Associado aos diversos fatores que podem desencadear o processo de desertificação, a degradação das terras está diretamente relacionada às atividades exercidas pelo homem e a forte pressão sobre os recursos naturais. Dessa forma, a deterioração das propriedades físico-químicas e biológicas do solo é inicialmente provocada pela retirada da cobertura vegetal existente.
Conforme afirmam Menezes e Sampaio (2002), no semiárido nordestino, a degradação dos recursos naturais tem sido provocada pelo aumento da intensidade de uso do solo e redução da cobertura vegetal nativa.
A degradação das terras mais susceptíveis ao processo de desertificação é, na maioria dos casos, iniciada pela supressão da cobertura vegetal, seja devido ao desmatamento e queimadas para dar lugar aos cultivos mais comuns na região, ou pela retirada da lenha e mineração.
Sampaio et al. (2005) afirmam que a vegetação arbustiva e arbórea da caatinga, predominantemente no Semiárido, é substituída por pastos herbáceos ou culturas de ciclo curto. Segundo os autores já mencionados, é este descobrimento do solo que favorece o processo de erosão. Associada a essas atividades, a irrigação não planejada em solos impróprios prejudica ainda mais a conservação das terras nesses ambientes, provocando entre outros problemas a salinização.
Parr et al. (2009) afirmam que a presença da cobertura vegetal sobre a superfície do solo proporciona um grau de cobertura do terreno de modo a controlar o impacto das gotas de água das precipitações, sendo de extrema importância para a manutenção do solo.
A eliminação da vegetação natural e a exploração da vegetação na colheita não somente desprotegem a superfície do solo da ação direta da chuva, mas
também causa a diminuição de uma componente fundamental do solo que é a matéria orgânica.
Assim, é correto afirmar que os solos da região Semiárida são exaustivamente explorados, sejam pelas atividades agropecuárias, mineradoras ou até carvoeiras, ainda, notados em muitos municípios do semiárido nordestino. Uma das fontes de energia na região se dá pela queima da lenha proveniente dos remanescentes de caatinga, conforme notifica o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Caatinga realizado pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente), dados do desmatamento da Caatinga entre 2002 e 2009 podem ser verificados na Tabela 1.
Tabela 1 – Desmatamento na Caatinga entre 2002 e 2009
UF Área da UF dentro da Caatinga (Km2) Área desmatada antes de 2002 (Km2) Área desmatada 2002-2008 (Km2) Área desmatada 2008-2009 (Km2) Desmatado antes de 2002 (%) Desma- tamento 2002-2008 (%) Desma- tamento 2008-2009 (%) AL 13.000,43 10.320,20 353,22 23,85 79,83 2.72 0,18 SE 10.027,13 6.683,37 157,67 4.39 66,66 1,57 0,04 PE 81.141,30 41.159,83 2.204,98 167,77 50,72 2,72 0,21 MG 11.100,15 5.374,62 359,61 15,16 48,39 3,24 0,14 BA 300.967,81 149.619,66 4.527,84 638,35 49,72 1,50 0,21 RN 49.402,20 21.418,69 1.142,99 98,19 43,36 2,31 0,20 PB 51.357,83 22.342,84 1.013,18 91,89 43,51 1,97 0,18 CE 147.675,44 54.735,07 4.132,95 440,19 37,06 2,80 0,30 MA 3.753,07 1.134,57 97,61 32,32 30,23 2,60 0,86 PI 157.985,87 45.754,18 2.586,11 408,92 29,96 1,64 0,26 Fonte: Ministério do Meio Ambiente (2011).
Conforme dados do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Caatinga, estima-se que, no período entre 2008 e 2009, foram desmatados 1.921 km², o que representa 0,23% da área total do bioma, enquanto que, no período entre 2002 e 2008, a taxa anual foi de 0,28%. No estado da Paraíba, o desmatamento da caatinga entre 2002 e 2009 foi de 2,15% correspondendo a 1.105,07 km.
A degradação ambiental generalizada na Caatinga tem origem no desmatamento, que ocorre de forma pulverizada. Isto se deve ao fato de que o vetor mais importante do desmatamento é a exploração predatória para satisfazer demandas por carvão vegetal e lenha para fins energéticos. Os insumos energéticos provenientes da vegetação natural atendem às necessidades domésticas e industriais, sobretudo para satisfação das demandas de produção de gesso, cal, cerâmica e ferro-gusa (MMA, 2008). No Estado da Paraíba, a utilização da
vegetação nativa para a fabricação de carvão vegetal e lenha tem elevado o desmatamento de áreas remanescentes de caatinga. Segundo dados do Ministério da Agricultura (Tabela 2), só no ano de 2012 na Paraíba produziram-se 981 toneladas de carvão vegetal. Quando a seca devasta o pasto do gado e afeta, severamente, os cultivos, a alternativa da população rural é utilizar a vegetação para produção de lenha que gera renda temporária durante os períodos secos. Com os auxílios do governo federal, esta atividade tem perdido força, porém, ainda, está presente de forma significativa em muitos municípios do estado.
Dessa forma, fica claro que a degradação causada na Caatinga é fator determinante para a degradação dos solos na região e, consequentemente, o avanço do processo de desertificação. Para compreender a dinâmica dos fatores físicos, que estão diretamente relacionados ao processo de desertificação, a estimativa dos indicadores biofísicos possibilita o entendimento das dinâmicas naturais intensificadas pelo uso e ocupação do solo.
A pressão exercida pelas atividades humanas, que não levam em consideração as limitações hidrológicas do ambiente semiárido, conjuntamente com o manejo não adequado do solo, é decisiva para definir o estado atual dos remanescentes de Caatinga e evidencia a necessidade de análises no que diz respeito ao equilíbrio ambiental na região. A Tabela 2 mostra a produção e o valor da lenha e carvão na Paraíba. Na tabela, é possível verificar que a quantidade de carvão vegetal produzido no Cariri Ocidental e Oriental, somadas, é superior à produção de outras microrregiões do estado, o que evidencia o destino da vegetação de caatinga extraída no Cariri paraibano.
Tabela 2 – Produção e valor de comércio da lenha e carvão vegetal na Paraíba no ano de 2012
Mesorregiões, Microrregiões e
Municípios
Carvão vegetal Lenha
Quantidade (t) Valor (1000 R$) Quantidade (m3) Valor (1000 R$)
Sertão Paraibano 417 325 282 669 3 945
Seridó Ocidental Paraibano 22 18 33 695 607
Seridó Oriental Paraibano 41 32 34 208 660
Cariri Ocidental 249 170 67 930 1 076 Cariri Oriental 80 57 40 270 524 Agreste Paraibano 173 127 68 180 1 166 Curimataú Ocidental 97 72 30 496 549 Curimataú Oriental 15 11 7 810 143 Brejo Paraibano 10 7 8 212 134 Mata Paraibana – – 2 410 40
São João do Cariri 19 13 5 000 60
Paraíba 981 727 529 362 8 016
A retirada da Caatinga, vegetação nativa na região semiárida do Nordeste, aliada a longos períodos de estiagem, provoca acentuada degradação do solo, deixando-o descoberto e exposto por mais tempo à ação dos agentes climáticos, reduzindo, consequentemente, seu potencial produtivo, causando danos muitas vezes irreversíveis ao meio (TREVISAN et al., 2002; MENEZES et al., 2005).
Os problemas criados com a mineração no Semiárido são mais intensos no polo gesseiro do Araripe, que, segundo Fernandes e Barbosa (2011), localiza-se na região do extremo oeste do estado de Pernambuco e abrange os municípios de Araripina, Trindade, Ouricuri, Bodocó e Ipubi. É a maior região produtora de gipsita, sendo responsável por 95% da produção do país. Para estes autores, nessa área, a mineração tem sido a principal atividade representativa da força motriz que atua nas áreas em risco de desertificação.
Além do desmatamento da vegetação, que acarreta inúmeros problemas aos solos da região semiárida, ainda há o desgaste provocado pela mineração (Figura 10 a e b) que clandestina ou oficializada pelos órgãos ambientais provoca degradação em níveis significativos. Em muitos municípios do semiárido paraibano, por exemplo, Junco do Seridó, é possível verificar vários pontos de degradação provocados em sua maioria por esta atividade.
(
(aa)) ((bb))
Figura 10 – (a) Escavação provocada por mina de Caulim no município de Junco do Seridó-PB; (b) Acúmulo de material descartado na mineração
Fonte: Glauciene Justino, (2012).
A devastação provocada pela mineração já gerou sérios problemas, transformando drasticamente a paisagem e aumentando o desequilíbrio ambiental na região. Como os ambientes naturais passam por diferentes transformações no
decorrer do tempo, que, logicamente, podem ser provocadas por causas naturais, como também a interferência humana, estas ocorrem em uma velocidade que se sobrepõe à capacidade regenerativa dos ambientes, o que proporciona a manutenção de um ciclo de devastação que apresenta graves consequências sociais e ambientais.
Conforme afirmam Cunha e Guerra (2003), não só as causas naturais provocam degradação ambiental, mas o manejo inadequado do solo associado às condições de riscos ambientais pode acelerar a degradação, maximinizando e/ou transformando os processos geomorfológicos atuantes. Sem dúvida, foi a partir da intervenção humana no ambiente que os processos naturais tenderam a ocorrer em intensidades maiores, o que pode ser desastroso para a sociedade.
Dessa forma, fica clara a diferença entre os processos naturais e aqueles provocados ou intensificados pelas danosas e não planejadas modificações humanas ao meio. Nesse contexto, deve-se levar em consideração o momento histórico em que essas transformações ocorrem, pois este vai determinar a velocidade com que o ambiente será degradado e consequentemente o tempo que levará para se regenerar ou se readaptar.
No domínio morfoclimático das caatingas, a interferência humana tem sido responsável pela intensa degradação ambiental existente. As diferentes formas de transformar a paisagem e provocar o desequilíbrio ambiental são produtos de um inadequado modo de apropriação e manejo da terra. Técnicas rudimentares de cultivo têm propiciado maior desgaste do solo. Isso, associado à urbanização, atividades mineradoras entre tantas outras já mencionadas, colaboram para o atual quadro de devastação ambiental da região Semiárida.
Nessa perspectiva, Nascimento (2003) afirma que efeitos morfodinâmicos, forçosamente, por meio da erosão eólica e hídrica, agem acelerando a degradação das terras que logo são abandonadas e buscadas outras para serem incorporadas a um sistema de produção historicamente rudimentar e ambientalmente insustentável.
Mesmo diante da inovação tecnológica presenciada nos últimos anos e de ilhas de desenvolvimento no semiárido nordestino, determinadas áreas, ainda, sofrem com o subdesenvolvimento e a utilização de técnicas ultrapassadas de manejo das terras. Contudo, não se pode com isso atribuir aos pequenos produtores rurais todos os problemas ambientais existentes na região. As interferências ocasionadas pelos grandes empreendimentos são conjuntamente responsáveis pelos níveis de degradação ambiental presentes.
Accioly (2000), ainda, argumenta que o manejo inadequado do solo é apontado como uma das principais causas de origem antrópica relacionadas com a desertificação. O extrativismo vegetal e mineral, assim como o superpastoreio das pastagens nativas ou cultivadas e o uso agrícola por culturas que expõem os solos aos agentes da erosão, são as principais causas dos processos de desertificação.
Aliado aos fatores já expostos, o cultivo continuado sem descanso ao solo ou qualquer reposição de nutrientes dificultam a recuperação e posterior uso, pois muitas áreas se encontram em estado irrecuperável. Em relação à degradação da vegetação Souza (2009) afirma que a recomposição da mesma ocorreria de forma natural, tão logo fosse cessado ou diminuído o uso dessas terras. A recomposição se daria de acordo com os padrões vegetais e da pressão exercida pelas atividades humanas nos ambientes degradados.
Outro fator determinante para a degradação do solo é o sobrepastejo animal, prática comum no semiárido paraibano. Em alguns municípios, o número de cabeças de gado bovino e caprino é maior que o número de habitantes.
Desde a colonização, a pecuária tem sido uma das mais bem sucedidas atividades econômicas desenvolvidas no Semiárido. É para muitos uma alternativa às duras condições do ambiente em que vivem. Porém, não menos afetada pelo longo período de escassez hídrica a que o Semiárido recorrentemente enfrenta.
Do ponto de vista ambiental, esta atividade representa uma das mais causadoras de impactos e de problemas quanto à conservação do solo. O pisoteio provocado pelos animais ao pastarem costumeiramente, referidos como sobrepastejo ou sobrepastoreio, e as implicações que acarreta, deve ser considerado em estudos e análises sobre a degradação e o processo de desertificação.
A FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) considera a atividade sem planejamento uma forma de degradação dos solos e afirma que:
Pastoreio incorreto pode ser definido como a prática de apascentar demasiado o gado, por um período de tempo longo, em terrenos incapazes de recuperar a sua vegetação, ou de apascentar ruminantes em terrenos impróprios para pastoreio em resultado de certas características físicas como o declive. Sobrepastoreio significa que o número de animais excede a capacidade produtiva das pastagens.
Em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, o sobrepastejo provoca desde o aumento da susceptibilidade à erosão, à destruição da vegetação de pequeno porte e outros problemas relativos a esses processos. Um longo e complexo processo de pisoteio sobre as terras no semiárido paraibano tornou muitas áreas mais propensas à desertificação, devido à compactação do solo.
O gado caprino e ovino possui hábitos alimentares bastante peculiares, principalmente na época seca, alimentando-se do estrato baixo (talos + folhas) e das folhas secas, no caso dos caprinos. Já os ovinos dão preferência às espécies herbáceas. É provável que numa taxa de lotação alta, em longo prazo, os caprinos destruam as plantas novas e degradem o estrato lenhoso. Tal situação é agravada com o sobrepastejo e a ocorrência de anos seguidos de seca (ALBUQUERQUE et al., 2004).
No Cariri paraibano, os rebanhos caprinos e ovinos são a base da pecuária, e muitos municípios têm nessa atividade a sua maior fonte de renda. É fato que estes animais, principalmente os caprinos, adaptaram-se às adversidades da região e, como costumam dizer os moradores locais, “comem tudo o que veem pela frente” e no caso as plantas mais resistentes aos períodos de escassez hídrica.
Além do pisoteio, a retirada da vegetação de pequeno porte que recobre o solo e o protege das agressões é ocasionada pelo gado que pasta. No período de seca, após se alimentar com as plantas costumeiras à sua dieta, também, alimenta- se com gramíneas que recobrem os solos. Isto expõe o solo à ação dos agentes erosivos provocando a perda de material e da mesma forma o torna mais vulnerável ao impacto das gotas de chuva. Sem dúvida, o sobrepastejo do gado caprino, principal criação no semiárido paraibano, sem manejo adequado acarreta implicações significativas ao equilíbrio ambiental.
De acordo com Almeida (2012), o sobrepastejo traz consequências não só para as espécies da flora e fauna, mas, também, para o solo e para os recursos hídricos. O pisoteio do gado causa a compactação do solo, favorecendo o escoamento superficial em detrimento da infiltração das águas pluviais, alterando a capacidade hídrica da região e intensificando os processos erosivos em diferentes escalas de intensidade (sulcos, ravinas e/ou voçorocas).
A irrigação é mais um fator de degradação quando utilizada de forma equivocada sem qualquer planejamento e pode levar à salinização dos solos. Em
longo prazo, o uso errôneo da irrigação torna o solo impróprio para o cultivo devido à elevada concentração de sais.
Souza (2008) afirma que a irrigação nas zonas secas origina a desertificação, a partir da salinização das terras submetidas a essa intervenção. Esse processo ocorre quando existe deficiência de drenagem nos solos, sendo potencializado quando estes apresentam pequena espessura e elevado déficit hídrico. Com a evaporação, os sais se concentram na zona superficial do solo, aumentando o potencial de compactação, redução da infiltração e incremento do escoamento superficial.
Como um dos fatores desencadeadores da desertificação, as técnicas de irrigação empregadas sem qualquer tipo de planejamento têm intensificado o processo nas áreas de cultivo. É fato que, mesmo com todos os estudos acerca do problema e das informações repassadas aos produtores, em algumas áreas, a irrigação errônea continua provocando a salinização e consequente esterilidade do solo.
Neste contexto, Accioly et al. (2010) afirmam que a desertificação, associada à salinização dos solos, ocorre em maior ou menor proporção em quase todas as áreas irrigadas do Nordeste e, embora sua expressão em termos de área seja consideravelmente menor quando comparada às áreas de sequeiro afetadas pelo problema, o seu custo socioeconômico é, comparativamente, elevado.
Dessa forma, a irrigação contribui para a perda das terras férteis em um ambiente castigado pelas limitações climáticas e hídricas, e as implicações deste problema não são somente ambientais, o que alimenta a dinâmica do processo de desertificação.