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3.11 Váljohka

Os resultados obtidos apontam que o agravamento da trajetória de punição física severa contra criança/adolescente por parte dos pais esteve associado à piora na sintomatologia dos problemas de saúde mental. Considerando este subgrupo que teve um agravamento na exposição a esse risco, ressalta-se que a maioria sofreu punição física severa somente na adolescência (91,7%), isto é, o agravamento da trajetória esteve justamente no fato de que estes não sofriam nenhuma punição física severa na infância (primeira avaliação) e passaram a sofrer punição física grave no período da adolescência (segunda avaliação).

Apesar de não haver escassez de estudos longitudinais na área da violência física contra crianças/adolescentes, nota-se uma variedade nas metodologias e medidas utilizadas para pesquisar esta temática, por conseguinte, a direta comparação com o presente estudo deve ser tomada com cautela, principalmente no que tange a faixa etária das amostras dos estudos, a definição dos desfechos e a inclusão de outros tipos de maus- tratos além da punição física. A seguir, descrevem-se estudos longitudinais relevantes para presente discussão da trajetória da punição física severa contra crianças e adolescentes.

Em artigo publicado em uma edição especial focada em maus-tratos na infância e adolescência do periódico científico voltado para estudos na área da psicopatologia do

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61 desenvolvimento, o “Development & Psychopathology”, Thornberry e colaboradoresno ano de 2001 apresentaram dados de um estudo longitudinal com foco no seguimento por 4,5 anos de crianças/adolescentes com alto risco de apresentar problemas de delinqüência e uso de drogas (N=738). Os resultados demonstraram que o grupo que sofreu abuso físico na infância tinha maior risco de estar envolvido com uso de drogas, de apresentar sintomas de externalização e múltiplos problemas (somatória dos fatores de risco investigados), já o grupo que havia sofrido abuso físico na adolescência tinha mais risco de apresentar problemas do tipo, delinqüência, uso de drogas, internalização e externalização. Analisando maus-tratos como um todo (abuso físico, sexual, emocional e negligência), o autor concluiu que maus-tratos somente na infância não tem forte associação com os desfechos investigados na adolescência e, por outro lado, maus- tratos na adolescência, com característica de persistência ao longo do tempo, possuem forte associação com desfechos negativos investigados neste mesmo período (Thornberry, Ireland et al., 2001).

Em um estudo longitudinal publicado em 2010, Thornberry e colaboradores, acompanharam 907 adolescentes (73% do sexo masculino, 68% de afro-americanos) até a idade adulta, realizando um total de 14 avaliações ao longo da pesquisa. No intuito de analisar a associação de maus-tratos (violência física, negligência, abuso sexual) e possíveis associações com desfechos negativos, os autores separaram a amostra em dois grupos: maus-tratos na adolescência e maus-tratos somente na infância. Os resultados do estudo revelaram que o grupo que havia sofrido maus-tratos na adolescência tinha maior risco de apresentar 10 (entre 11) desfechos negativos analisados: ofensa criminal, crime violento, detenção oficial, uso de álcool, problemas com uso de álcool, uso de drogas, problema com uso de drogas, sexo inseguro, diagnóstico de doença sexualmente transmissível, pensamentos suicidas e sintomas depressivos que o grupo de maus-tratos somente na infância. O grupo de sujeitos que sofreu maus-tratos somente na infância não se mostrou associado a desfechos de criminalidade e comportamentos sexuais de risco, mas revelou uma associação causal com freqüência de uso de drogas e problemas de uso de drogas, além de este grupo ter reportado mais problemas de sintomas depressivos e pensamentos suicidas. Os dados deste estudo longitudinal apontam que maus-tratos sofridos na adolescência possuem conseqüências negativas de característica mais invasiva, ou seja, que abrange diversos aspectos da vida do indivíduo. Segundo o

62 autor, o grupo de maus-tratos somente na infância apresentou reações ao estresse voltadas para emoções, enquanto o grupo que sofreu maus-tratos na adolescência teve efeitos mais invasivos. Salienta-se que os autores não discriminaram os tipos de maus- tratos na análise, considerando-os conjuntamente (Thornberry, Henry et al., 2010).

As duas pesquisas realizadas por Thornberry e colaboradores apontam para resultados semelhantes aos do presente estudo. O início ou restrição da punição física no período da adolescência provou ter efeitos deletérios mais invasivos no curso temporal dos sujeitos. Os autores tentaram explicar esse dado argumentando que maus-tratos restritos ao período da infância tendem a ser mais brandos, no entanto, o presente estudo se utilizou somente de comportamentos de violência perpetrados contra criança/adolescente considerados severos, logo a hipótese desse grupo autores se torna frágil. Assim, uma possível explicação para este dado poderia estar relacionada à maturação cognitiva do adolescente. Em um período do desenvolvimento em que as noções de interação social e a compreensão da atitude parental se tornam complexas (Yates, 1995), surge a possibilidade de questionamentos quanto às punições aplicadas pelos pais. Autores relatam que as emoções de adolescentes vitimizados frente à punição física dos pais/cuidadores tendem a vergonha, medo, raiva, tristeza, entre outros, dessa forma, abre-se uma maior probabilidade para o surgimento de problemas de saúde mental caracterizados por essas emoções (Weber, Viezzer et al., 2004). Considerando os dados levantados pelo presente estudo, no qual a maioria dos indivíduos do subgrupo com agravamento da trajetória de punição física severa não havia sofrido violência no período da primeira avaliação (infância), o surgimento da punição física no período da adolescência pode ter exacerbado as emoções negativas descritas anteriormente. Contudo, novas hipóteses podem ser levantadas e novos estudos são fundamentais para melhor compreensão desses resultados.

Por outro lado, outros estudos nessa área identificaram que o início da exposição à violência física na infância traz conseqüências mais negativas do que na adolescência (Keiley, Howe et al., 2001; Manly, Kim et al., 2001). Enquanto outros autores relataram maior importância à exposição à violência física crônica (Cohen, Brown et al., 2001; Manly, Kim et al., 2001; Ethier, Lemelin et al., 2004). Concluindo, não há dúvidas dos efeitos deletérios da violência física contra crianças e adolescentes, mas quando se trata

63 do estágio do desenvolvimento no qual os efeitos podem se tornar mais avassaladores, ainda não há um consenso na literatura científica.