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Utviklingstrekk og framskriving

Se a via do trabalho não traz uma recompensa, a possibilidade de uma revolução de natureza popular, que possa mudar o eixo das representações, parece uma distância intransponível, uma vez que a desestruturação social, que enjaula ainda mais a população, não conseguiria construir um proletário politicamente forte para combatê-la. Aliás, nem há proletariado tradicionalmente constituído.

Ainda na primeira parte da obra, e depois durante o período da guerra já na terceira parte, há uma micro-representação das relações sociais de alienação que se estabeleceram entre as classes populares no processo de urbanização brasileiro e da impossibilidade real dessas mesmas classes se organizarem no espaço urbano.

Nesse trecho, a mãe de Inho procura desesperadamente uma forma de afastar o filho das ruas e da criminalidade. Depois de não conseguir levá-lo à escola, pois a patroa lhe negara “jogando-lhe na cara que já havia sido muito generosa em deixá-lo viver em sua casa”, a mãe, impossibilitada de acompanhar o filho e controlar suas saídas para evitar trabalhos como o de “avião de malandro”, procura fazer uma cadeira de engraxate para que, com o dinheiro “honesto”, fruto de um trabalho também “honesto”, não precise trabalhar para os traficantes. Não tendo condições financeiras para tanto, acaba, por recomendação de vizinhos, indo à carpintaria de Luis Cândido (João Batista)146, conhecido “barateiro” que resolve dar a cadeira para o rapaz, mas antes discursa sobre o poder do proletariado e as possibilidades da luta armada e de mudança social contra as mazelas das classes dominantes, dizendo:

-Minha senhora, fique sabendo que eu não sou bondoso, muito menos acredito em Deus. Eu sou é marxista-leninista. Acredito na força do povo, no movimento de base, na organização do proletariado, e vou mais longe, eu acredito na luta armada! Acredito numa ideologia e não no Deus da Igreja católica, que é usado para acalmar o povo, fazer o trabalhador de cordeiro. Aposto que essa patroa da comadre da senhora aí é católica, mas por que ela não deixava a sua comadre levar o menino na escola? Por que não ajudar direitinho conforma a senhora mesmo disse aí? A senhora tem que ser marxista-leninista, ajudar a conscientizar esse povo pra gente tomar o poder...a senhora não vê o que fizeram com a gente? Colocaram nós aqui nesse fim de mundo, nessas casinhas de cachorro... Essa rede de esgoto malfeita que já ta dando entupimento, não tem ônibus, não tem um hospital, não tem nada...nada. Tem é cobra subindo pelo ralo, lacrais e ratos passeando pelo telhado. Temos que nos organizar!(CD II, p. 157 e CD I, p. 185)

O trecho termina com uma impressão de não-diálogo, pois a mãe ainda mantém a sensação de que aquilo teria uma explicação religiosa. O carpinteiro não consegue que seu discurso tenha uma decodificação adequada já que ela “não sabia o que era machista-leninista147 ou proletariado”(CDII, p.158) e o resultado dessa ausência gera o que mais tarde vai ser o reflexo da violência, já que Inho torna-se traficante e começa sua vida no crime148 até se tornar Zé Miúdo, chefe do tráfico. Mas, além disso, essa é uma demonstração de uma microestrutura de um complexo emaranhado de sistemas e vivências que não conseguem expressão fora do espaço de repressão e aprisionamento social. Esse trecho dá a exata dimensão de como essas classes alijadas do poder são agora reflexo de uma possibilidade muito remota de real mudança estrutural, mas que ainda se mantém como mito.

É interessante notar que o significado não captado pela mãe só pode ter esse efeito no plano da escrita, o que, no caso, não foi o canal de troca lingüística. Talvez forçando buscar um sentido para essa “escolha” de Paulo Lins149, seria pertinente pensar que a ausência da leitura e da escrita para essa camada da população, da qual a mãe de Inho/Zé Miúdo faz parte, é metaforizada na imagem de não letramento e incomunicabilidade. Se esse foi o motivo da escolha, ratifica-se a imagem da escolarização como única forma de inclusão.

Esse episódio emblemático contribui, principalmente, para compreender como o discurso político torna-se incompreensível, uma vez que não-palpável, sendo tragado pelo “discurso” sedutor da mercadoria e do poder por meio do paralelo logicamente traçado pelos jovens da favela que não se querem “trabalhadores” (os “otários-escravos”), já que idéia de trabalho sempre aparece como sentido de exploração e desvinculada de uma possibilidade de consumo real. Dessa forma, a tônica da inserção social se dá pela via da sociedade de consumo já instalado no país.

147 Grifo meu.

148 A partir dos trabalhos com a cadeira de engraxate que Inho começa a comparar sua vida à dos “engraxados” e, revoltado com essa situação, principia o ciclo de assaltos.

149 Digo “escolha” porque Paulo Lins era estudante de Letras provavelmente teria noções de funcionamento da língua que impedissem um “despercebido equívoco” lingüístico em meio a tanta referencialidade na obra.

Mais à frente quando a guerra está em seu auge e o mesmo Miúdo é agora um chefe de tráfico, Luis Cândido reaparece. Sua fala, dessa vez, faz ainda mais explícito o grau de alienação de seu discurso político. Sem perceber as mediações, a própria materialidade dos fatos, Luís reafirma o caráter revolucionário da guerra:

Até Luís Cândido, o carpinteiro que um dia fizera uma cadeira de engraxate pra Zé Miúdo a pedido de sua mãe, socialista de primeira hora, em nome de seus princípios marxista-leninistas achava que tudo não passava de conspiração da classe dominante e do capitalismo selvagem contra os pobres e oprimidos. Em sua luta diária para derrubar essas forças à frente do Conselho de Moradores da Cidade de Deus, ensinava que o povo unido jamais será vencido. (CD II, p. 337)

Percebemos na articulação ardilosa entre o extremo da pobreza e o extremo da despolitização a impossibilidade de mudança social, mas, ironicamente, essa mesma impossibilidade recria a imagem revolucionária do bandido. E voltando à idéia de uma moral do trabalho, mas agora relacionada à idéia de mudanças estruturais, Sérgio Buarque de Holanda afirma que “também se compreende que a carência dessa moral do trabalho se ajustasse bem a uma reduzida capacidade de organização social”150. Desse modo, ironicamente, a sociedade que usou da repressão mais cruel a fim de apolitizar ou despolitizar a comunidade dos pobres, “para aliená-la dos seus direitos e do caminho da luta contra as causas de sua opressão e de sua pobreza, recebe agora uma terrível lição: verifica que nada mais fez com aqueles mesmos ‘humildes’, com os quais convivia ‘cordialmente’ do que empurrá-los para o terreno da violência anti-social”.151 Assim, estes mesmos marginalizados passam de reservas do “mundo do trabalho” a “reservas do mundo do crime” e, também, das “classes laboriosas” para as “classes perigosas” sem, no entanto, que se encontre, por meio desse trânsito histórico, político, social e estético, uma saída concreta para o Brasil e a literatura como problemas. O único caminho de fato aberto é o da barbárie.

150 HOLANDA, op. cit, p. 10. 151 GUIMARÃES, op. cit, p.197.