uma oração de Israel, que resume de maneira intensa a aflição e a esperança desse povo escolhido por Deus e, justamente por isso, aparentemente tão abandonado por ele. Essa oração, que se levanta do tormento mais profundo da escuridão sem Deus, termina com um louvor à grandeza de Deus. Nessa interpretação, o grito de Jesus não se refere a si mesmo, mas ao Pai. Seu grito enfrenta a realidade do mundo inteiro, que se sente abandonado por Deus, mas, ao mesmo tempo, o rejeita. Portanto, não é o Filho que se sente abandonado pelo Pai.144
142 Cf. FEINER, J.; LOEHRER, M. Mysterium Salutis. Compêndio de Dogmática Histórico-Salvífica. O Evento
Cristo. Mysterium Paschale. III/6. Petrópolis: Vozes, 1974, p. 84.
143 Cf. MCKENZIE, J. L. Cruz. In: Dicionário Bíblico, São Paulo: Paulus, 1983, p. 203-204. 144
É possível considerar que, psicologicamente, Jesus sentiu-se imensamente abalado diante do desafio do sofrimento da morte, como qualquer ser humano assim sentiria. O relato bíblico declara a confissão de Jesus quanto à perturbação e angústia de seu ser. As duas hipóteses têm determinado sentido, pois Cristo poderia tanto estar se sentindo abandonado pelo Pai, o que acontece com muitas pessoas diante de um sofrimento insuportável, como poderia estar entregando sua aflição e sofrimento a ele. De qualquer maneira, sendo Jesus inteiramente humano, seu sofrimento físico e psíquico torna-se indiscutível, independentemente da interpretação teológica que se dê.