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A edição comemorativa dos 40 anos do Pasquim foi uma homenagem às suas capas. Mais do que documentos de sua época, algumas são verdadeiras obras gráficas das inquietações e do espírito daqueles tempos. Elas foram tomando características que as

aproximam de edições “revistizadas”, com a preocupação com sua composição visual de síntese do espírito satírico do jornal e de um estilo que possibilite a expressividade da edição através da página de apresentação das matérias da semana.

Elas trouxeram títulos, chamadas, fotografias e desenhos que representavam para o espaço público da banca de revista uma porta de entrada de um objeto que teve também nos anos 1960 e 1970 sua característica de expressão visual através de sua presença física, como porta de entrada para o jornal. Isso significa que, em tempos de ditadura militar, perseguições, torturas, um primeiro contato com as capas do Pasquim era uma espécie de convite para um conteúdo paralelo e contra-hegemômico ao que era divulgado tanto na chamada grande imprensa, quanto pela propaganda institucional do regime político autoritário.

De uma característica mais de descrição do conteúdo, como a do primeiro número do semanário (anexo 01), quando aparece na capa o primeiro entrevistado, o colunista Ibrahim Sued, elas caminham para um contato com o leitor em um tom mais humorístico, como com as edições de números 32, 34 e 54 (anexos 75, 76 e 77). São três exemplos que estampam capas bastante significativas, trazendo desenhos gráficos de humor de contestação e resistência. Vale salientar que, tendo no desenho de humor uma de suas principais características formais, mesmo em capas mais sérias (como a de número 40, anexo 25) o espírito de contestação se torna evidente.

Um exemplo de capa com um tom mais sério, com destaque para a fotografia, está na edição de número 17 (anexo 74), quando há apenas uma fotografia de Caetano Veloso sentado em uma escadaria de ferro e embaixo o título apenas com o primeiro nome do compositor baiano em caixa alta, letras maiúsculas. As frases-lemas - matérias redacionais que acompanhavam cada edição abaixo da logomarca e ao lado do número da edição, data e preço, garantem a permanência do tom cômico do jornal: A alegria do confinamento é a

chegada do Pasquim (Hélio Fernandes), estampava a edição de número 17. A presença de

Caetano, exilado em Londres, na capa do Pasquim, em si mesmo sintetiza como espaço gráfico do objeto jornal uma resistência localizada contra o regime militar, que o prendera e o expulsara do país.

Na edição de número 32, de 29 de janeiro de 1970, por exemplo, um toque de refinamento gráfico que aparece nos desenhos de humor constrói a composição da capa. Um sujeito agressivo rompe as páginas de um jornal repleto de desenhos do ratinho Sig, que o contornam. Funciona como se as matérias e desenhos do jornal conotassem pequenos, distribuídos e repetitivos espaços de incômodo a quem não gostava da publicação. Esses

espaços são representados pelos 18 ratinhos Sig que se espalham na mancha gráfica. Essa leitura visual permite aliar mais uma vez a figura do “rato que ruge”, como dizia Jaguar, à síntese da natureza humorística e de contestação que possibilita ver o jornal como um espaço de resistência aos abusos e intolerâncias representados pelos poderes hegemônicos, em seu papel como veículo da imprensa alternativa.

A capa da edição 34, de 12 de fevereiro de 1970 (anexo 76), faz uma alusão sutil à característica de crítica nas entrelinhas implementada pelo jornal, iniciada com a entrevista com Leila Diniz, quando os inúmeros palavrões ditos pela atriz foram substituídos por asteriscos, numa tentativa de burlar a censura. A capa traz o ratinho Sig colhendo flores num campo, cujas pétalas são representadas por asteriscos. A frase-lema expressa o sentido latente da piada visual: O Pasquim: um pequenino enganador. Era como se o Pasquim estivesse zombando mais uma vez da própria censura como instituição logo na capa, através das imagens e palavras, ao dar ênfase ao mecanismo visual representado pelo asterisco na substituição de expressões proibidas, enganando-a, sendo o Pasquim representado por seu avatar desenhado, na figura de Sig.

A edição da capa de número 54 (anexo 77), de 02 de julho de 1970, traz pela primeira vez na imprensa brasileira a expressão “bicha” em uma capa de uma publicação, dita por Sig em um balão de diálogo. Ao lado de Sig, em um desenho maior, uma mulher vestida como as cortesãs dos anos 20 do século XX, representando conotativamente a imagem das “bichas do

Pasquim”, como a gíria da época se referia aos homossexuais. Um artigo de Tarso de Castro

na página 02 da mesma edição faz uma comparação entre figuras popularmente conhecidas do público do jornal e a palavra.

Vê-se a partir das capas do jornal, uma idéia da pluralidade de temas tratados, como comportamento, censura, cultura, arte, política etc. Isso ressalta a idéia de que a imprensa alternativa representada pelo Pasquim procurava também abordar em suas capas temas que não estivessem ligados diretamente às críticas direcionadas ao regime, possibilitando suas práticas jornalísticas e humorísticas em outras perspectivas que conseguissem nas entrelinhas, de forma furtiva, em temas correlatos, em outros alvos, em outras construções gráficas e textuais, em outros espaços possíveis e em outras formas de contestação política, social e cultural.