KAPITTEL 8: DRØFTING
8.8 V ITSKAPLEGE EVALUERINGSREGIME OG REPRODUKSJON AV MAKT
O professor Gilberto Pereira da Silva atua na rede privada confessional. Afirmou que, na Graduação, não teve contato com a História da África, nem na Pós-Graduação lato sensu em Filosofia. No Mestrado em História e na experiência de dois anos como professor substituto no Curso de História, em que participou de vários encontros: reuniões de professores, palestras, e que em nenhum momento, se envolveu com o tema. Relata que o que sabe sobre o tema está no campo do senso comum, ampliado com a leitura de revistas na área de educação, jornais e filmes temáticos. Conta também com a curiosidade como historiador, observador dessas particularidades, da questão da cultura. Às vezes, problematiza estas questões. “O conhecimento que eu tenho é o que parte da minha ansiedade, do meu desejo de conhecer um pouco. Não que seja conduzido na forma de exigência, da área pedagógica, em termos de currículo. É claro que existe uma exigência pessoal”.
O professor atuava no ensino fundamental, no oitavo e nono ano, e também no ensino médio. O planejamento das aulas, assim como os livros didáticos usados são aqueles publicados nacionalmente, pela rede de ensino que administra a escola. A apostila utilizada com alunos, de autoria de Lucília Siqueira (2007), que tivemos acesso, por empréstimo do professor, não trata da temática História da África. O negro aparece apenas no contexto da escravidão, com ilustrações de pintores consagrados, como Rugendas, do século XIX68, apresentando cenas de trabalho escravo, à página 45. Também do pintor Antônio Parreiras, de 1923, com cenas do julgamento de Felipe dos Santos, à página 58.
Em um capítulo, aparece uma fotografia referindo-se aos negros em aspectos positivos, à página 35, no capítulo 4, que trata da Colonização da América do Norte. Já nas atividades propostas, no item “Amplie seus conhecimentos”, é publicada uma fotografia de uma família americana comemorando o “Dia de Ação de Graças”.
Na fotografia, está representada uma mesa farta e bonita, uma família negra com sete pessoas, de diferentes idades, sorrindo, mulheres, homens e crianças festejando a data. A questão avaliativa proposta na atividade é assim apresentada, depois do enunciado:
68 Johann Moritz Rugendas (1802 - 1858) Pintor e desenhista germânico nascido em Augsburg, Alemanha, que
deixou imensa obra que se constituiu em um dos mais importantes documentos sobre o Brasil, durante sua estada no país (1821-1835) e escreveu o livro Viagem pitoresca ao Brasil, publicada no Brasil (1835). De uma família de artistas, fez seus primeiros estudos com o pai e depois aperfeiçoou-se na Academia de Belas-Artes de Munique. Disponível em: <http://www.sampa.art.br/biografias/johannmoritz>. Acesso em 03 set. 2011.
Os peregrinos que chegaram no navio Mayflower em 1620 sofreram drasticamente com o primeiro inverno que passaram na América, quando quase a metade deles morreu. A tragédia só não foi total porque os peregrinos receberam ajuda dos indígenas da tribo Whampanoag, especialmente de um deles, chamado Squanto [...]. (SIQUEIRA, 2007, P.35)
Depois de informar no texto a origem do dia de Ação de Graças e seu significado, o exercício solicita aos alunos que respondam, de acordo com o texto e com a fotografia, se as alternativas propostas são falsas ou verdadeiras. Todas as afirmativas se referem ao tema dia de Ação de Graças, sua história e seu significado, a imagem da família utilizada como exemplo é de uma família americana, mas não foi informada nem no enunciado, nem nas questões propostas. O texto do capítulo se refere à escravidão no processo de colonização inglesa dos Estados Unidos da América e não faz referências específicas à situação dos negros naquele país. O uso da fotografia parece cumprir, de forma superficial, as orientações para o ensino de História, mas de maneira distante das diretrizes apontadas na legislação e na importância da contribuição africana na constituição dos países americanos.
O professor afirmou que abordou o tema descolonização da África no nono ano, utilizando-se de estudo de caso. Para isso, escolheu três países africanos, Angola, Moçambique e Argélia para o aprofundamento. Faz crítica à forma como o estudo do tema privilegia a relação da Europa com a África.
Normalmente, não é um estudo da África, mas é olhá-la como consequência de crise europeia. É o inverso de olhar a África de dentro. Na realidade, a gente consegue fazer isso, suscitar algumas críticas, reflexão, é isso que o professor faz. Por exemplo, quando discutimos aquela questão de Conselho de Bandung69, quando buscam reforçar a nacionalidade, e discutem a coisa
do nacionalismo africano, o quê o motiva. Como foi o processo histórico de dominação europeia na África, quais são as consequências disso, a questão da culturalização, da resistência, ou aderir à cultura que vem de fora, isso fica visível no processo de colonização porque você tem dentro da África a resistência, mas também tem a não-resistência (SILVA, 2010).
69 Conselho de Bandung. Em 1955, os principais Chefes de Estado dos países de Ásia e de África que
reconquistaram a sua independência política, reuniram-se pela primeira vez em Bandung. Os líderes asiáticos e africanos reunidos em Bandung estavam longe de se identificar uns com os outros. As correntes políticas e ideológicas que representavam, os diferentes conceitos sobre o futuro da sociedade a construir ou a reconstruir e as suas relações com o Ocidente, eram muitos temas da diferença. No seu programa mínimo comum, constava o objetivo da descolonização política da Ásia e de África. Em absoluto, todos entendiam que a recuperação da independência política era apenas um meio, sendo o fim a conquista da libertação econômica, social e cultural. Havia a opinião maioritária dos que imaginavam o "desenvolvimento" possível na "interdependência" no seio da economia mundial, e outra, dos líderes comunistas, que defendiam que sair do campo capitalista levaria a reconstruir – com a URSS, ou à sombra dela – um campo socialista mundial. (SAMIR, Emir em entrevista para Rémy Herrera). Disponível em: <http://www.mra.org.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=177>. Acesso em: 02 set. 2011.
Segundo ele, a temática é pouco explorada no ensino fundamental e, praticamente, não é estudada no ensino médio. Como o professor atua nos dois níveis, afirmou que no 3º. ano, do ensino médio, os professores são “reféns” da proposta curricular do vestibular. Mesmo assim, procura refletir sobre aspectos da cultura, da resistência negra. Cita como exemplos a utilização de filmes para a discussão do apartheid, das questões econômicas, da resistência ao imperialismo e dos problemas deixados pela dominação e de séculos de exploração. O papel de Nelson Mandela, segundo ele, também é relevante para a compreensão da mentalidade africana.
O professor investigado considera os filmes fontes pertinentes para o estudo da temática, assim como a internet uma aliada, principalmente no ensino fundamental, pois os alunos têm esse meio como prática cotidiana. Além de ter recursos técnicos que podem ser utilizados no ensino de História, como as animações elaboradas pelos alunos, “Power point” para apresentação de trabalhos. O banco de dados da internet é imenso e deve ser utilizado pelos professores. Além de textos escritos, as imagens disponíveis favorecem a curiosidade e despertam o interesse dos alunos. Também lá estão acessíveis mapas históricos e geográficos, documentários, objetos e obras de arte dos principais museus do mundo.
Considero os livros didáticos muito pobres com relação a essa discussão. E o olhar da África a partir de uma expansão europeia, não vindo de dentro da África. Acho que a pesquisa na internet ajuda a mudar o foco. Agora trabalhamos com apostila, mas quando trabalhávamos com livro o enfoque era uma análise muito economicista da África dentro da expansão capitalista, a questão da subjetividade, das mentalidades, isso não aparecia. A gente, às vezes, conseguia provocar uma questão nesse sentido, mas a partir do professor e pesquisando na internet, mas os livros didáticos não ofereciam essa possibilidade (SILVA, 2010).
Para suprir as insuficiências do material didático, seja na forma de livro ou de apostila, o colaborador sugere, inicialmente, que o professor sinta essa necessidade, o que é de fundamental importância, pois sem o interesse do professor não vai haver ensino de História da África. O ensino deste tema deve despertar a necessidade de entender o Brasil a partir de suas matrizes principais, sendo a África uma delas, mas pouco compreendida em sua importância. Defende a busca de formação continuada, de encontros, de discussão entre educadores, a escola, a comunidade para uma reflexão sobre a Lei e também sobre a necessidade deste estudo. Lança uma questão oportuna para esta pesquisa: o papel da família na discussão.
Seria bacana se a própria comunidade cobrasse isso, mas será que isso é vontade da família, ela vê relevância nisso? Se ela percebesse que esse estudo enriqueceria seu filho, o processo aconteceria com muito mais rapidez. Se aparecer no vestibular com uma problematização necessária também. Não dá para pensar na formação do aluno sem considerar todo o paradigma, o professor, a escola, a sociedade civil, as instituições, senão o professor fica muito cobrado. Perguntam “o professor está preparado?” Eu pergunto “a sociedade quer isso?” Se sair na rua perguntando às famílias se acha importante estudar sobre a África, ou é mais importante o inglês? O que vai cair no vestibular? Então, temos que pensar o que a sociedade quer. A escola é reflexo disto. Acho que por esse motivo o assunto está tão pouco explorado (SILVA, 2011).
A importância da família é destacada pelo professor Gilberto Silva que revela sua preocupação como o conteúdo se dá em relação aos que são solicitados no vestibular, demonstrando que valorizam o que possibilita aos seus filhos o acesso à universidade e a empregos melhores. A busca do “conhecimento poderoso” (YOUNG, 2007) é percebida pelo professor na perspectiva dos pais. O seu olhar, a partir do ponto de vista de quem atua em escola privada, onde a educação dos filhos é um alto investimento do qual os pais esperam retorno na forma de acesso dos filhos às profissões socialmente valorizadas. O problema do racismo, das dificuldades enfrentadas pela população afrodescendente não são fatores determinantes enquanto não se transformarem em conteúdo solicitado nas avaliações de acesso às vagas nas universidades públicas.
Talvez vão pensar melhor em um estado em que há mais afrodescendentes, como a Bahia, lá isso tem muito mais ênfase que em Santa Catarina. Tem a ver com a realidade cultural, social, étnica. Lanço a questão para você “o que a sociedade quer?” Porque implantar uma lei sem que ela tenha ressonância da sociedade. É onde ela empaca. A mudança deveria ser coletiva. Existem os movimentos sociais. E eles conseguem visibilidade no debate e algumas conquistas. Mas será que os representantes desse grupo são co-autores desse desejo (SILVA, 2010).
O professor argumenta sobre a relevância do tema, levando em conta as diferenças existentes nos estados brasileiros, se seria justificado mais em alguns deles. Questiona se a lei aprovada é uma conquista da sociedade, dos movimentos sociais. O lugar de onde o professor fala, atua, sua vida social, religiosa, cultural ficam evidentes na forma como lida com a temática, assim como seus alunos e os pais se envolvem com ela. A ausência de negros na escola, tanto como de professores como alunos, demostra como a discussão é tratada na escola investigada. Ressalvamos que a relevância do tema ficou mais nítida onde as contradições se revelam, e onde o embate e a necessidade de superação dos problemas se
tornam necessários. Questionamos: a realidade observada nesta escola é representativa de outras escolas na mesma condição: privada e confessional?
Um exemplo de fontes utilizadas pelo professor envolve a relação família e escola e demonstra que existem diferentes modos de despertar o interesse dos alunos.
Por exemplo, tivemos um pai de um aluno da Escola que esteve no Congo. Ele era missionário e trouxe algumas moedas, porque faço coleção de moeda. Então, comecei a mostrar aos alunos as moedas que eu tenho de algumas nações africanas. Eles ficaram curiosos por causa dos desenhos diferentes, e em cima disso surgiu uma pesquisa, nós elegemos alguns países para que eles pesquisassem e tentassem trazer, de forma livre, o máximo de informação possível. Aí a questão da moeda, o idioma, o esporte predominante, linguagem, curiosidades. Até, partindo dessa entrevista, pensei em repetir isso mais vezes, porque foi gostoso, veio deles, e você vê, no olhar deles a motivação, eles sentem vontade de apresentar. Primeiro, eles têm recursos técnicos, usaram “Power Point”. Então, alguns usaram 3d, fizeram animações, então, fica bacana. Quando você lança essa questão, inclusive em ano de copa do mundo, nós como provocadores, com pouco recurso teórico, é um caminho pelo menos para provocar uma leitura. É um desafio, porque falar de Europa e América parece algo bem mais próximo deles. África ainda é uma visão de atraso, como se faltasse civilidade (SILVA, 2010).
No exemplo trabalhado, o uso da tecnologia foi mais destacado do que o conhecimento produzido. Ainda assim, o professor ressaltou a atividade, ponderando que tema ainda é estranho ao cotidiano escolar. A ênfase dada aos recursos didáticos aponta que superaram a do conteúdo estudado. Mas, mesmo assim, consideramos uma experiência válida, pois o professor teve a oportunidade de despertar o interesse pela história da África.