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A constituição dos programas curriculares é tida aqui como um mecanismo importante de reprodução dos saberes uma vez que a sua composição é, à partida, um fator de estruturação da aprendizagem, mas parte da sua dimensão de reprodução é a de conservar ou alterar uma ordem pré-existente relativamente a esses saberes. Neste sentido, importa não considerar os programas curriculares como um dado adquirido, mas como o resultado de um processo de decisão no qual se jogam possíveis múltiplas influências na construção de uma determinada configuração de disciplinas. Assim, procurou-se identificar os principais padrões de referência e influências sobre a constituição e reformulação dos programas curriculares a partir das entrevistas aos cinco coordenadores de curso, agrupados em três tipos que se descrevem de seguida.

3.3.3.1. Programas curriculares de outras instituições de ensino como referência

Um padrão de referência que foi referido por três dos coordenadores de curso entrevistados diz respeito aos programas curriculares dos cursos de finanças de outras instituições de ensino, a nível internacional - "fizemos um apanhado do que é que havia em termos internacionais (...) a gente ia sempre ver o que é que as outras faculdade tinham em unidades curriculares idênticas" (EC2) - em particular os de universidades consideradas como de maior qualidade92 referidas como "as boas escolas de finanças mundiais" (EC4) Os

professores responsáveis podem ainda trazer influências de outras escolas em que são docentes, situação que é referida por outro entrevistado, a par de conversas informais entre professores de diferentes cursos. Neste último caso, trata-se de um curso que, de acordo com o coordenador, procura afirmar-se pela sua vertente mais dirigida à investigação do que ao mercado empresarial, o que justifica que apenas seja referida esta dimensão de influência ao contrário dos outros quatro casos. Pelo contrário, a orientação para o mercado de trabalho empresarial, sobretudo o sector bancário, que os documentos de apresentação de quase todos os cursos analisados sublinham, ainda que em grau variável, é um dos fatores mais importantes considerados pelos restantes coordenadores.

92 Ver a secção sobre a relação entre universidades e outras instituições em que se refere o papel dos

3.3.3.2. Orientação para o mercado de trabalho

O objetivo de ajustar os conteúdos de formação aos critérios interpretados como facilitadores de uma maior empregabilidade dos alunos já foi mencionado neste capítulo a propósito da proporção entre a carga letiva relativa a "Mercados financeiros" ou "Finanças empresariais". As necessidades de formação estimadas por empresários, associações empresariais e quadros de empresas são transmitidas às instituições universitárias através de dois meios que podem ser aqui também considerados enquanto elementos caracterizadores da relação entre estas e as empresas. Um destes meios, como refere um dos entrevistados é a consulta direta:

O decisivo foi aquilo que era as necessidades de formação do sistema bancário. As cadeiras foram escolhidas com base naquilo que era as necessidades de um profissional que fosse para a área financeira da banca ou das grandes empresas, mas normalmente da banca. Essa informação foi obtida junto das pessoas que trabalhavam nos mercados financeiros. (EC2).

A influência pode também ser apenas relativa a aspetos mais pontuais e, em vez de consulta direta, estar formalmente organizada a participação de quadros, empresários ou representantes associativos em órgãos próprios das universidades como os conselhos consultivos:

Temos vários representantes dos intermediários financeiros que tipicamente nos dão parecer sobre os conteúdos não programáticos, mas conteúdos curriculares dos cursos e chamam a atenção para determinadas particularidades que podem ser relevantes, alguma tendência ou alguma linha. (EC4).

Veja-se também este excerto de um documento de apresentação de um dos Mestrados em Finanças em que essa participação no conselho consultivo é destacada como sendo uma referência forte para o programa curricular:

In order to maintain close ties with experts in the Finance industry, the Program Directors rely on the active collaboration of the Advisory Board, consisting mostly of CEOs from top investment banks and CEOs and CFOs of large corporations in Portugal. The Board advises the Program Directors on curricula and global strategic issues related to the Program. Board members therefore play a decisive role in bridging the gap between academia and business, and in keeping the program responsive to the most current needs of the market. (UCP, 2016)

Uma terceira possibilidade é ainda a integração no próprio corpo docente do curso, quer numa unidade curricular, quer mais pontualmente em seminários e workshops:

Cada disciplina havia um ou dois convidados da banca que faziam uma espécie de seminário por cada disciplina e essas pessoas vinham todas da área financeira da banca, normalmente os diretores de investimentos financeiros, os diretores da área financeira muitos deles passaram por lá. (EC2).

Estes docentes são considerados como uma vantagem não só por trazerem exemplos práticos dos problemas que se colocam na prática profissional mas porque, tal como também é

realçado na penúltima citação, permitem aos cursos afirmarem-se como estando em consonância com os critérios de recrutamento do mundo empresarial: "não só trazem essa componente de fora como vão quase que sendo um bom guia do que é que também na profissão se está a pedir e que se usa para critério de avaliação de entrada de novos profissionais" (EC4). A participação das empresas pode ter um carácter ainda mais formalizado como a constituição de parcerias entre universidades e empresas, normalmente do sector bancário ou das maiores empresas portuguesas não financeiras, que estiveram não só na génese de alguns cursos como até de algumas escolas e institutos como é o caso do INDEG-ISCTE ou da Porto Business School da Universidade do Porto.

3.3.3.3. Associações e acreditações ocupacionais e institucionais

Nas áreas da economia, gestão de empresas e finanças existem várias organizações que criam listas de cursos a nível mundial ordenadas por qualidade de ensino. As universidades incluídas nestas listas exibem frequentemente o logotipo nos documentos de apresentação ou divulgação dos cursos, como símbolo da qualidade do ensino ou de reconhecimento da sua validade a nível internacional. Dos 20 cursos em análise, 10 têm um selo de qualidade deste tipo. O grau de envolvimento das universidades com estas entidades varia desde a filiação, a parceria ou apenas um processo de acreditação, mas implica sempre algum grau de conformidade dos programas curriculares a determinados critérios, mesmo no caso em que a acreditação é atribuída às instituições e não apenas a cursos específicos. Na medida em que são entendidas como uma vantagem competitiva pelas universidades, esses critérios constituem padrões de referência importantes para a criação ou reformulação dos programas curriculares. A Association to Advance Collegiate Schools of Business (AACSB), uma associação de escolas de negócios norte-americana, reconhece três instituições aqui consideradas, a Universidade Nova de Lisboa, a Universidade Católica Portuguesa de Lisboa e o ISCTE - IUL. A fundação European Foundation for Management Development (EFMD) atribui várias acreditações sendo a acreditação EQUIS (a nível da instituição) referida nos mesmos dois cursos, e a acreditação EPAS (a nível de cada programa de formação) referida na pós-graduação em Análise Financeira da Universidade do Porto. Estes mesmos três cursos têm ainda a acreditação da Association of MBA’s (AMBA). Quando uma instituição obtém as três acreditações (AACSB, EQUIS e AMBA), casos da UCP e da UNL, designa-se como tendo um triple crown, o que é sublinhado como um símbolo de prestígio internacional. Outro selo que é mencionado nos documentos de apresentação dos cursos é a certificação de qualidade do Financial Times atribuída aos cursos já mencionados da UCP e da UP.

Especialmente relevante é a conformidade dos programas curriculares aos critérios definidos por organizações de referência na análise financeira a fim de facilitarem em algum grau a obtenção de uma certificação de analista financeiro, caso do Chartered Financial Analyst Institute (CFAI) e da European Federations of Financial Analysts Societies (EFFAS) e a sua afiliada portuguesa Associação Portuguesa de Analistas Financeiros (APAF). Embora a relação entre as universidades e as associações profissionais seja retomada no capítulo IV, descrevem- se aqui alguns aspetos que se enquadram na sequência deste tema.

O CFAI contempla duas modalidades de reconhecimento, o CFA Partner, que implica uma maior proximidade e é atribuído exclusivamente ao Mestrado em Finanças da UCP, curso que, além de incluir vastamente os conteúdos curriculares necessários à obtenção da certificação, está organizado em semestres que terminam a tempo de permitir a participação dos alunos nos exames CFA, e o CFA University Recognition Program que é atribuído aos cursos que incluem pelo menos 70% dos conteúdos do programa da certificação CFA, assim como o seu código de ética e padrões de conduta no seu programa curricular, situação que corresponde aos Mestrados em Finanças do ISCTE, da Universidade do Porto e do ISEG. Note- se que aqui estão apenas cursos de finanças e nenhum dos cursos de análise financeira (mestrados e pós-graduações) é reconhecido pelo CFA Institute, já que, apesar de se tratar de uma certificação de analista financeiro, o CFA afirma-se como uma certificação de competências em finanças reconhecida para várias profissões do sector financeiro. Já os cursos que são reconhecidos pela APAF e que permitem a obtenção direta da certificação Certified European Financial Analyst (CEFA), emitida pela EFFAS, são pós-graduações em análise financeira, o da Porto Business School e os dois do IDEFE-ISEG, um em Lisboa e outro no Funchal. Um outro caso de relação preferencial entre formação universitária e associação de analistas é o do Mestrado em Finanças da Universidade Portucalense Infante D. Henrique que tem como parceria a Associação de Investidores e Analistas Técnicos (ATM) e uma empresa de corretagem. Este mestrado, contudo, não facilita o acesso a nenhuma certificação e, apesar da relação preferencial com a ATM, não oferece nenhum destaque particular à análise técnica no seu programa curricular.

Uma outra situação é a do Mestrado em Investimentos e Mercados Financeiros do INDEG-ISCTE que, apesar de não conferir certificação CEFA, é reconhecido pela CMVM

como válido para inscrição como analista financeiro e consultor de investimento93, tem

acreditação de outra associação profissional, a Global Association of Risk Professionals (GARP) e permite aos 20 melhores alunos a inscrição direta na primeira parte do exame Financial Risk Manager (FRM) dessa associação.

Em três dos cinco cursos, os coordenadores entrevistados salientam o peso o papel das certificações de analista financeiro na configuração dos programas curriculares e no caso das pós-graduações em análise financeira do IDEFE e da Porto Business School, referem que a criação dos cursos envolveu diretamente a APAF, tendo como um dos objetivos formar analistas financeiros em conformidade com os padrões de certificação CEFA, atribuídos pela EFFAS: "Nessa altura isto fez-se à luz do que era a EFFAS porque isto depois foi associado à associação europeia de analistas, desde o início, e portanto o currículo foi logo feito de acordo com o modelo deles" (EC4).

Deve realçar-se a importância das certificações sobre os conteúdos curriculares. Apesar de, como se viu, a maioria dos cursos não ter este tipo de relação com instituições de certificação, isso não significa que, mesmo para esses, as certificações não constituam uma referência importante. Um dos entrevistados, afirma por exemplo que, não obstante ainda não ter sido possível, o reconhecimento do curso é um objetivo a atingir. O valor simbólico do reconhecimento pelas instituições de certificação associadas à análise financeira não se restringe a este domínio específico. Conforme se referiu, mesmo os cursos que têm um leque alargado de saídas profissionais dentro do domínio financeiro, sublinham essas credenciais nos seus documentos de apresentação, o que mostra que, além da vantagem que resulta da autorização da CMVM para o exercício da atividade de análise financeira (que será apenas diretamente relevante para um número pequeno de alunos), essas credenciais são consideradas como recursos importantes na competição interuniversitária. Um outro aspeto a salientar é que esse valor simbólico, especialmente do CFA, é reforçado pela sua ligação ao mercado de trabalho. Ou seja, para além de providenciar um sinal de qualidade do ensino, é preciso

93. Trata-se de um caso excecional em que a CMVM reconhece o curso diretamente sem a mediação de

uma certificação profissional. De acordo com a brochura do curso: "Ao abrigo da alínea c) do n.o 2 do art.o 10.o do Regulamento da CMVM n.o 3/2010, os alunos do mestrado executivo em Mercados e Ativos Financeiros interessados em obter a credenciação como "Analistas Financeiros e Consultores para Investimento" pela CMVM terão apenas de frequentar (com aprovação) uma unidade curricular adicional de "Contabilidade dos Produtos Financeiros e dos Derivados."

considerar, conforme um coordenador de curso afirma, o "prestígio que a associação ao CFA oferece ao programa enquanto reputação no mercado de trabalho” (EC3).

Uma das vertentes que é mais visível pela análise dos programas curriculares,sem prejuízo de existirem muitas outras que não são captáveis por uma análise deste tipo, é a influência das certificações nos conteúdos relacionados com ética e deontologia. Nos cursos associados as estas certificações o padrão a seguir é o da associação de referência, ou seja, o código deontológico da APAF e o código de ética e padrões de conduta do CFA Institute, em função da associação respetiva dos cursos94. Isto significa que a influência sobre os conteúdos

curriculares não é só importante do ponto de vista da reprodução dos saberes científicos e técnicos, mas dos aspetos que, do ponto de vista da sociologia das profissões, constituem – seja enquanto sistema de valores, ideologia, ou mecanismo de controle – o que se designa por profissionalismo (Evetts, 2003).