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Numa perspetiva mais científica, iniciou-se em 2008 em Portugal o primeiro estudo sobre o valor da língua portuguesa com o apoio do Instituto Camões e a condução científica do ISCTE-IUL5. Este estudo deu origem em 2012 à publicação da obra Potencial económico da língua portuguesa, na qual Reto expõe a filosofia subjacente ao estudo e apresenta as conclusões obtidas. O autor alicerça a sua abordagem sobre o estabelecimento de critérios para a medição do valor económico de uma língua, neste caso, o da língua portuguesa.

O estudo assenta na identificação de produtos vinculados à língua, isto é, aqueles em que a língua é uma componente fundamental. Rapidamente, o autor demonstra que não basta selecionar apenas os produtos que decorrerem diretamente da língua para avaliar o seu impacto na economia, mas que é necessário “alargar o

conceito de indústria da língua para um foco menos restrito” (Reto, 2012:71). Neste

sentido, aponta para três grupos de atividades que devem ser consideradas, no seu todo, para se medir realmente o valor de uma língua, são elas:

1. As “atividades e produtos em que a língua é uma componente essencial”; 2. As “atividades que fornecem matérias-primas” às do primeiro grupo “para

que estas possam produzir principalmente bens selecionados que estejam vinculados à língua”;

3. As “atividades que consistem na distribuição e comercialização dos produtos

selecionados no primeiro grupo” (ibidem).

Ao considerar que não é apenas o produto linguístico em si que detém um valor económico mensurável mas que esse valor se repercute por toda a cadeia que contribuiu para a sua realização, desde a transformação da matéria-prima à difusão

- 24 - passando pela produção, o autor redimensiona o impacto que tem a língua em todos os setores de atividade económica que lhe estão relacionados, o que irá permitir uma medição de mais perto do seu valor real.

Desta forma, o estudo conduzido por Reto apresenta a redefinição das áreas de impacto em termos de valor da língua, isto é, no nosso entender, uma nova conceção de “indústrias da língua” que, num sentido mais abrangente “abarcam não

apenas os tradicionais setores de rádio, televisão, edição, mas também as atividades de investigação e desenvolvimento, atividades que implicam uma entrada ou saída de linguagem (por exemplo, interfaces telefónicos), de revisão e ajuda à redação de documentos, de classificação da informação, de extração (permite, por exemplo, a localização de uma fonte de informação), de geração (como a geração automática de documentos a partir de uma base de dados), de reconhecimento, de recuperação, de resumo, de tradução, de gestão de documentos, de ensino de línguas assistido por computador, de desenvolvimento de programas de ajuda a pessoas com deficiências visuais, todas as ações educativas e, ainda, as atividades que produzem um conjunto de normas, leis, regulamentos e outros” (Reto, 2012:71). Parece-nos importante fixar

esta lista de descrição das atividades uma vez que nos voltaremos a referir a ela nos pontos seguintes.

A conclusão deste estudo realizado para a economia portuguesa demonstra que o valor da língua é de cerca de 17% do PIB (o que representa aproximadamente 23800 milhões de euros), um valor mais elevado do que, por exemplo, em Espanha onde o valor da língua foi estimado em 15% do PIB. O estudo revela ainda que na primeira década deste século se registou um crescimento das atividades e serviços com incidência no valor da língua (Reto, 2012:73).

Do nosso ponto de vista, e tendo em conta que o nosso foco está na componente terminológica, um dos dados interessantes publicados nas conclusões do relatório preliminar do estudo sobre o valor económico da língua portuguesa (Esperança, 2009:11) prende-se com a apresentação, ainda que muito sucinta e pouco detalhada (uma vez que o relatório refere a classificação por 60 atividades

- 25 - económicas, mas apenas dá conta de algumas), da repartição do valor da língua por setores de atividades económicas (ver Quadro A).

Tabela A: Valor da língua em % do PIB português (em milhões de euros)

Não tendo acesso ao conjunto total das atividades classificadas, ficaremos pela análise da Tabela A, onde é possível verificar que, por exemplo, nos setores económicos tais como a eletricidade (0,06%), a construção civil (0,08%) ou ainda a agricultura, florestas e pescas (0,55%) foi medido um valor de língua muito reduzido em relação ao total do PIBL (PIB Língua), comparativamente, por exemplo, com os setores da indústria transformadora (8,70%) ou serviços de mercado (15%) onde o impacto do valor económico da língua já tem uma expressão mais significativa.

E, sem surpresa, efetivamente, os setores mais representativos apresentados, neste quadro, são os outros serviços (29,30%) que, por ausência de dados mais detalhados, deduzimos que integrem os setores económicos diretamente relacionados com as indústrias da língua e suas atividades derivadas (cf. Enumeração das atividades mais acima, numa citação do autor do estudo).

- 26 - É de louvar a iniciativa deste estudo que, sem dúvida, fazia falta em relação à língua portuguesa. Porém, gostaríamos de deixar aqui algumas observações que os resultados apresentados nos suscitaram.

Na lista de atividades apresentada no estudo levado a cabo por Reto (2012), não é feita qualquer menção explícita à terminologia ou à sua gestão, ao mesmo título que são, por exemplo, mencionadas a tradução, a revisão, a gestão documental, etc. É sem surpresa que constatamos que esta variável não foi contemplada no estudo uma vez que, apesar de ser uma atividade linguística, não constitui só por si uma fonte direta geradora de valor comercial.

No entanto, ao olharmos para os setores de atividades económicas contemplados no estudo, verificamos que a terminologia está presente em cada um deles, em maior ou menor grau de especialização e cobrindo diversas perspetivas (descritiva, normalizada, harmonizada, organizada, estruturada, contextualizada, definida, etc.).

Posto isto, considerando que a gestão de terminologia contribui para a organização do conhecimento que, por sua vez, é geradora de valor a vários níveis, inclusive no que respeita à língua, não haveria lugar noutro estudo para procurar apurar as situações concretas em que a componente terminológica contribui decisivamente para a qualidade dos produtos e serviços que movimentam as indústrias da língua e as suas atividades derivadas e que, por essa razão, contribuem de forma indireta para o aumento do valor da língua?

Se como nos diz Reto, “A História tem-nos mostrado que o valor da língua não é

um dado fixo e que há variáveis como a ciência, a tecnologia, a economia, a cultura, a sociedade, que determinam o seu presente e o seu futuro” (Reto, 2012:17), somos de

opinião que, se é possível quantificar o valor económico da língua, a terminologia enquanto recurso linguístico especializado e estruturado pode constituir uma variável para o apuramento deste valor.

- 27 - Encontram-se terminologias sob diversas formas, em bases de dados terminológicas, glossários especializados, ferramentas de auxílio à tradução, de controlo da qualidade, dicionários máquina, dicionários eletrónicos, formalizações ontológicas com base em terminologia, redes semânticas e conceptuais, etc. tanto nos setores públicos como privados. Todos estes recursos linguísticos são também fontes de conhecimento especializado que contribuem para o aumento do valor da língua.

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II – Gestão de Terminologia

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