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3 Method

3.5 UV spectroscopy

Historicamente, sabe-se que, em toda sociedade, sempre foi necessário para o ser humano um paradigma divino ou a manifestação de divindades. Nas terras ameríndias não era diferente. Os maiores impérios encontrados pelos europeus no Novo Mundo, astecas, maias e incas, tinham suas vidas mediadas e dirigidas por panteões de deuses. Esses eram, cotidianamente, servidos por meio de adorações, sacrifícios naturais e humanos, cultos, festas e variados tipos de ritos e celebrações.

Com relação ao universo de divindades indígenas, aqui, tendo como exemplo os astecas, conta Todorov que, em um de seus relatos, Cortês disse que aproveitou a ocasião para “fazê-los notar o quanto a religião deles era tola e vã. Mas, disseram que era a religião de seus pais162”. Essa resposta indica pelo menos duas características bastante realistas. Por um lado, demonstra a importância da religião nessa sociedade e, por outro, sua submissão e dependência ao passado religioso.

Para o historiador Ciro Flamarion Cardoso, o universo religioso indígena era de certa forma, um pouco complicado, a ponto de se perceber com exatidão um paradoxo no formato cúltico de um deus para outro. No império asteca, por exemplo, havia a presença de dois deuses constituídos como pilares: Huitzilopochtli e Quetzacóatl. Prevalecia o domínio do deus tribal, Huitzilopochtli. O culto prestado a ele era sangrento pelos muitos sacrifícios humanos,

162 TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.

oposto ao ideal de culto celebrado ao deus Quetzacóatl, que era mais espiritual163. Porém,

tanto um como outro eram venerados por todos os habitantes.

Com o objetivo de entender a vida “idolátrica” indígena a partir de seu universo de divindades eleitas, utilizando como exemplo o contexto asteca, é oportuno mencionar o Frei franciscano, Bernardino de Sahagún164 que elaborou e enviou uma descrição em forma de relatório ao Papa Pio V, apontando uma ampla relação de deuses e deusas e como eram praticados os ritos idolátricos, sacrifícios e cerimônias pelos habitantes da Nova Espanha no tempo de sua infidelidade, isto é, antes da chegada da religião cristã. Nesse documento, retrata como se dinamizava a religiosidade, cultura, sociedade, política e economia nos três grandes impérios existentes no Novo Mundo.

Segundo Sahagún, o universo da religiosidade indígena era composto por um panteão de deuses e deusas, no qual, cada um se responsabilizava por uma área específica. Essas divindades não passavam de homens e mulheres mortais que, em algum momento histórico haviam realizado um ato heróico, façanhas ou feitos extraordinários no império e por suas obras foram reconhecidos como sobrenaturais e, por isso, divinizados pelos índios.

Ao deparar com a religiosidade indígena e vê-la consistida em diversos personagens e elementos divinos para os receptores, mas, profanos e ameaçadores, a atitude imediata dos conquistadores foi a sua aniquilação, pois viram nessa religiosidade um obstáculo que ofereceria resistência aos seus atos.

Atacar diretamente seus deuses e desintegrar seus costumes religiosos, isto é, aniquilar a Idolatria dos índios, transformou-se em uma das principais prioridades dos conquistadores, cuja missão era ocupar e dominar esse locus.

Para os europeus ávidos de conquistas, essa Idolatria estava associada ao poder de dominação que o homem cristão recebeu de seu criador. Tal poder é uma realidade de que

163 CARDOSO, Ciro Flamarion S. América pré-colombiana. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996, p. 82. 164 Frade observante de São Francisco, Sahagún viveu mais de quarenta anos trabalhando entre os índios na

implantação de uma nova Igreja. O referido compêndio ficou pronto quando Sahagún já estava com mais de setenta anos de idade. O escrito elaborado no México em 25/12/1570 apresenta em suas linhas introdutórias um sentimento de entusiasmo pela expansão da fé católica, conversão dos infiéis idólatras, mortes e trabalho árduos dos religiosos das ordens mendicantes (São Domingos, São Francisco e Santo Agostinho) envolvidos nessa missão e o consequente progresso da Igreja Romana. SUESS, Paulo (Org.) A Conquista Espiritual da

todo o ser humano em processo de conquista não abre mão. Cada ato seu nessa direção fortalece a sua convicção de que, de fato, aquilo a que se propôs adquirir lhe pertence por direito. Na verdade, olhando a história dos grandes impérios e seus comandantes, de maneira bastante generalizada, é perceptível e aceitável que esse poder de conquistar é uma virtude intrínseca no próprio homem.

A Idolatria dos indígenas, assim identificada pelos espanhóis, era suficientemente capaz de obstruir as finalidades transformadoras dos cristãos por meio da evangelização e implantação de um novo modelo de religião. Com os ídolos, os indígenas, que estão recebendo essa nova religião, se mobilizam para não permitir a sua inserção e nem de outro Deus.

A Idolatria, nesse sentido, remete a um problema político e teológico. Os indígenas deveriam ser livres de uma opressão originada por eles mesmos, isto é, anular e se desvincular do seu modus vivendi sem questionamentos ou qualquer tipo de resistência, e aderir ao novo sistema que ora se implantava em seu espaço doméstico. Esse sistema propunha, além de outros elementos, um novo Deus que podia facilmente conter e dominar todos os outros deuses cunhados pelos nativos, fazendo-os insignificantes em suas tradições.

Com a aceitação desse sistema, a paz entre os indígenas poderia ocorrer de forma sólida. A resistência resultante da insatisfação seria combatida, transformando os rebeldes em inimigos declarados dos espanhóis e, caso a obstinação não cessasse, deveriam ser condenados à morte.

Ao lado da Idolatria se encontravam o paganismo e a infidelidade dos índios, e a proposta para eliminar esse mal ocorreria somente por meio de sua cristianização.

Em suma, a aniquilação da Idolatria no Novo Mundo era necessária para ceder espaço à Verdadeira Religião. Este argumento foi apenas uma das diversas astúcias ideológicas construídas pelos conquistadores.