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Utviklingsområder for mer kompetanse i forhold til implementeringen av nytt læreplanverk

“A lei da selva é traiçoeira, surpresa !

Hoje você é predador, amanhã é presa”

A vacância do referente trabalho

Zezé, do Hip Hop, ex-componente de gangues de grafiteiros sabe

disso, “arrumar um trampo” talvez seja mais fácil que o cara ficar no “trampo” que arrumou. Há uma marca que está cravada nas mentes e corações dos jovens participantes de gangues que moram nos bairros de periferia: sentir-se fora, perceber-se excluído. Esta marca estaria sendo causada pelo fantasma do desemprego? Esta é apenas a ponta do iceberg.

O trabalho tem representado o referente central de cidadania nas

sociedades mais diversas que pontuam nosso planeta. Ser trabalhador é como adquirir um salvo-conduto moral17, um suposto passaporte que alinha

dois mundos que se entrelaçam através de um profundo abismo: o mundo dos “proscritos”18 e daqueles que se incluem nas tramas da cidade oficial.

“Ora, esse trabalho, tido como nosso motor natural, como a regra do jogo que serve à nossa passagem para esses lugares estranhos, de onde cada um de nós tem vocação a desaparecer, não passa hoje de uma entidade desprovida de substância” ( Forrester, 1997:7). Produz-se um referente de cidadania que se esvazia de eficácia para uma legião de “proscritos” que se abrigam nas periferias urbanas. O trabalho torna-se uma fantasmagoria. Como uma cidade abandonada, existente e desértica, o trabalho continua

17 Ver Wanderley Guilherme dos Santos, Cidadania e Justiça, 1979, ao introduzir a discussão acerca da

dimensão de “cidadania regulada” como medida de criar um hiper mercado informal relativo muito menos a circunstâncias econômicas que a própria regulamentação e intervenção do estado no campo das relações de trabalho.

mobilizando os jovens à procura das ofertas de emprego, inserindo-os momentaneamente no mercado de trabalho. Eles experimentam, participam, até que a força de uma ausência de sentido do trabalho desempenhado, ou a nostalgia do fascínio das experiências de pilhagem vivenciadas entre as turmas nas ruas, manifeste-se:

“O cara tá viciado a roubar relógio fica difícil demais ele sair dessa vida de droga para ir para um emprego ganhar salário mínimo por mês, trabalhando oito horas. Aí, ele começa a ver na cabeça dele a vivência antiga, porque isso fica com a gente sempre. Ganhar cem reais! Então ele fica na vida antiga roubando relógio, vendendo ali, ele ganha cem reais numa semana. Meu irmão é viciado, ele arranjou um trampo no Center Um mas foi despedido porque pegaram ele com chiclete no bolso. É foda ne? Perdeu o emprego por um chiclete e agora tá largado aí. Ele acha que pode sobreviver. Troco muita idéia como ele, digo pra’ ele deixar esse caminho. Ele quer, tô avisando, ele quer!” ( Integrante do Hip Hop da Quadra do Santa Cecília).

O chiclete, objeto de pouco valor de troca, acessível a todas as classes sociais, potencializa a expressão da ruptura, do rompimento de uma relação de trabalho que antecede o “descuido”, seja em relação a um chiclete, seja de um objeto de maior valor de mercado. É então que se percebe os motivos da justificação, que o discurso das políticas sociais relativos à “não integração”, à “não socialização”, à “não recuperação” do jovem delinqüente, tenha assumido a estratégia central de inserção do jovem no mercado de trabalho. Essa retórica se reproduz desde o “mundo de dentro”, através da intervenção do companheiro, irmão que já foi de gangue até às ações institucionais: deixe essa vida, deixe esse caminho,

trabalhe! Eles parecem não acatar sugestões, conselhos, investimentos os mais diversos. Seguem indiferentes e afirmam que podem sobreviver.

“Indiferença da qual a sociedade desperta sempre assustada, escandalizada: ‘eles’ não se integram; ‘eles’ não aceitam tudo com a gratidão que era de esperar - pelo menos sem debater, sem sobressaltos, aliás inúteis, sem infrações ao sistema que os expulsa, que os encarcera na evicção. Nem sem responder à agressão latente e permanente que é seu apanágio, por agressões ainda mais brutais, ostensivas, explosivas que quase sempre ocorrem. Bloqueados numa segregação não formulada, mas de fato, sejam franceses natos ou de origem estrangeira, ou simplesmente estrangeiros, ‘eles’ não têm a decência de não se integrar” (Forrester, 1997 : 58)

A integração é quase sempre tratada, tanto em nível das políticas governamentais, como em certos enfoques acadêmicos, ou do ponto de vista meramente funcional, estrutural ou da perspectiva do “desvio” e da “marginalidade”. São esquecidas as dimensões contemporâneas que têm induzido, de forma mais sistemática, critérios de integração: uma noção de território19 que transcende a dimensão físico-espacial dos espaços

segregados das cidades e uma dinâmica do consumo divorciada dos processos tradicionais de trabalho. A perspectiva de integração ensejada pelos jovens de esferas sociais diversas parece estar antenada a novos

estigma e divisão social no gueto americano e na periferia urbana francesa.

1919 A “noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que dela

fazem a etiologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quando a um sistema percebido no seio do qual o sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente toda uma série de comportamentos, de investimentos nos tempos e nos espaços sociais, culturais estéticos e cognitivos” Suely Rolnik e Félix Guattari em “Cartografias do Desejo” , 1986, pag. 323.

modos de inserção de referentes do que se poderia denominar de uma cidadania global. A mundialização concorre para a projeção de um tipo de cidadania que parece não apenas transpor espacialidades tradicionais como, de forma mais drástica, construir outras lógicas de interação indivíduo-espaço. Como a cidadania das “cidades mundiais” é por sua essência descentralizada, construída nas navegações de redes internacionais, os indivíduos que não têm acesso a essa dinâmica tendem a enclausurar-se em referentes territoriais catalizadoras de familiaridade e de reconhecimento mútuo. Desse modo, transcender os limites físicos dos espaços “proscritos” do bairro não significa apenas transpor as barreiras da segregação espacial mas, também, experimentar um modo de “re- territorialização” nos espaços integrados à cultura de massa global. A cultura de massa “pode ser considerada como uma gigantesca ética do lazer. Vamos dizer de outro modo: a ética do lazer, que desabrocha em detrimento da ética do trabalho e ao lado de outras éticas vacilantes, toma corpo e se estrutura na cultura de massa” ( Morin, 1990: 68).

Sendo o bairro de periferia o espaço do isolamento e de exaltação da “ética do trabalho” , sendo essa desconectada de uma cultura de massa juvenil, não estariam os jovens, ao transporem os limites do bairro, ao exibirem-se dentro de uma estética global juvenil; ao destacarem-se através da presença marcante das turmas e dos atos de violência, ensejando um modo de “re-territorialização” na ampliada “ética do lazer” que predomina no lado “oficial” da cidade? Os novos referentes de cidadania, assinalados por Canclini ( 1994) e por Egler (1995),

aprofundados a seguir, referenciados em aspectos de uma ampla rede de consumo e de comunicação virtual não teriam os jovens signatários da cultura de massa como símbolo e, concomitantemente, porta-vozes mais diretos?

Os signatários de uma estética global

Pode-se falar de uma estética mundial. Nas grandes cidades européias, norte-americanas ou do eixo-sul observa-se um modo universal de vestir-se, da utilização de automóveis, eletrodomésticos, do consumo cultural, do uso da telefonia celular, redes de informatização e de mídia homogeneizando gostos e estetizando imagens. Habitantes de pontos diversos do planeta, podem perfeitamente, ao cruzarem por exemplo, a 5° Avenida, em Nova York, sentirem-se identificados tanto na sua aparência física, como nas gestualidades.

Por outro lado, o critério do consumo que consensualiza e aproxima os diferentes, pode constituir, dentro das mesmas cidades, um profundo sentimento de estranhamento, ao se confrontar produtores/consumidores com a massa crescente dos excluídos dessa mesma trama “global”. Canclini ( 1995: 61) adverte sobre o surgimento de “comunidades transacionais de consumidores” sendo o consumo,

simultaneamente, um “novo” referente de uma possível “cidadania global” e um “divisor de águas” na construção de uma cidadania inter- territorial.

Território e consumo confabulam um novo modo de produção da cidadania. O que são os espaços segregados senão os signos territoriais daqueles “proscritos” (Wacquant, 1997) das várias esferas de consumo simbólico ou concreto? Situar-se nas periferias urbanas das grandes cidades, registro potencial e tradicional do “cidadão trabalhador”, torna-se signo de expropriação, de destituição de um lugar daqueles que são – potencialmente- não-consumidores. Proscritos da cidade e das suas tramas de consumo. Quando Wacquant realiza sua pesquisa na banlieu operária e no gueto afro-americano de Chicago (1997), ele identifica que a ‘desapropriação simbólica’ produz estigmas territoriais. “O estigma territorial afeta não só a interação com os empregadores mas também com a polícia, a justiça a burocracia do bem-estar social, as quais são todas capazes de modificar o seu comportamento e seus procedimentos quando lidam com um residente de uma cité deteriorada” (Idem: 70).

Acontece, freqüentemente, dos jovens moradores de periferia, ao trabalharem, preferirem utilizar todo o salário ganho em um mês, apenas

com uma roupa de “marca”, com a finalidade de se utilizar dos signos da cultura de massa juvenil. O uso dessas marcas, faz com que a presença do jovem no seu espaço de moradia torne-se o símbolo de uma usurpação, do “roubo” de uma estética própria dos jovens de classes média e alta.

Torna-se necessário transpor os limites dos espaços segregados para fazer registros ampliados de uma estética que internamente, no bairro, é considerada quase sempre como usurpação.

“Olha desde de criança eu trabalho. Sempre gostei de trabalhar. Trabalhei de vendedor de algodão doce, chegadinha, bronzeador, loreal, tudo isso. Ai eu fui crescendo e ficando com vergonha disso. Ai eu comecei a trabalhar de pedreiro, carroceiro, hoje estou numa firma de carteira assinada. Mas eu acho que todo trabalho que faz receber dinheiro é trabalho. Ai a gente trabalha, compra roupa nova, ai a polícia vem e diz que é roupa roubada” (Integrante da gangue os “Boy Fera” )

Faz-se necessário, para os jovens moradores de periferia, transpor os limites dos espaços “proscritos” para não apenas legitimar-se no campo de uma estética juvenil globalizada, como também possibilitar uma profusão de estilos20 através de “corpos panoramáticos” (Canevacci, 1990)

que atuam nos espetáculos urbanos21. É sobre a forma do espetáculo que

a cultura de massa faz seus registros. “É através dos espetáculos que seus conteúdos imaginários se manifestam. Em outras palavras, é por meio do estético que se estabelece a relação do consumo imaginário” (Morin, 1990 : 77). Os corpos dos jovens, corpos expostos em público, ao transporem os limites dos espaços segregados das periferias urbanas, mergulham no turbilhão de olhares e imagens da cidade “inscrita”, oficializando sua existência. Por outro lado, verifica-se a vivência de um paradoxo nas

20 Helena Abramo (1994) ressalta que o “estilo não é simplesmente o conjunto de traços que se pode

observa num artefato. Ele pressupõe a criação consciente ( através de uma eleição intencional de um conjunto de traços com um princípio de ordenação, na qual existe a intenção de diferenciação em relação a outros artefatos. São as dimensões da escolha intencional e da distinção de um padrão, que são ressaltadas nessa formulação” ( pag. 87)

representações dos participantes das gangues acerca da vivência do trabalho. Se por um lado, eles parecem transgredir o campo imaginário relativo a uma cidadania regulada pelo trabalho, por outro , reproduzem a linguagem dominante cuja tônica são as oportunidades oferecidas ao cidadão trabalhador. No depoimento acima percebe-se , embora o jovem ressalte a idéia relativa às vantagens do roubo ele, por cinco vezes consecutivas refere-se ao termo trabalho. O hiato que parece se constituir na representação dos jovens de gangues é a dinâmica relativa à produção- consumo, ou seja, ser trabalhador, ser consumidor. No imaginário das gangues, embora que ainda reproduzam no discurso a idéia de que o trabalho é o propiciador das necessidades de consumo, é o consumo vetor fundamental. Zaluar (1994 : 115) ao realizar uma pesquisa com delinqüentes percebe que

“O consumismo e uma ideologia da busca do prazer que acabam por valorizar e criar de fato uma ausência de limites aos desejos individuais marcam também a sua presença no quadro de incoerências da cultura predominante que estimula o jovem a tudo isso através da publicidade constante na mídia, especialmente a televisionada. O aqui e agora da realização dos desejos individuais, alguns dos quais impossíveis no atual quadro de baixos salários, diminuição do crescimento industrial e valorização da qualificação para uma carreira profissional de ascensão social, alia-se ao vazio criado pela desmoralização das palavras e das regras de convivência respeitosas e equânimes no país”

Nesse vazio das palavras, nessa ampliada ideologia do consumismo e da busca do prazer, o que passa a dar destaque, a possibilitar campos de inserção social, é a imagem e seus recursos visuais. É sobre o impacto estético e visual que os jovens “proscritos” tornam-se atores nos

espetáculos urbanos. As imagens públicas, nesse final de século, possibilitam modos diversos de existência e de reconhecimento público. “As modernas ideologias estão diretamente impressas sobre a sua superfície visual: elas parecem quase animadas por sua essência ‘mítica’ que as faz agir dentro do corpo da mercadoria. As imagens falantes - ainda que aparentemente mudas - difundem-se a partir de uma mercadoria visual , superando as resistências geracionais, raciais, lingüísticas e classistas” ( Canevacci, 1990 : 44) Ganhar visibilidade, fazer excessiva essa visibilidade torna-se um modo não apenas de romper os “muros” e os signos do “estigma territorial” como também, de transposição de dinâmicas localizadas, estancadas nos bairros segregados, para as tramas globais de registro público.

É então que o estigma territorial, marca classificatória, produtora de uma invisibilidade negativizada, mobiliza os jovens moradores dos espaços segregados, territorialmente e socialmente, a “positivar” tais referentes, produzindo “confrarias de proscritos” denominadas, quando as práticas de violência tornam-se recorrentes, de gangues. A “desterritorialização” produzida na dinâmica segregadora da cidade torna-se, através da experiências das gangues, um modo “avesso” de “re-territorialização”.

A tão desejada integração, vai ocorrer entre as gangues, na apropriação e adaptação dos citados referentes básicos de cidadania ao seu próprio modo; a marca territorial que ao exacerbar e dar visibilidade à dimensão de estigma provoca uma inserção, através de práticas extensivas

de violência; e o consumo que intensifica-se através dos roubos de roupas de marcas, bonés, sandálias e adereços possibilitando seus registros, através de uma profusão de estilos, em uma estética global juvenil.

“Tal é a importância da aquisição desse tipo de bens para esses jovens, que muitas vezes os vemos fazer enormes sacrifícios para adquirí-los, gantando quase todo o seu salário para comprar apenas uma peça de roupa de marca em mais evidência. É simbólico, também, nesse entido, que sejam esses justamente os alvos preferenciais de roubo e assalto dos jovens delinquentes - os inúmeros casos de jovens assaltados que têm tênis de couro importados roubados por outros jovens é talvez o emblema mais dramático das ambiguidades e contradições que marcam a condição de inserção/exclusão dos jovens de baixa renda do universo juvenil citadino. ( Abramo, 1994 : 73).

“Consumir” a cidade da qual foram banidos, realizarem sua inscrição nos registros do qual foram proscritos, adornarem-se com os elementos estéticos do qual foram expropriados é , finalmente, ser jovem.

“Eles são criticados por reagir, por atacar. Na verdade, apesar da delinqüência - mas por causa dela também - eles estão em posição de fraqueza absoluta, isolados, obrigados a aceitação total, se não ao consentimento (...) Eles sabem por si próprios que estão sem trabalho, sem dinheiro, sem futuro. Tanta energia perdida. Vítimas por essa razão, de uma dor subterrânea, efervescente, que provoca raiva e abatimento ao mesmo tempo.” (Forrester, 1997 : 62)

As gangues atuam como um campo de propulsão de energias bloqueadas, segregadas, confinadas nos “bairros de desterro” ( Wacquant, 1997) realizando, de um modo avesso, a idéia compartilhada de restituição de uma “desapropriação simbólica” (idem) experimentada quotidianamente

na vida dos jovens das periferias urbanas. Qual o momento mais significante dessa ocupação simbólica que as gangues realizam para fora dos espaços “proscritos”? A priori, o trabalho seria o campo de intermediação entre mundos separados. O trem do Maracanaú, distrito de Fortaleza, traz diariamente uma legião de trabalhadores para o centro vital da cidade. No domingo, momento de lazer, o trem não funciona. A festa, os agitos, o baile funk, nos finais de semana, vêm possibilitar uma visitação da cidade daqueles, cuja esfera do trabalho, torna-se esvaziada de significantes de inserção, de inclusão social.

“A pessoa trabalha a vida inteira, no fim não ganha nada. A pessoa tem mais é que roubar as coisas que dá usar, que dá pra’ vender, que dá para lucrar. Por que trabalha a vida inteira, se aposenta e ganha um salário que não dá nem pra sobreviver. Eu trabalhava no Mac Donald’s , na Febemce. Eu deixei porque o gerente disse que eu tava roubando. Só de vez em quando, isso só acontecia quando eu pegava no descuido. Poucos reais, uma mincharia por que o dono de lá é rico. Eu trabalhava no caixa e tirava mesmo, porque ele tinha dinheiro muito e só pagava um salário pra mim de setenta reais” ( Integrante da gangue do Santa Terezinha)

“Quando eu era de menor eu era ajudante de mecânico. Mas agora parei. Eu agora não posso nem ir atrás de emprego, nem fazer documento que os pilantra vão atrás. Trabalhar é melhor que roubar, mas ninguém arruma emprego. Roubar tá rendendo mais que trabalhar” (Integrante da gangue FIEL- Fanáticos Irreverentes Executando Lloucuras )

O trabalho aparece para os jovens de periferia como um ponto vazio de definição, seja em relação ao futuro, seja como terreno mobilizador de referentes da estética juvenil, seja como fomentador de redes associativas no campo da juventude. O tempo do trabalho passa a ser vivido como um

tempo ausente de significantes no universo juvenil dos bairros de periferia. Assim como o bairro, o trabalho constitui uma “comunidade impossível” (Wacquant, 1997). Que comunidades ainda são possíveis de serem gestadas quando os referentes tradicionais esgarçam-se? Dentro do que Canclini (1995 : 29) vai denominar “novo cenário sóciocultural”, um dos processos que o constitui diz respeito

“à conseqüente redefinição do senso de pertencimento e identidade, organizado cada vez menos por lealdades locais ou nacionais e mais pela participação em comunidades transacionais ou desterritorializada de consumidores (os jovens em torno do rock, os telespectadores que acompanham os programas CNN, MTV e outras redes transmitidas por satélites”

Tendo em vista a segregação e até mesmo o confinamento dos jovens dentro de espaços segregados dos bairros, tendo em vista as suas dificuldades de acesso e de inserção em comunidades transacionais, eles forjam como alternativa a criação de campos das “comunidades impossíveis”, grupos de “solidariedade fechada”22. Sendo o trabalho um

campo minado de reconhecimento, o tempo de vivência e de experiência dos grupos vai se tecendo na vivência compartilhada de um tempo que é quase sempre “livre”. “Enquanto nada lhes foi sequer insinuado sobre a riqueza que poderia conter seu único luxo, aquele tempo chamado “livre”, que poderia ser livre, vibrante, e fazê-los vibrar, mas que os oprime, torna suas horas desvairadas, inimigas” ( Forrester, 1997: 62) .

O tempo livre, tempo pensado como compensação pelo dispêndio do trabalho, é vivido como tempo de vacância, um tempo que é preciso inventar o que fazer. É nesse ponto de indefinição, é nesse vazio, que vem a ocorrer a ruptura com os valores básicos da sociedade do trabalho. A situação do nada o que fazer, a vivência absoluta do “tempo livre” mobiliza o contigente de excluídos a romper com a premissa básica