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1.6 Godkjenning av vaksiner

1.6.2 Vaksiners effekt

No “O seminário, livro V – As formações do inconsciente”, de 1957-58, Lacan relê o Édipo freudiano e dedica três lições ao tema da metáfora paterna e ao Complexo de Édipo. Ele separa o complexo, didaticamente, em três tempos, localizando nele o processo de sexuação. Sexuação “é o processo de reconhecimento na posição masculina ou feminina, constituindo um assunto de significante, desarticulado do corporal/ biológico” (Capanema, 2009, p.34), ou seja, é a tomada de posição na partilha dos sexos, não tendo relação exclusiva e direta com o biológico.

A função do Édipo é normatizadora não apenas no campo moral ou nas relações dos sujeitos com o campo da realidade (questão de estrutura: neurose, psicose ou perversão), mas também quanto à assunção do sexo. Lacan (1957-58/1999) indica-nos, entretanto, que o complexo de Édipo não é o mesmo que genitalização, uma vez que esta é um salto que comporta uma maturação biológica, enquanto

há no Édipo a assunção do próprio sexo pelo sujeito, isto é, para darmos os nomes às coisas, aquilo que faz com que o homem assuma o tipo viril e com que a mulher assuma um certo tipo feminino, se reconheça como mulher, identifique-se com suas funções de mulher. A virilidade e a feminização são os dois termos que traduzem o que é, essencialmente, a função do Édipo. (p.171)

O pai no Édipo é uma metáfora, substituindo o significante materno, primeiro significante introduzido no processo de simbolização, que organiza a constituição psíquica do infans. Na relação da mãe com o bebê, ainda num período pré-edipiano, já há uma primeira simbolização, uma subjetivação em nível primário, em que a mãe ainda é primordial, mas pode estar presente ou não na sua relação com a criança.

O primeiro tempo do complexo de Édipo é marcado pela posição em que a criança busca satisfazer o desejo materno, estando aí identificada ao falo imaginário. Aqui, a instância paterna se introduz de forma velada ou ainda não aparece nessa relação. Essa relação mãe e criança, no entanto, já é uma relação simbólica, indica-nos Lacan (1957-58/1999), porque o que a criança quer não é a mãe, mas o desejo da mãe, comportando aí uma triplicidade. “É um desejo de desejo” (p.205). Desse modo, nesse tempo edípico, a criança fica isolada, “desprovida de qualquer outra coisa que não o desejo desse Outro que ela já constituiu como sendo o Outro que possa estar presente ou ausente.” (p.206).

No segundo tempo do Édipo, o pai intervém como privador da mãe, remetendo-a a uma lei que não é apenas a dela, mas a de um Outro, que é quem possuiu seu objeto de desejo. Trata-se do pai proibidor, que intervém no discurso materno, anunciando duas proibições: ao filho (não te deitarás com tua mãe) e à mãe (não reintegrarás seu produto). Dessa forma, a criança sai do assujeitamento em que se encontrava, quando estava à mercê dos caprichos maternos, sendo retirada do lugar de falo imaginário, posição na qual ela e a mãe poderiam se satisfazer. O pai, aqui, aparece menos velado que no primeiro tempo, mas também não é todo revelado, pois seu discurso aparece a partir do discurso materno, já que é a mãe quem confere valor à palavra do pai. Capanema (2009) orienta-nos que, deixando assim de se identificar com o ser o falo, a criança passará a escolher entre ter ou não ter o falo, o que permitirá, na saída do Édipo, localizar-se nas funções de homem ou de mulher.

No terceiro tempo edípico, o pai intervém como aquele que detém o falo, invertendo sua posição, daquele que priva a mãe do falo para aquele que pode lhe dar o falo.

O terceiro tempo é este: o pai pode dar à mãe o que ela deseja e pode dar porque o possui. Aqui, intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra – digamos que o pai é um pai potente. (Lacan, 1957-58/1999, p.210)

A mãe, por sua vez, pode ter acesso ao falo via pai, que é quem o possui. O pai aparece, neste momento, como permissivo e doador no nível materno, surgindo, pela primeira vez, em seu próprio discurso. E assim,

por intermédio do dom ou da permissão concedidos à mãe, ele [o sujeito], afinal, consegue isto: que lhe seja permitido ter um pênis para mais tarde. Aí está o que é efetivamente realizado pela fase do declínio do Édipo – ele realmente carrega, como dissemos da última vez, o titulo de posse no bolso. (Lacan, 1957-58/1999, p.212)

Lacan (1957-58/1999) indica que ter o título de posse “não quer dizer que o menino vá tomar posse de todos os seus poderes sexuais e exercê-los” (p.201). Sabemos que após o declínio do Édipo, há o período de latência, no qual ocorre o adormecimento das funções sexuais, mas fica ao menino resguardada a sua potência, que poderá ser despertada na puberdade.

O processo edípico, dessa forma, interdita uma parte do gozo ao mesmo tempo em que permite outra por meio da significação fálica. É permitido o gozo fálico cifrado pela castração, e é na puberdade que o sujeito poderá servir-se deste gozo, posicionando-se no campo da sexuação. Portanto, o que Lacan (1957-58/1999) nomeia como título de posse é uma autorização que dá ao adolescente o direito de servir-se da significação fálica quando for convocado para isso. No menino, temos a saída do Édipo aí, com sua identificação ao pai como ideal do eu.

Já no caso das meninas, o desfecho é outro, diz Lacan (1957-58/2009):

Ela não tem que fazer essa identificação nem guardar esse título de direito à posse da virilidade. Ela, a mulher, sabe onde ele está. Sabe onde deve ir buscá-lo, que é do lado do pai, e vai em direção àquele que o tem. Isso também indica por que uma feminilidade, uma feminilidade verdadeira, tem sempre um toque de uma dimensão de álibi. Nas verdadeiras mulheres, tem sempre algo de extraviado. (p.202)

O que Lacan indica, aqui, é que as meninas não precisam ter o título de virilidade, pois elas podem acessar o falo dirigindo-se a quem o tem. O trabalho psíquico que se exige das meninas é de estabelecer essa posição de álibi, que marca sua saída edípica.