Mikhail Bakhtin traz uma enorme contribuição à questão do narrador e de sua expressão sobre a narrativa, em seu livro Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Nesse estudo, o teórico russo comenta a preponderância linguística da voz que narra sobre o romance e os instrumentos estéticos utilizados nessa propagação de ideias.
No texto “A pessoa que fala no romance”, Bakhtin nos lembra da necessidade de se considerar o plurilinguismo como um ponto central da análise da organização estrutural do romance (2010, p. 134). Ao que nos parece, esse conceito compreende a dimensão plural dos estratos linguísticos de uma narrativa, possibilitando, então, a estruturação de um pensamento crítico coerente sobre as várias línguas que ressoam nos discurso romanesco.
Sendo, portanto, a narrativa literária uma exposição verbal da linguagem social, o discurso do autor “exige procedimentos formais especiais do enunciado e da representação verbal” (BAKHTIN, 2010, p. 135). Tais “formas especiais” seriam, na verdade, os procedimentos artísticos da obra literária, com os quais o autor, ser social concreto, estratifica o seu discurso em realizações linguísticas com finalidade estética – o que torna as personagens um dos principais canais dessa reprodução plurilinguística.
Nessa segmentação teórica, a verbalização literária da criação romanesca se torna a exposição de um ponto de vista individual, o do autor, acerca da realidade social. Essa perspectiva permite que se classifique a voz que fala no romance como “esteta”, “ideólogo” e “apologista” (BAKHTIN, 2010, p. 135).
Tentemos nos ater mais um pouco nesse exame sobre o autor: “esteta”, por buscar se manifestar através da linguagem artística, transmitida nas conotações próprias desse gênero narrativo; “ideólogo”, por estar simbolizando, nas palavras escritas, as suas convicções pessoais; e “apologista”, ao defender, explícita ou implicitamente, as crenças e opiniões que distribui, efusivamente, pelos variados elementos de linguagem, ao longo do romance, no qual, não raro, polêmicas são panfletadas.
Essa leitura sociológica do fazer romanesco, em si mesma, já nos autoriza, imensamente, a tratar das possíveis intenções das intromissões do narrador, no romance que nos propomos a estudar. Todavia, o texto bakhtiniano ainda desenvolve um tema bastante pertinente ao nosso exame: a reprodução da visão de mundo daquele que narra no protagonista do romance.
Sobre o desdobramento do ponto de vista do narrador em outros elementos textuais, diz-nos Bakhtin (2010, p. 136):
[...] Mas no romance, naturalmente, não se representa apenas o homem que fala, e este mesmo homem não é representado apenas como falante. O homem no romance pode agir, não menos que no drama ou na epopéia – mas sua ação é sempre iluminada ideologicamente, é sempre associada ao discurso (ainda que virtual), a um motivo ideológico e ocupa uma posição ideológica definida. A ação, o comportamento da personagem no romance são indispensáveis tanto para a revelação como para a experimentação de sua posição ideológica, de sua palavra. [...]
Após ter estabelecido o que vem a ser o plurilinguismo no romance, fenômeno no qual a estratificação linguística se dá em uma narrativa por intermédio das manifestações de linguagem expostas em um texto – prioritariamente, o narrador e as personagens – o estudioso, agora, parte para a exposição do possível motivo para a coexistência dessas manifestações multilinguísticas: a reverberação dos juízos daquele que narra sobre toda a narrativa.
O esclarecimento da exposição dialética é de fundamental importância para visitarmos com propriedade a tese em questão: o narrador não é o único que fala em um romance, porém, não se manifesta apenas através de sua fala. Como, então, o narrador se manifesta senão pela própria fala? Para o nosso juízo analítico, o caminho mais viável é o manejo das próprias personagens do enredo.
A reiteração do raciocínio segundo o qual o narrador utiliza o discurso narrativo para expor e defender as suas ideias e os seus pontos de vista é clara no uso dos
vocábulos “ideologicamente”, “um motivo ideológico” e “posição ideológica definida” – os quais marcam o esclarecimento efetivo dos propósitos textuais da voz locutora.
Por fim, a sugestão de que até as ações da personagem são representativas das intenções do narrador, seja no ponto de vista verbal ou na conotação simbólica, fecha a introdução dessa argumentação inicial sobre o uso das personagens pelo homem que fala no romance.
Embora faça a ressalva de que a narrativa romanesca não seja tão unilateral como a épica (na qual narrador e herói se confundem) e também destaque que a personagem pode assumir certa independência do condutor do enredo, Bakhtin admite que toda forma de discurso representa aquele que fala no romance, sendo o protagonista a principal manifestação desse procedimento (2010, p. 136).
O procedimento destacado na análise do acercamento dessas camadas da linguagem literária é a construção híbrida, definida como (BAKHTIN, 2010, p. 110):
[...] o enunciado que, segundo índices gramaticais (sintáticos) e composicionais, pertence a um único falante, mas onde, na realidade, estão confundidos dois enunciados, dois modos de falar, dois estilos, duas "linguagens", duas perspectivas semânticas e axiológicas.
No nosso entendimento, essa delimitação estabelece o resumo do que estamos procurando debater, que é a relação próxima entre os juízos do narrador e a expressão individual das personagens: a voz que fala se sobrepõe às personagens, incutindo-lhes a sua visão de mundo e as suas convicções, transformando, assim, a variedade linguística do romance em um único objeto de percepção da realidade.
Esse parece ser um dos fenômenos estilísticos mais relevantes no romance Caim, de José Saramago, no qual o narrador parece ocupar todo o espaço narrativo, não só através de seus comentários intrometidos contra as simbologias religiosas ou contra os episódios bíblicos, como também no uso que faz do protagonista para ressaltar as incoerências e arbitrariedades de “deus”.
Destaquemos, então, quatro ocorrências, muito comuns no romance, de interpenetração entre aquele que narra e o outro que protagoniza o enredo: o personagem age e o narrador concorda, de alguma maneira, com essa ação; a voz locutora faz algum comentário jocoso ou pungente sobre “deus” e, em seguida, o protagonista tenta desconstruir a imagem positiva deste no imaginário religioso; aquele que fala no romance faz uma interlocução ao leitor, cuja intenção é induzir o receptor a
uma reflexão crítica, enquanto “caim” tem um comportamento análogo, só que direcionado à outra personagem; por fim, através do discurso indireto-livre, as reflexões críticas de ambos se confundem em uma só voz.