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Utviklingsprogrammet – vurderinger i forhold til mål

História interna da tradução dos romances picarescos espanhóis

em Português

Tendo exposto no capítulo anterior os resultados da nossa investigação referente à história externa da tradução, procuraremos, no presente capítulo, expor os resultados referentes à “história interna da tradução”, conceito definido da seguinte forma, por Ana Maria Bernardo:

História interna da tradução: analisam-se as características das próprias

traduções, acompanhando cronologicamente as diferentes formulações que as sucessivas traduções de uma mesma obra foram evidenciando, o que permite fazer um historial do estilo e da interpretação da obra traduzida no respectivo contexto. (Bernardo 1999:623, ênfase no original)

A exposição dos resultados procedentes da análise das características apresentadas pelos romances picarescos em tradução portuguesa organizar-se-á em duas etapas. A primeira consistirá na análise paratextual das traduções. Os resultados desta primeira etapa permitirão a formulação de hipóteses a serem testadas na segunda etapa da análise, a análise textual.

Tal como exporemos mais adiante, os resultados referentes à história interna da tradução parecem sugerir que a recepção dos romances picarescos espanhóis em versão traduzida é indissociável da luta contra o domínio francês. Os resultados consistem na observação de dois fenómenos. Por um lado, parece ter havido, a partir da década de 1830, uma reacção contra as obras do género picaresco francês e uma valorização do género picaresco espanhol. Por outro, e, mais uma vez, como esclareceremos mais à

frente, as traduções portuguesas dos romances picarescos espanhóis estão redigidas em estilo picaresco, estilo que é exposto, na imprensa coetânea, como um estilo a cultivar contra as interferências do Francês no Português.

Ao longo deste capítulo, utilizaremos um conjunto de conceitos que guiará a nossa análise dos dados paratextuais e textuais. Na primeira secção, importaremos do trabalho de Gérard Genette (1987) a distinção entre “peritexto” e “epitexto”. O peritexto é definido como as informações que se encontram “autour du texte, dans l‟espace du même volume, comme le titre et la préface, et parfois inséré dans les interstices du texte, comme les titres de chapitres ou certaines notes (…)” (Genette 1987:11); o epitexto consiste num conjunto de informações que são exteriores ao volume, tais como entrevistas, diários do autor, epistolários, colóquios, resenhas, entre outros.

Na segunda subsecção, utilizaremos um conjunto de conceitos que guiará a nossa análise textual das traduções do nosso corpus. Podemos esclarecer de imediato que a perspectiva que adoptamos aborda a tradução como um processo de escolhas conduzido por um agente movido por finalidades e influenciado pelo seu contexto58.

Utilizaremos na exposição dos resultados da análise textual das traduções do nosso corpus os conceitos de procedimentos, estratégia e método. Estes três conceitos referem-se a diferentes momentos do processo tradutório e os seus resultados têm lugar

58 Isto significa que no presente trabalho em História da Tradução, admitimos a confluência dos três

modelos teóricos que Jenny Williams e Andrew Chesterman (2002:48-57) distinguem em “Theoretical Models of Translation”:“comparative models” (modelo teórico que analisa a tradução como produto), “process models” (modelo teórico que analisa, tal como o nome indica, a tradução como processo) e “causal models” (modelo orientado para o estudo das determinantes e finalidade de um determinado fenómeno tradutório). A razão pela qual não relembramos esta passagem no corpo do texto prende-se com as reticências que nos levanta a denominação do terceiro modelo teórico. Consideramos que o estabelecimento de relações causa-efeito entre contexto e fenómeno tradutório não é, nem deve ser, um objectivo de trabalhos históricos em Estudos de Tradução. Por fim, uma vez que os estes três modelos teóricos não são mutuamente excludentes, não consideramos a convocação dos seus conceitos como problemática.

em distintos níveis textuais. Os procedimentos dizem respeito a escolhas tradutórias que têm lugar no micro-texto. Estas escolhas serão efectivadas na formulação micro-textual do texto de chegada, apresentando-se esta formulação como mais ou menos próxima do original. Os procedimentos que afastam a formulação micro-textual da tradução face ao original resultam em desvios tradutórios59. Pelo contrário, se os procedimentos se efectivam em soluções micro-textuais semântica, formal ou funcionalmente próximas dos textos de chegada, os elementos micro-textuais analisados serão classificados como semelhanças. A definição de desvio que aqui invocamos replica a acepção utilizada por Gideon Toury (1995:57) em que se estabelece a relação entre tradução em adequação e um diminuto número de desvios tradutórios e entre tradução em aceitabilidade e um elevado número de desvios tradutórios. Tanto os desvios como as semelhanças entre texto de partida e texto de chegada serão analisados como procedentes de opções dirigidas por um balancear entre perdas e ganhos:

A shift might come from the translator‟s decision to render function rather than form, or to translate a semantic value on a different linguistic level, or to create a correspondence at a different place in the text (using a strategy of compensation), or perhaps to select different genre conventions. Much research can be carried out in this way: compare the texts, collect the differences, then try to organize the various kinds of shift. (Pym 2010:66)

59 Esta acepção é retomada na definição de Anthony Pym (2010:66): “shifts are structural differences

between original and translation”. Da nossa parte, e na senda de Bakker, Koster e van Leuven-Zwart, consideramos que a análise comparativa entre texto de partida e texto de chegada é mediada por um tertium comparationis que consiste na “tradução adequada” (Bakker/Koster/van Leuven-Zwart 2006:230). É com base na comparação entre texto de chegada e esta construção teórica (relembramos: a tradução adequada) que os distintos segmentos micro-textuais analisados são classificados como desvios ou como semelhanças. Por sua vez, esta construção teórica será determinada, por lado, pelo contexto situacional do investigador e, por outro, pelo conhecimento que este detiver do contexto situacional em que a tradução veio à luz. Aplicando esta reflexão ao presente trabalho, visto analisarmos as traduções do nosso corpus num contexto cultural que valoriza e tradicionalmente valorizou a tradução em adequação, a classificação de desvio como resultado de procedimentos que afastam a formulação micro-textual do texto de chegada face ao texto de partida apresenta-se como pertinente e operativa.

Assim, analisaremos os desvios como resultado de opções tomadas pelo tradutor e motivadas por objectivos. Esses objectivos podem relacionar-se quer com a adaptação do texto de chegada a um determinado modelo genérico quer com necessidades sentidas no contexto literário de chegada que a tradução procurará colmatar.

Estratégia diz respeito a uma tendência que é possível traçar ao considerar um conjunto coerente e frequente de procedimentos e os desvios e semelhanças deles resultantes. As estratégias tradutórias consistem num plano que é construído a partir do diagnóstico de problemas e que é orientado para uma finalidade (Chesterman 1997:89). As estratégias são orientadas para uma finalidade na medida em que o tradutor procura conformar o texto de chegada à situação comunicativa, tanto no que diz respeito às normas do contexto de chegada, como a determinados objectivos que a tradução poderá visar cumprir60. As normas são valores, princípios e directrizes partilhados intersubjectivamente por membros de uma comunidade e adquiridos no processo de socialização que conformam, avaliam, prescrevem e sancionam o desempenho dos indivíduos dessa comunidade em diversas áreas da sua existência social (Toury 1995:53-69). A noção de problema e a noção de finalidade são indissociáveis. No contexto da leitura do acto tradutório como um processo de escolhas, o problema define-se como qualquer etapa que constitua um potencial obstáculo à construção do texto de chegada ideal para uma determinada finalidade.

Por fim, utilizaremos o conceito de método, que é definido da seguinte forma por Lucía Molina e Amparo Hurtado Albir: “Translation method refers to the way a particular translation is carried out in terms of the translator‟s objective, i.e., a global

60

Esclarece Gambier que “estratégia”, palavra utilizada primordiamente no âmbito militar, concede centralidade à finalidade de um número de acções: “planned, explicit, goal oriented procedure or programme, adopted to achieve a certain objective (with priorities, commands and anticipations)” (2010:2).