• No results found

O fim dos anos 90 e o começo dos anos 2000 dizem respeito o um período de transição na América Latina, principalmente na parte Sul do continente. Se, de um lado, se vivia o auge das adoções das políticas neoliberais, de outro, começaram a surgir crises que colocaram o modelo neoliberal em contestação.

A Alca seria o símbolo do aprofundamento das políticas do Consenso de Washington, mas as crises do fim da década colocaram em xeque as políticas ortodoxas para a região.

As crises atingiram vários países da região em anos distintos31, mas a causa de todas elas foi basicamente a mesma, problemas na balança de pagamentos devido à adoção das políticas neoliberais – e as conseqüentes vulnerabilidade e dependência dos países latino- americanos. A seguir, Bresser-Pereira (2008, p. 26) mostra, de forma resumida, como a lógica das políticas de desregulamentação está por trás das crises dos países da América Latina, entre o fim dos anos 1990 e o começo dos anos 2000:

29 O Mercosul, como é conhecido o Mercado Comum do Sul é uma união aduaneira, que originalmente foi

formada por quatro países (Argentina, Uruguai, Brasil e Paraguai) e em 2012 teve a entrada da Venezuela.

30 Alca (Área de Livre Comércio das Américas) foi um projeto de se criar a maior zona de livre comércio do

mundo, com acordos comerciais entre os 34 países das Américas do Norte , Central e do Sul e do Caribe . Seu lançamento foi em Abril de 1998 na Segunda Cúpula das Américas , em Santiago , Chile.

31 Anos das crises econômicas nos países sul-americanos: Venezuela, 1998; Brasil, 1999; Equador, 1999; e

Ao contrário do que afirma a teoria econômica convencional, não são os déficits públicos, mas sim os déficits em conta-corrente continuados que causaram as crises de balanço de pagamentos no período aqui examinado. Déficits públicos podem ser causadores de crise quando a hipótese dos déficits gêmeos se confirma – fato que nem sempre sucede, porque nem sempre a taxa de câmbio prevalente é a taxa de câmbio de equilíbrio. A taxa de câmbio pode permanecer sobreapreciada durante um tempo relativamente grande porque os credores externos, atraídos pelos altos rendimentos de seus capitais nos países em desenvolvimento, subestimam as restrições de liquidez e solvência, e essa taxa pode permanecer permanentemente sobreapreciada, se o país sofrer da doença holandesa (...). Dessa forma, a política de recorrer à poupança externa para crescer, além de implicar uma taxa geralmente elevada de substituição da poupança interna pela externa, não resultando, portanto, em aumento proporcional dos investimentos, tende a causar crises financeiras – especificamente, crises de balanço de pagamentos.

A probabilidade de crise aumenta em decorrência dos efeitos do crescente endividamento externo sobre as restrições de solvência e liquidez. Para países altamente endividados, a captação de poupança externa tende a afetar, sobretudo, a restrição de solvência, enquanto países menos endividados tendem a ser afetados por meio da restrição de liquidez.

O resultado dessas crises se fez mostrar nas eleições posteriores, com a vitória de candidatos de centro-esquerda em vários países da região, caso de Hugo Chaves (Venezuela, 1999), Luis Inácio Lula da Silva (Brasil, 2002), Nestor Kischner (Argentina, 2003), Evo Morales (Bolívia, 2005) e Rafael Correa (Equador, 2007).

Somada a essa guinada política, outra guinada, desta feita econômica, ocorreu a partir de 2002-2003, em razão do forte crescimento da China, provocando choque de demanda e fazendo com que os preços das commodities se elevassem exponencialmente, como se destaca no Gráfico 6.

Gráfico 6: Evolução dos preços nominais de commodities

Fonte: Cepal e PFAFFENZELLER, 2007; World Bank Commodity Price Data; IMF Primary Commodity Price Tables, U.S. Energy Information Administration (EIA).

Evento que teve seu lado positivo ao permitir que as balanças comerciais dos países da região, antes deficitárias, invertessem de sinal. Dessa forma, os problemas de balança de pagamentos foram reduzidos e os países puderam até criar reservas, diminuindo suas dívidas externas e construindo modos de proteção contra a fuga de capitais.

Porém, como diz Carneiro (2012), “ocorre uma re-especialização para todos os países nas exportações de bens primários somados à manufatura baseada em recursos naturais”. O que tornou a região muito dependente e volátil em relação à demanda internacional.

Com o alivio financeiro permitido pela alta dos preços dos principais produtos de exportação da América Latina, surgiu um quadro fiscal mais ameno para os governos de centroesquerda que saíram vitoriosos das eleições na região. Folga que permitiu a esses governos massificar as políticas assistência sociais de modo a enfrentar o principal problema regional, qual seja, a grande desigualdade de renda.

O resultado tem sido um aumento forte de renda da base da pirâmide social que faz surgir, para o consumo, um mercado interno pujante que durante décadas tinha se mantido afastado dos interesses de empresários e políticos dos países da região.

A desigualdade, como já foi destacado neste trabalho, mostrou tendência de aumento durante a era neoliberal no mundo. Na América Latina, que sempre se caracterizou por contar

com países de alto grau de concentração de renda, ela sofre uma alteração positiva, como mostram os gráficos a seguir.

Gráfico 7: Brasil e América Latina – Coeficiente de Gini: 2000-2009

Fonte: Cepal.

Gráfico 8: América Latina (painel) - Coeficiente de Gini, variação média anual: 2001-2009

Fonte: Cepal.

No que se refere à integração regional, o projeto da Alca acabou não vingando em grande parte devido à recusa do governo brasileiro – e também do posicionamento de outros países da região, idêntico ao do Brasil. Em compensação, o discurso de maior integração

regional ganhou força, apesar de muito pouco ter sido realizado nesse sentido, salvo a criação da ALBA32.

Nesse capítulo se buscou apresentar a economia neoliberal, que como já dito se tornou hegemônica durante as últimas três. Por fim, o trabalho apresentou como a América Latina vem se inserindo nesse novo padrão de acumulação capitalista.

32 ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas) é uma plataforma de cooperação internacional baseada na ideia