Vivemos um tempo fugidio, em que diferentes visões de mundo se contrapõem e fomentam conflitos diversos, ou seja, um tempo em que tudo é possível: repetições, estagnações, acelerações. Nessa forma de viver o tempo, não há espaço nem perspectiva que aponte para um fim. Vive-se o ―eterno presente‖.
Nesse tempo de ―agoras‖, até mesmo o meio ambiente, que, num primeiro olhar, se mostra como um bem comum, vem se transformando, cada vez mais, em objeto de disputas e conflitos. Nesta perspectiva, a presente dissertação se propôs discutir a transformação de parte de um badalado balneário no sul de Santa Catarina em Resex.
A polêmica em torno da reserva de Garopaba (e Imbituba), mote inicial desta pesquisa, surpreendeu pelo leque de outras polêmicas em torno da apropriação e usos da natureza, como também em torno da relação estabelecida entre moradores nativos e estrangeiros na área em questão. Foi durante a realização das entrevistas que percebi que essas outras situações exigiam um olhar mais atento.
A questão da Resex não deixou de ser importante, mas ganharam espaço outros conflitos; a maioria deles, colocada em tela após a intensificação do fluxo turístico para a região; outros, de ordem interna da organização social local. A transformação de um lugar qualquer em lugar turístico não se dá sem tensões; ao contrário, jogos de interesses envolvem desde o mais simples morador ao mais perspicaz dos empresários locais e/ou estrangeiros.
Entendo que transformar um agora lugar turístico em reserva extrativista não é a única solução para poupar o meio ambiente das agressões produzidas pelos novos hábitos de consumo impostos pelo modelo econômico predominante – o capitalismo. Afinal, não é mais possível juntar todos os pedacinhos de um lugar, que, como uma peça de cristal, se partiu em partes pequenas, incapazes de retomar o lugar que ocupavam antes do boom que a esfacelou, ou seja, antes do turismo.
Isto, porém, não significa afirmar que não se possa engendrar um novo modelo de sociedade que abrigue toda a diversidade existente no lugar. Isso não só é possível, como já se tornou objeto de estudo. Esta, na verdade, é uma situação própria deste Tempo Presente, em que o novo não chega a varrer o velho, mas lhe dá uma nova roupagem, uma roupagem composta pelo ontem e pelo hoje. Esta situação atípica é o que Canclini (2008) chama de hibridismo.
Pelos depoimentos dos diversos sujeitos envolvidos com a celeuma da Resex de Garopaba e Imbituba, coloquei em cena as diferentes intenções, ações e motivações dos sujeitos sociais que compõem essa trama. No entanto, a tessitura ainda continua em aberto e diferentes configurações sociais podem ser produzidas no desenrolar do processo. Pode-se dizer que por ora a questão da Resex está no ―limbo‖, aguardando em algum arquivo da Presidência da República para ser decretada ou vetada.
Ser favorável ou contrário à reserva é bastante relativo, dependendo do lugar social ocupado pelo sujeito. Se há pescadores artesanais e ambientalistas que acreditam na possibilidade de sustentabilidade econômica através da produção do pescado é porque fazem uma leitura das necessidades individuais de bens de consumo pautadas no que se pode chamar de ―economia da natureza‖, o que, numa visão holística, seria pautado na ideia de que ser é mais importante que ter.
Esta harmonia entre homem e natureza se baseia na exploração parcimoniosa dos recursos naturais, de forma a não comprometer o provimento das gerações futuras. Caracteriza-se, a meu ver, pela utopia de um mundo mais humano e menos desigual, presente no pensamento de muitos cidadãos contemporâneos. Não condeno nem engrosso o coro de preservacionistas; respeito-os como opção plausível de viver.
Contudo, acredito que o envolvimento de pessoas comuns na luta pela implantação da reserva ambiental tenha acontecido, possivelmente, após um trabalho cautelosamente planejado por instituições interessadas em disseminar o paradigma preservacionista e em cooptar lideranças comunitárias a fim de envolvê-las no movimento de preservação.
A própria Aspeci se organizou após um intenso trabalho do Fórum da Agenda 21 junto aos pescadores e lideranças comunitárias de Ibiraquera. A opção por lutar pela transformação desse lugar em Resex e defendê-la não se deu de maneira despretensiosa, ou melhor, não brotou do seio da comunidade como os grupos favoráveis costumam dar a entender. Os pescadores nativos que apóiam a Resex têm, evidentemente, toda uma história de envolvimento com o patrimônio natural que os habilita e os motiva a defender a causa. Esta, porém, não é a questão. O fato é que sem o envolvimento de agentes externos seria inviável o encaminhamento de tal proposta.
Se a causa dos pescadores da Aspeci não se mostra completamente original e pertinente, as motivações dos que decidiram pelo RESEX NÃO também não é isenta, nem tampouco despretensiosa. Um grupo composto por políticos, empresários, corretores de imóveis e construtores não age de maneira desinteressada. Este é, no meu modo de ver, um
grupo que visa essencialmente ao lucro, não importando que isso custe o fim de um banhado e da diversidade de vida que abriga ou a contaminação de uma lagoa.
Para esses, o importante é vender a imagem de um paraíso natural singular, porém repleto de singularidades do mundo globalizado. Assim, a imagem de Garopaba e região é oferecida aos visitantes como um lugar prefeito, onde natureza, requinte, comodidade, conforto, lazer e segurança formam um lugar à altura de qualquer realeza.
Transformar o ―paraíso‖ em reserva soou, de fato, como perigo a ser enfrentado com todas as armas. Afinal, o turista quer vir para Garopaba e Ibiraquera para desfrutar das belezas naturais e provar o sabor do deslocamento da cidade para a vila sossegada. Dito de outra forma: para o turista, equivale a trocar a segurança e o conforto de um Shopping Center, cercado de vidraças, por um grande espaço de lazer e consumo cercado por praias, lagoas, morros e dunas. Evitar que a preservação do lugar vença o consumo do lugar é a preocupação e o mote que uniu (e une) os sujeitos contrários à Resex.
A intensificação do turismo veio acompanhada de tensões. Na verdade, os nativos, a princípio curiosos e receptivos, passaram a perceber que os turistas os viam como ingênuos e simplórios. Esta percepção ficou ainda mais evidente quando os estrangeiros, aqui também chamados de outsiders, se transformaram em um grupo coeso e financeiramente superior. Na condição de empregados, os nativos, embora estabelecidos, foram estigmatizados pelos estrangeiros como culturalmente inferiores.
Embora o hibridismo seja a palavra que melhor defina a organização social que passou a imperar após a consolidação do turismo, é importante sublinhar que a cultura local ainda resiste. Esta resistência se dá principalmente nas redes de socialização, pois é na troca de informações entre vizinhos e parentes, ou nas chamadas ―fofocas‖, que os nativos identificam seus pares e depreciam supostas atitudes estrangeiras, ou seja, criam um código próprio que lhes permite manter vivas suas identificações.