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V AGINAL  ANATOMY  AND  PHYSIOLOGY

In document Novel chitosan-containing liposomes (sider 15-21)

1   INTRODUCTION

1.1   V AGINAL  ANATOMY  AND  PHYSIOLOGY

Comentou-se no capítulo teórico desta tese acerca da tradução de textos situados em contextos desconhecidos e sua implicação na tarefa metarrepresentacional a ser empreendida pelo tradutor. Metarrepresentar um contexto de produção situado a uma notável distância temporal, espacial e cultural pode não representar uma tarefa fácil de ser levada a cabo, dependendo dos diversos ambientes cognitivos em jogo durante o fazer tradutório. Pode-se tomar, a título de exemplo, a pesquisa desenvolvida e discutida em Alves (2005c), quando aponta para as dificuldades apresentadas por tradutores novatos (estudantes de tradução) ao se depararem com um texto envolvendo informações arquitetônicas de um hamam (banho turco). A distância espacial e cultural cuida, por si só, de criar um grau de dificuldade metarrepresentacional que pode acarretar um grau de semelhança interpretativa mais baixo entre TF e TA.

O que ocorre, destarte, quando da tradução de um texto bíblico ou talmúdico, objeto da presente pesquisa de doutorado? Além da distância espacial e cultural, como no caso do hamam, existe a distância temporal. Lidamos com textos, cujo ambiente de produção se situa em um período de, no mínimo, dois mil anos atrás. O próprio tempo se encarrega, nesse caso, do distanciamento e das modificações contextuais transcorridas. A esses fatores acresce-se outra peculiaridade: a língua em que esses textos foram compilados. No caso do hebraico bíblico, uma língua não mais falada, a tradução se faz necessária em 99% dos casos, pois, segundo Gabel & Wheeler (1993), dentre o vasto número de indivíduos que têm a leitura da Bíblia como fonte de bem- estar, “nem a metade de um por cento leu as suas palavras reais” (p. 205, itálico como no original). Vamos nos abstrair de comentar mais detalhadamente o sentido de “palavras reais”, pois, em se tratando de material bíblico, não há como saber, atualmente, mesmo lendo-se hebraico, qual foi o texto primeiro a partir do qual foram feitas as cópias e a partir das quais foram feitas as mais variadas traduções para as mais variadas línguas. Inexiste um autógrafo que possa conferir ao texto seu caráter de “original”, tal qual concebido pela crítica textual. Não se pode falar tampouco em “autor”, pois, no caso dos textos bíblicos, o autor é meramente um escriba inspirado pela palavra divina. E, por serem portadores de uma mensagem divina, atestam internamente sua própria condição de sagrado. Isso os torna sensíveis. E o fazendo, envolvem diretamente questões de tradução e língua.

O Talmud, compilação de comentários sobre a Torá, também está escrito em línguas não mais faladas: o hebraico (hebraico mishnaico) e o aramaico. Seu estudo nessas línguas é reduzido a um pequeno grupo de pessoas, o que faz da tradução um instrumento imprescindível nessa área. E por ser baseado na revelação oral feita por D’us a Moisés no Monte Sinai, à qual foram se somando os comentários e interpretações através dos séculos, o Talmud é um livro sagrado do povo judeu e, nessa condição, um texto sensível.

Tal condição de texto sagrado soma-se ao distanciamento espacial, temporal e cultural do contexto de produção tanto dos textos bíblicos quanto dos talmúdicos. É mais um desafio ao tradutor em sua tarefa de metarrepresentação de ambos os contextos: o de produção do TF e aquele de recepção do TA. Em se tratando de um texto sagrado, sensível, o tradutor lida com questões altamente polêmicas de cunho religioso, capaz de suscitar junto a seu leitor reações extremadas. Mas o que é um texto sagrado e, consequentemente, um texto sensível? Quais as implicações que semelhante texto traz para a tradução?

Simms (1997) atesta que qualquer texto pode ser considerado sensível em potencial ou, em outras palavras, nenhum texto é sensível, mas pensar que o é, o tornaria sensível (cf. p. 3). A sensibilidade pode se dar de duas formas: ou o conteúdo do texto é um tabu, ou o simples fato de o texto existir já é um tabu. Assim, os textos escritos por um autor proscrito podem ser considerados sensíveis independentemente de seu conteúdo ser ou não sensível. Geralmente, estes dois requisitos são encontrados simultaneamente, pois não seria à toa que um autor seria proibido de ser lido, senão pelo conteúdo de seus escritos. Ademais, para se considerar um texto como sensível, é importante a análise de critérios que podem também variar de acordo com o tempo, o lugar e a cultura. Isto faz com que a sensibilidade não seja algo inerente ao texto; não é o material linguístico que torna um texto sensível. A sensibilidade seria a forma como o receptor do texto reage frente a ele. Poderíamos exemplificar esse aspecto com os textos do indiano Salman Rushdie. Em algumas regiões do mundo islâmico, por ser considerado um autor maldito, seus livros são proibidos independentemente de seu conteúdo. Já em outras partes do globo, essa proibição inexiste.

De acordo com Simms, um texto pode ser considerado sensível de quatro maneiras, na dependência do tipo de objeções que ele pode criar junto ao leitor: 1) questões ligadas ao Estado; 2) questões ligadas à religião; 3) questões ligadas à decência; e 4) questões ligadas a certas pessoas em sua individualidade (cf. p. 5).

Conforme apontado por Foote (apud SIMMS, 1997:5), essas quatro razões levam aos quatro motivos seguintes para censura. No caso de objeção ligada ao Estado, o texto é nomeado como sedição (“sedition”); no caso de religião, o texto é nomeado como blasfêmia (“blasphemy”); no caso de atentado contra o pudor como obscenidade (“obscenity”); e no caso de ser contrário a cidadãos em particular como calúnia (“libel”).

Da aplicação de tais critérios aos textos sagrados, conclui-se que os textos sagrados são considerados sensíveis por suscitarem problemas ligados à religião. Gohn (2001) afirma que “o que se observa com esse tipo de textos é que, diferentemente do que pode ocorrer com a maioria de outros tipos de textos, há um grande envolvimento emocional por parte dos usuários e reações extremadas dos ouvintes/leitores podem ser esperadas” (p. 149). E, com estas considerações em mente, poder-se-ia afirmar que a tradução de um texto sensível se torna duplamente sensível.

Daí temos o embate teórico e prático envolvendo a tradução dos textos bíblicos. Tomando-se a Bíblia, veremos que ela mesma inicia a questão com o episódio da Torre de Babel (Gênesis 11). Segundo a passagem bíblica, os homens falavam uma única língua e se entendiam sem problemas. Mas, com a pretensão de construírem uma torre que chegasse até o céu, obtiveram o desagrado de D’us que, por isso, resolveu confundir as línguas que falavam. Assim, D’us cria uma situação em que a tradução se torna ao mesmo tempo necessária e impossível: “necessária por causa do desejo das pessoas do mundo em entender umas as outras, mas impossível por nunca poder existir algo como uma pura tradução literal”91 (SIMMS, 1997:21). A ironia encontra-se no próprio nome que D’us dá à torre: Babel. Embora Babel signifique “confusão”, como nome próprio ele se torna intraduzível. É o único vestígio que perdurou da perdida língua primeva que era falada pelos filhos de Shem.

Textos sagrados, então, apresentam únicos problemas de sensitividade. Primeiro, eles mesmos teorizam a tradução, de modo que uma tradução deveria ser não só fidedigna no sentido comumente entendido por tradutores, mas também fidedigna à teoria de tradução apresentada pelo próprio texto (...). A estes problemas podem ser acrescentados aqueles mais usuais encontrados pelos tradutores, que têm a ver

91

Tradução de: “necessary, because of the desire of the people of the world to understand one another, but impossible in so far as there can never be any such thing as a purely literal translation”.

com a precisão do texto traduzido, embora, novamente, estes problemas sejam especialmente acentuados pelo status de sagrado do texto-fonte”92 (id., p. 21).

Em seu artigo, Simms vai ainda discorrer sobre problemas de tradução ligados à precisão do texto traduzido, entre outros (cf. SIMMS, 1997:21-24). A tradução de um texto situado em um contexto desconhecido e sobre o qual paira o caráter de sagrado exige competências muito além daquelas ligadas ao conhecimento linguístico do tradutor. É nesse sentido e na procura por entendimento dos processos em curso durante a tradução de um texto considerado como sagrado que se baseia esta tese. A compreensão das variantes em jogo durante a tarefa metarrepresentacional leva, outrossim, ao entendimento dos motivos pelos quais o tradutor adota certas estratégias de tradução, tendo em vista seu público-alvo. A explicitação, tal qual delineada no capítulo teórico e discutida na análise à frente, se constitui em uma destas estratégias.

A pesquisa sobre a tradução de um trecho do Talmud, enquanto texto sagrado, apresenta características capazes de fornecer insumos a tal discussão. A seguir uma explicação a respeito do corpus da pesquisa.

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