OFICIAL POPULAR Características
Missa Dança de São Gonçalo O sagrado e o povo se encontram em um lugar
Procissão Cavalhada, Congado O sagrado desloca-se, juntamente com o povo, por
espaços profanos.
Romaria Folias de Santos Reis O povo desloca-se para um lugar sagrado.
A partir deste esquema, pretendo identificar e compreender a Folia de Reis enquanto ritual que congrega, através de todos os eventos de sua realização, esses três “estilos”, ou essas três situações rituais do religioso católico. Defendo aqui que a Folia se configura como um complexo ritual devocional do catolicismo popular que logra realizar as diferentes dimensões rituais vivenciadas na Igreja oficial. Dessa forma, os seus participantes e devotos realizam as suas práticas devocionais entre as três situações sem sequer necessitar da presença de um representante do clero, bastando apenas a participação e a mobilização de diferentes categorias de pessoas de sua comunidade.
Realizam a situação missa quando se reúnem em torno de uma “lapinha” no interior de uma das casas da comunidade, e ali rezam o terço, ajoelhando-se diante do “Menino Jesus”, e permanecem, às vezes durante horas em pé, ouvindo os versos cantados pelos foliões que relatam a história do nascimento do “Menino Jesus” e da visita dos “Reis Magos”. As solenidades deste momento não possuem um sentido muito diferente daquelas que podemos observar durante a realização de uma missa. Haverá momentos para rezarem todos juntos e em voz alta; momentos para cantarem entre apenas os devotos-artistas do ritual; momentos para gestualmente todos se ajoelharem diante do presépio; momentos específicos para se “saudar a Bandeira”, entre outros que demonstram o rigor e o fervor com que celebram a sequência cerimonial da Folia.
As fotos revelam a atitude ritual que os foliões assumem depois que a Folia entra em uma das casas do “giro”, permanecendo geralmente na sala, ou onde esteja localizada “a lapinha”. Nesse espaço ela celebra grande parte dos rituais, obedecendo a uma determinada “liturgia popular” que se constituem dos momentos relatados anteriormente.
Nestas imagens podemos observar a atitude ritual desempenhada pelos foliões, assim como as demais pessoas presentes, quando se ajoelham diante da “lapinha”. Em outros momentos, aproximam-se da Bandeira para beijá-la e/ou tocá-la, pedindo bênçãos. Nestas ocasiões observa-se quase sempre uma grande comoção. Muitos oram fervorosamente, chegando inclusive a chorar, demonstrando um elevado nível de devoção para com “Santos Reis”.
Fotos 23 e 24: Folia de Reis do “seo Carlos” no momento em que “reza” no interior de uma casa da periferia de Pirapora, em dezembro de 2012.
Fotos 25 e 26: Folia de Reis na comunidade rural do Escuro, município de São Romão, entre o Natal de 2009 e a Festa de Santos Reis de 2010.
Durante as caminhadas, entre uma casa e a outra, entre curtas ou longas distâncias de uma comunidade, a Folia vai sendo seguida por seus devotos, sendo que a “Bandeira” ou a “guia” é um objeto especialmente sacralizado e os foliões que representam/são os “Reis Magos” são simbolicamente revestidos de uma igual sacralidade. Eles se apresentam como “os Três Reis Magos” em nome dos quais cumprem a “jornada”.
Ela realiza então uma caminhada ritual que se configura enquanto uma procissão. Há regras a serem seguidas – “viajar do oriente para o ocidente”, ou sem nunca voltar ou cruzar o caminho já percorrido. Ninguém segue na frente da “Bandeira”, e todos que não são foliões caminham atrás do terno. Vemos que o sagrado e o povo, deslocando-se por um espaço profano, ressignificam os lugares por onde passam, tornando-os simbólica e provisoriamente sagrados durante esse deslocamento. Entre as Folias que acompanhei durante minhas pesquisas, observei e comprovei essa dimensão procissão, pois a passagem de um terno de Folia por uma rua ou estrada é reconhecida por todos os que estejam somente “assistindo” como algo sagrado e digno de respeito, atitude igualmente identificada entre as pessoas que observam a passagem de uma procissão organizada pela Igreja oficial. Dentro das casas a dimensão de procissão também será vivida, quando a “Bandeira” é entregue para a dona de casa, e em suas mãos percorre todos os cômodos, trazendo as bênçãos de “Santos Reis”.
A “Bandeira” segue a frente da Folia, anunciando a passagem de “Santos Reis”. Muitos a acompanham para “pagar uma promessa”. É um momento vivido com tanto fervor, ou em algumas situações até maior, quanto os demais “rezados” dentro das casas.
A Folia é também uma grande viagem: uma jornada. Ela pode então ser compreendida a partir da dimensão romaria, quando o povo se desloca de um lugar para outro, não raro distante do primeiro, em busca de uma casa: a da “chegada da Folia”, tornada, como já vimos, um ambiente fortemente sacralizado. Assim como nos rituais de uma Folia de Reis, uma romaria será sempre uma viagem festiva, como afirma Brandão (1989) quando nos diz que uma romaria “se realiza na verdade como uma grande festa de viagem”.
Foto 27: Folia de Reis de “seo Carlos” caminhando por uma estrada entre comunidades do município de Buritizeiro, MG, em janeiro de 2012. Autora: Alessandra Fonseca Leal
Será mais ainda o festivo momento da chegada, quando os romeiros finalmente encontram-se no lugar sagrado de seu destino e celebram com júbilo este esperado momento, pois “ela é mais do que tudo uma chegada a um lugar onde a própria romaria se realiza como festa” (BRANDÃO, 1989, p. 40), assim como acontece na “Festa de Santos Reis”, do dia 6 de janeiro.
A Festa de Reis é o encerramento festivo de uma viagem. É o momento de “entrega da Bandeira”, quando todas as promessas são afinal pagas e uma “jornada” acabou de ser cumprida. A alegria e a fartura características deste tipo de festa revelam modos de vida camponeses que subsistem entre moradores das comunidades tradicionais, e fortalecem os laços que os unem. Assim como na romaria, terminada uma viagem ritual e cumprida uma dívida para com o sagrado, celebra-se ritual e festivamente o seu encerramento com novas promessas para o próximo ano, sobretudo no momento da escolha do novo festeiro e do compromisso dos foliões de tornarem a repetir mais uma vez a “Jornada dos Três Reis Magos”.
Seguindo em romaria, os foliões e devotos que realizam a “jornada” por extensas áreas rurais deixam suas casas durante um longo período. Partem então carregando suas malas e sacolas para “cumprirem uma missão”. Em alguns casos, como o retratado nas imagens seguintes, eles contam com a ajuda de algum transporte, como o caminhão da foto. É na carroceria que eles trafegam pelas estradas quando a distância entre um lugar e outro de parada da Folia é muito grande.
Fotos 28 e 29: Folia de Reis da comunidade rural do Escuro, município de São Romão, em janeiro de 2010, percorrendo a pé e por vezes de caminhão as distâncias de uma casa a outra do “giro”
A partir das ideias apresentadas e discutidas até aqui quero analisar as Folias de Reis, e entre elas especialmente as que acompanhei nas diferentes comunidades pesquisadas, e as que me foram apresentadas por meio de relatos de seus foliões e guias, sendo que elas também foram observadas em momentos pontuais, para fazer uma releitura do esquema nº 1, a partir da qual identifico nos diferentes momentos das Folias as três situações rituais que são reproduzidas a partir de um catolicismo oficial.
Foto 30: Folia de Reis da comunidade de Jatobá, município de São Francisco, em janeiro de 2012, percorrendo a pé o trajeto entre dois sítios da comunidade.