7.1 F ORDELING AV TIMER
7.1.2 Vårsemesteret
Comumente, as pesquisas sobre os processos referenciais de encapsulamento apresentavam concepções teóricas que restringiam esses processos às anáforas, variando entre uma concepção ampla (FRANCIS, [1994] 2003) e concepções mais restritas do fenômeno (CONTE, [1996] 2003; APOTHÉLOZ; CHANET, [1997] 2003; CONSTEN; KNEES; SCHWARZ-FRIESEL, 2007). Em todos os casos, a sumarização de porções cotextuais era relegada a retomadas operadas por pronomes anafóricos ou sintagmas nominais anafóricos dispostos em diferentes pontos do cotexto.
Dessa forma, uma das maiores desestabilizações em se tratando de um dos processos referenciais corresponde aos estudos realizados por Silva (2013). Nesse trabalho, o autor busca descrever as diversas formas e funções do processo de introdução referencial a partir da análise de quatro gêneros textuais, a saber: nota jornalística, editorial, charge e tirinha. Essa análise possibilitou a descoberta de um tipo híbrido de introdução referencial que inaugura um
novo referente e, simultaneamente, encapsula porções cotextuais: a introdução referencial encapsuladora.
Silva (2013) defende que o locutor, ao utilizar a introdução referencial encapsuladora em seu texto, busca causar um estranhamento para despertar a curiosidade do interlocutor. Esse estranhamento leva à necessidade de confirmação, pelo interlocutor, sobre a informação presente na introdução referencial, o que é possibilitado pela leitura do texto, como ocorre no exemplo seguinte, presente em Silva (2013, p. 97):
(31) Alberto tinha razão
O valor médio cobrado por litro de gasolina nos postos de combustíveis piauienses é nada menos que R$ 2,64. Fora o valor altíssimo e inviável para muitos, há o alerta nacional de risco de blecaute nas bombas em diversos estados, inclusive Ceará e Maranhão, distribuidores regionais. Isso implica dizer que, a dificuldade nacional de distribuição de combusítiveis aliada à extrema dependência ao produto pode reservar dias difíceis neste fim de ano, período em que o consumo sofre um aumento de 10% com as tradicionais viagens das famílias e com o aumento das entregas de produtos de consumo. Com relação ao Piauí, a situação é ainda mais grave. Sem porto e sem malha ferroviária em quantidade e qualidade suficientes, a dependência piauiense a outros estados pode ser suprimida somente através do sistema rodoviário, muito mais caro e demorado para atender grandes demandas. Linguasagem, São Carlos, v.24 (1): 2015. Para se ter uma ideia, apenas uma viagem de trem do Porto de Itaqui, em São Luis (ma), a Tresina equivale a 80 viagens e caminhões carregados com combustível. Todo esse quadro nos faz lembrar de Alberto Silva, engenheiro por formação, ex-governador do Estado e grande idealizador das grandes obras que pudessem garantir o desenvolvimento do estado. Dentre muitas de suas obsessões, o transporte público e a construção de estrutura necessária para o desenvolvimento do Estado eram prioridades. Exemplos disso são a conclusão do Porto de Luís Correia e a construção de grandes ferrovias – incentivadas por Alberto Silva – mas que ainda engatinham. No entanto, nos últimos anos, o Governo do Estado buscou recursos junto à União para recuperar as BRs que cortam o Piauí, ampliar e até duplicar em alguns pontos. Apesar de necessárias, esta foram obras que agora já exigem novos reparos e funcionam apenas para atender questões urgentes. Sem olhar para o horizonte no momento certo, o Piauí se ressente da ausência de ferramentas importantes para manter o estado devidamente abastecido.
(Disponível em: <https://goo.gl/LkxmsO>. Acesso em: 07 set. 2016)
No texto em análise, observa-se que há uma introdução referencial em “razão”,
associada ao nome “Alberto”. O emprego dessas formas linguísticas termina por levar o
interlocutor a buscar, no texto, informações que o esclareçam sobre a natureza do referente introduzido no âmbito do texto.
A busca pela confirmação sobre quem é Alberto (ex-governador do Piauí) e sobre o que ele teria razão, conforme o que foi disposto no título do texto, é provocada pelo estranhamento a que se refere Silva (2013), a qual pode se dar de forma difusa e nem sempre tão pontual. Além do mais, as teses concentradas nas introduções referenciais encapsuladoras indicam o posicionamento do locutor acerca de algo. Esse posicionamento é sustentado pela argumentação construída no texto, a qual é desenvolvida de modo a conquistar a adesão do interlocutor e, consequentemente, o seu engajamento.
É necessário lembrar que, ao encapsular informações de forma prospectiva, as introduções referenciais encapsuladoras se assemelham aos rótulos prospectivos, nos termos
de Francis ([1994] 2003]. Conforme observa Esteves (2015), isso ocorre porque a remissão prospectiva desse tipo de encapsulamento é uma das formas encontradas pelo locutor para aguçar a curiosidade do interlocutor e tornar o texto convidativo, daí o fato de a introdução referencial encapsuladora ocorrer, normalmente, no título ou nos parágrafos iniciais dos textos. Por orientar as escolhas lexicais e, consequentemente, as transformações que os objetos de discurso sofrerão na progressão textual, bem como por ativar novos referentes no cotexto, a introdução referencial encapsuladora se consolida como um recurso coesivo também multifuncional.
Embora desenvolvamos, aqui, análises de cunho textual-discursivo, cabe mencionar que para Sousa e Lima (2015), a introdução referencial encapsuladora também pode ser explicada a partir de uma aproximação entre a Linguística Textual e a Linguística Cognitiva. Com base na análise de expressões linguísticas designativas de operações da Polícia Federal presentes nos gêneros comentário, postagem do twitter e artigo de opinião, as autoras defendem que os lexemas presentes na superfície textual evocam modelos cognitivos responsáveis pelo encapsulamento de uma determinada estrutura. Essa estrutura pode ser evocada por nomes de operação, como pode ser visualizado a seguir, retirado de Sousa e Lima (2015, p. 350):
(32) Escrito por Prof. Amiraldo Quaresma – 25/10/2010
Roberto Góes foi mentir na rádio, mas não deu certo. A notícia, além de confirmada pela PF, está na Veja, na Folha e no UOL. Só não sei pq o esforço de desmentir a verdade. Será por medo de prejudicar a campanha de seu candidato nomeado por ato secreto assinado por Sarney, ligado a Waldez Góes e parentes presos pela PF? No palanque de seu candidato, além dele mesmo (cassado por seis vezes e duas vezes conduzido coercitivamente à PF), WG, Marília, há tb dois nomes ligados à Operação
Sanguessuga. Esse é o palanque da mudança? Que mudança? Isso já não seria o suficiente p/ prejudicar uma campanha que se diz, que se vê como a “única” mudança?!?! Durma-se com um barulho desse! Ao analisar esse texto, as autoras lembram que a Operação Sanguessuga foi direcionada à desarticulação de uma organização criminosa que cometia crimes contra a ordem tributária por meio de fraudes em licitações na área da saúde brasileira. A quadrilha responsável por tais crimes era composta por funcionários do Ministério Público da Saúde e da Câmara dos Deputados. Metaforicamente, o nome de batismo da operação remete ao
animal “sanguessuga”, um verme que se prende a outros animais para deles sugar o sangue.
Popularmente, essa palavra também pode ser designada para caracterizar as pessoas que exploram financeiramente as outras.
Sousa e Lima (2015) defendem que há, em (32), traços do domínio “VERME-
PARASITA”, que são metaforicamente mapeados para designar a organização criminosa, pois
toda uma sociedade. Na subjacência da expressão linguística “Operação Sanguessuga”, a metáfora “PESSOAS SÃO ANIMAIS-PARASITAS” se faz presente e traços do domínio fonte “ANIMAIS PARASITAS” são deslocados para o domínio-alvo “PESSOAS”, que engloba os investigados pela operação em questão. Assim, a expressão referencial “a Operação Sanguessuga” é responsável pelo encapsulamento de características concernentes ao
teor da operação que se materializam no texto.