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V ANNFØRING OG AVRENNING

In document Flommen i Notodden 24. juli 2011 (sider 33-37)

Coitada da prostituta/ que da vida em plena lucta/ vive a carpir triste pena... Vive a soffrer dissabores/ em desgraçados amores,/ ora triste, ora serena;/ vive a rolar Marne/ dos mil ímpetos da carne/ - como a pobre Magdalena...

Oh rosa, rosa fanada,/ flor do crime, flor de Abril/ quem te fez tão desgraçada,/ oh rosa despetalada/ foi a modinha maguada/ da serenata gentil. [...]213

Além dos boêmios seresteiros, outros grupos poderiam ser visualizados transitando em diversos territórios da cidade em busca de diversão. Alguns, em vez de optarem pelas serenatas, preferiam ocupar os botequins e bares dispersos pelos bairros e dedicar-se ao jogo de bilhar, normalmente regado a cachaça ou cerveja paraense. Havia também aqueles que preferiam ocupar espaços mais elegantes, como o terraço do Grande Hotel.214

212 Segundo Salles, a partir da década de 1940, em decorrência da morte da mãe e, posteriormente, da esposa, Tó Teixeira reduziu as suas incursões noturnas, o que lhe permitiu dedicar-se a ensinar gerações de paraenses a tocar o violão. SALLES, Vicente. “Tó Teixeira minha gente”. A Província do Pará. 3º cad. Belém, 24/10/1980. p.5.

213 Rosa fanada. Modinhas. Belém: Tipografia da Guajarina, n 2 s/d.p.7. Paródia de autoria de Ernani Vieira. 214 Na Praça da República além do Grande Hotel da Paz, localizavam-se o Teatro da Paz, o Cine Olímpia e o Café da Paz, territórios luxuosos e requintados frequentados por aqueles que podiam pagar.

Considerado um território de lazer, o terraço do Grande Hotel, com as mesas postas sobre a calçada em frente ao vultoso estabelecimento, até às onze horas da noite era o local onde a “fina” e “elegante” elite belenense tomava sorvete de frutas regionais, guaraná ou chopp. Nas mesas, risadas, conversas alegres e flertes ocorriam enquanto se aguardava o início da sessão cinematográfica no Cine Olímpia ou o espetáculo que se iniciaria no Teatro da Paz. Os garçons, bastante ocupados, passavam por entre as mesas com as bandejas cheias e serviam apressadamente. A abertura dos guichês do Olímpia esvaziava o terraço, que, a partir da onze horas, começava a ser ocupado por boêmios:

No terraço do Grande Hotel, de Belém, a noite, a vida é suave. [...]

Depois das onze: apenas uma ou outra mesa, sortida de boêmios, a caricaturarem o próximo. A iluminação dos cigarros. Veia cômica canalhesca. O desencanto dos medalhois venerandos rindo nos guizos das troças, Imaginação. Gargalhadas.

A gíria das gargalhadas.

Figura 9 - Grande Hotel da Paz. Localizado às proximidades da Praça da República; na calçada funcionava o terraço que congregava grupos boêmios.

A madrugada caiava de silencio o largo da Pólvora. Cresceu a roda com alguns revisores da “Folha” e do “Estado” e com os malandros do Palace Casino. Sortilégios sonolentos. As sátiras, errantes, já envesgavam pelos derredor. E ninguém tinha o topete de retirar-se...

- lá vem o dezembargador Dico-Dinamite. - São três horas. Pode acertar o relógio.

Um senhor malentrouxado, apezar de esguio, espertou todas as energias no semblante melancólico. Os sentidos em sentido. Uma das mãos engatilhada na volta de ouro do guarda-chuva. Passou pertinho do grupo e marcou intervalo na conversa, murmurando um cumprimento seco, rápido.

A narrativa do caso de adultério, recortada com minúcias fesceninas, do repertorio mefistofelicamente alegre dum dos nativagos, foi interrompida. A espirituosa malicia ficou reprimida na penitencia dum preconceito da espinha dorsal. Institivas flexois de cabeças, de bustos, e varias vozes responderam-lhe: - Boa noite, bom dia, dezembargador.

E o eco duns passos firmes doía no sossego da estrada de Nazaré.215

Após as onze horas da noite, apenas uma ou outra mesa continuava ocupada. Os boêmios, no terraço do Grande Hotel, entre conversas zombeteiras em que pessoas e acontecimentos cotidianos eram ridicularizados em gargalhadas sarcásticas a ecoarem no silêncio da madrugada, passavam a noite tentando fugir da rotina e da monotonia citadinas.

A frequência de boêmios aumentava no terraço com a chegada da madrugada. Em busca de notícias para compor as crônicas da cidade, à roda juntavam-se os jornalistas da Folha do Norte e do Estado do Pará. Os “malandros do Palace Casino” faziam crescer ainda mais a roda boêmia. As troças, sátiras e zombarias aumentavam, envolvendo todos e impedindo-os de abandonarem o grupo.

Às três horas da manhã, a conversa era momentaneamente interrompida com a passagem do desembargador Dico-Dinamite. O transeunte, secamente, cumprimentava os boêmios e seguia seu caminho pela Estrada de Nazaré. Os boêmios respeitosamente respondiam ao cumprimento. O desembargador, ao se distanciar do grupo, tornava-se

alvo de suas troças e zombarias. Assim os boêmios passavam as noites, ironizando, caricaturando e troçando dos acontecimentos, públicos e privados, e dos moradores da cidade.

Outros grupos boêmios preferiam frequentar ambientes e atividades noturnas não tão “inocentes” quanto as do grupo do Grande Hotel. No City Club alguns se concentravam mais no “crac-crac” da roleta que nos sons da Jazz-band.

O city club tem já as suas portas abertas, por onde saem os sons de um infernal “Jazz-bands”, ou o “crac-crac” da roleta rouquenha...

Vae começa a hora do vicio.

E a grande atracção do pano verde, onde se abysmam, como numa derrocada, centenas de mil-reis...216

O City Club se constituiu em um território boêmio em que seus frequentadores passavam a noite dedicando-se ao jogo de cartas, dançando e bebendo. Em crônica intitulada “Quando as estrellas sonham”, Armand Duval permitiu fisgar alguns traços desse mundo:

Depois que as estrellas florescem e a noite avelluda-se em trevas. Belém, a cidade dos jardins, desperta para a vida nocturna dos “cabarets”. Desperta e sorri. Cidade “coquette” toma do “rouge”, do “baton”, do “creme”, e pinta os lábios, ensombra as olheiras, colore as unhas. Derrama “Coty” sobre a pelle, veste-se ao derradeiro capricho da moda e aguarda a hora do club.

Belém é uma flor nocturna, de perfumes exóticos. Tem seus vícios e suas virtudes. Aperta entre os dentes uma boquinha de marfim e fuma as suas “cigarrettes” opiadas; empalma com fidalguia e elegância as fichas de âmbar e madrepérolas e atira- as no pano verde.217

216 MENEZES, Raimundo. Nas ribas do rio-mar. Rio de Janeiro: Edição do Annuario do Brasil, 1928. p.71. 217 DUVAL, Armand. “Quando as estrellas sonham”. Revista Belém Nova. Ano III. n.55. Belém, 27/03/1926. p.14.

Belém, a cidade jardim, tinha seus vícios e virtudes. À noite a urbe despertava para os vícios da vida moderna. A cidade aparece descrita com as características atribuídas ao que se considerava uma “mulher moderna”, uma mulher pública que esperava pacientemente o apagar das luzes diurnas para sair às ruas e ir ao City Club. Caprichosamente vestida, perfumada, unhas, lábios e faces pintadas, fumava sua “cigarrete” e jogava elegantemente. A noite era o lócus em que se buscava o prazer e a felicidade218:

[...] Belém cultua a bohemia disticta e adora a música, as excentricidades do jazz. E quem quizer penetrar fundo o seu coração, vá ao City Club, que é, talvez, o seu “boudoir” elegante, onde ella recebe os eleitos do Sonho. Os artistas, os homens que amam a vida no que ella possue de bello e maravilhoso.

O City Club é o “bungalow” doirado onde Belém da entrevistas aos seus amantes nocturnos. E em meio as danças estylisadas, ao tilintar das taças, ao ruído álacre do gargalhar do “champagne”, quando os risos se alteram e o “jazz” guincha um “fox” é que o homem que adora o sol nas estrellas, sente a felicidade entrar- lhe na alma.219

Elegância, requinte e sofisticação seriam marcas desse universo boêmio. O notívago divertia-se em ambiente fechado, tendo ao seu lado, como companhia, uma mulher, bebia champanhe, dançava, ouvia música e jogava roleta em local onde aparentemente se esbanjava felicidade e agregavam-se bebidas alcoólicas, jogo, música, dança e prostituição.220 “Vícios” da modernidade do início do século XX,

218 A noite apresentava-se como lócus do prazer e também espaço “da perdição, onde o público, cada vez mais voraz, estende seus tentáculos no domínio da intimidade. Percebem-se, por detrás de uma certa positividade do espaço da noite, as conotações negativas do perigo, indiferença, estranhamento, circulação, enquanto o privado representa o refúgio seguro, o domínio da natureza [...]”. ALVAREZ, A. Noite. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p.236.

219 DUVAL, Armand. “Quando as estrellas sonham”. Revista Belém Nova. Ano III. n.55. Belém, 27/03/1926. p.14.

220 Segundo Margareth Rago, o conceito da prostituição construído no século XIX a partir de referência médico- policial constituiu-se em fenômeno fundamentalmente urbano, inscrevendo-se numa “economia específica do desejo, característica de uma sociedade em que predominam as relações de troca, e em que todo um sistema de codificações morais, que valoriza a união sexual monogâmica, a família nuclear, a virgindade, a fidelidade feminina, destina um lugar específico às sexualidades insubmissas”. RAGO, Margareth. Os Prazeres da Noite: Prostituição e Códigos da Sexualidade Feminina em São Paulo (1890-1930). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p.23.

transformações pelas quais passava a sociedade e que desafiavam tanto o domínio masculino como os valores da família patriarcal.

Depois, sob as luzes, sahem os pares, os dansarinos, para a volúpia dos compassos rythimicos, em que dois corpos se enlaçam.

E vem Gloria Telles, gaiata e bregeira, cantar as cançonetas cômicas em que é perfeita: Ita Weste, a dos olhos que estão sempre a pedir madrigaes, canta uma copia de “cabaret” e baila, na graça florea de sua mocidade. Therezita Flores, salerosa e enfetiçante, nas suas phantasias a hespanhola, é bem uma evocação feliz, dos amores de Sevilha, dos “toreros” rutilando ao sol, no meio da praça á espera do bravio animal. E quando ella canta, todos os applausos são atirados aos seus pés, envoltos nas flores que ella recebe.

[...]

Belém nocturna! Belém de Sonho e Poesia! No City Club com o “jazz” do Oliveira da Paz, os hamorismos sadios dos Cantuarias, fazem com que nos esqueçamos do utilitarismo envolvente que nos acabrunha! E os bohemios, os felizes da vida, ao se reunirem neste cenáculo de prazeres que é o City, entre uma taça de “champagne” e um sorriso de mulher, louvam as noites de Salomão que lhes proporcionas e cantam teus olhos. Belém das flores mundanas e dos divinos prazeres.221

A jazz-band, que tocava músicas ritmadas, permitia à “mulher moderna” dançar entrelaçando-se ao corpo do parceiro. Glória Telles, Ita Weste, Therezita Flores, no palco, esbanjando sensualidade, cantavam e dançavam sob os aplausos e delírios dos admiradores. Despertavam desejos, paixões e fantasias que somente poderiam manifestar-se e realizar-se fora do lar, distante da família, que deveria ser preservada dos vícios que a vida moderna propiciava.

Os clubes e os cabarés seriam os territórios para as futilidades da vida moderna, para as práticas dos prazeres mundanos vividos, segundo o cronista, de forma regrada, disciplinada e sadia. Não tão regradas, disciplinadas e sadias quanto se desejava representar, já que os frequentadores do City Club poderiam perder somas

221 DUVAL, Armand. “Quando as estrellas sonham”. Revista Belém Nova. Ano III. n.55. Belém, 27/03/1926. p.14.

significativas no jogo de cartas e beber excessivamente, enquanto as mulheres precisavam maquiar as olheiras para disfarçar as noites sem dormir. A imagem da mulher descrita pelo cronista não se enquadrava no ideal de mulher cantada pelos boêmios seresteiros, tampouco no comportamento moral exigido das moças de “boa família”.

As diferentes e complexas formas de se viver a noite adquiriam dinâmicas específicas que exprimiam maneiras diversas de pensar, agir, falar, amar e consentir, mas também de transgredir, resistir e lutar.222 Esses mundos não se encontravam isolados, entrelaçavam-se, confrontavam-se, aproximavam-se e distanciavam-se, possibilitando trocas e circularidades.

Diferentemente dos boêmios seresteiros, que consideravam que o dinheiro não era fator fundamental à realização de uma “farra” noturna, para os frequentadores do City Club ele era necessário, pois possibilitava-lhes o acesso aos prazeres mundanos descritos pelo cronista.

No mundo boêmio ainda despontavam outros sujeitos, como aqueles que obtinham no universo noturno a sobrevivência cotidiana. Eram músicos, cantores, dançarinas, prostitutas, entre outros. A noite, habitualmente tida como lócus do não trabalho, constituía-se também em espaço no qual diversos sujeitos históricos trabalhavam, procurando conquistar a subsistência.

Assim, observa-se que alguns optavam por viver uma boemia considerada distinta, sofisticada e elegante, ao passo que outros escolhiam o que consideravam uma boemia simples e fraternal. Enquanto alguns se contentavam em passar a noite jogando bilhar e bebendo cachaça, outros preferiam o jogo de roleta regado a champanhe e acompanhado do som de uma jazz-band. Os diversos grupos boêmios estabeleciam regras, normas e códigos de conduta que levavam à identificação entre seus membros, aproximando-os, mas também afastando-os, diferenciando-os dos outros grupos que circulavam pela cidade.

Os diversos modos de viver a noite, diferentes e simultâneos, confrontavam-se à medida que cada grupo buscava estabelecer o que era válido e aceitável e o que deveria ser negado e combatido, mas todos buscavam legitimar sua forma de viver a noite. A boemia, que inicialmente poderia parecer homogênea, fechada e autônoma, delineava-se em sua multiplicidade de formas, com suas contradições e tensões.223

Os músicos seresteiros exprimiam, captavam, reproduziam, exploravam, enfim, fisgavam experiências e sentimentos vividos e sentidos socialmente. Essas experiências, que poderiam ser incorporadas, rejeitadas ou recusadas por outros sujeitos históricos, constituíam-se em formas específicas de pensar, sentir e agir em uma dada temporalidade.

Os modernistas, ao representarem o boêmio seresteiro como aquele que cantava o amor romântico, sofrido, magoado e saudoso, ao idealizarem a figura da mulher, cândida, pura e virgem, ao estabelecerem a noite, o violão e a música como os elementos de uma boemia fraternal, e o boêmio como aquele que amava e cantava o amor, acabaram por deixar marcas profundas na memória dos moradores da cidade de Belém, que relembram com saudade os momentos em que a urbe era invadida pelos sons cadenciados e melódicos entoados pelas ruas e praças da cidade.

Românticas e melosas, as modinhas cantadas pelos boêmios seresteiros eram apenas uma das facetas da música. Pela urbe, em diferentes territórios, diversos sons, ritmos e timbres podiam ser ouvidos, e é essa diversidade musical que se pretende delinear no capítulo seguinte.

223 MATOS, Maria Izilda Santos de. A cidade, a noite e o cronista - São Paulo e Adoniran Barbosa. Bauru - SP: EDUSC, 2007.

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