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DELI UTVIKLINGEN MELLOM 1983 OG 1990

5.0 UTVIKLINGEN ETTER 1986 OG FREM TIL OKTOBER 1990

Se a memória traz para a superfície as imagens que ficaram impressas no sujeito, concordamos que Luís Miguel Nava revisita o passado e o conduz para o tempo presente a partir de imagens armazenadas em sua memória e por meio do processo de escrita poética atribui-lhes nova configuração. Diante desse quadro, podemos recorrer a dois poemas do livro Películas (1979) em cujo interior ecoam vozes de poetas contemporâneos que, por meio de suas obras, impactaram a escrita poética de Luís Miguel Nava.

Destaquemos, para começar, o primeiro verso, que serve de abertura ao poema intitulado “Atrás da página”: “As mãos no poema, pelas páginas”. A propósito dele Nava comenta no ensaio “Algumas coincidências” que, pouco tempo depois da publicação de seu livro Películas (1979), no qual se insere o poema, decidiu reler o poeta Herberto Helder e, ao chegar no poema homônimo do livro Cobra se deparou com os mesmos versos encontrados no começo de seu próprio poema. São eles: “As mãos no poema, o pénis / gravitando / a prumo como um corno de mármore”. (NAVA, 2002, p. 328).

Este episódio Nava caracterizou como uma espécie de memorização inconsciente, ou seja, a apropriação exata da frase de Herberto Helder não decorre de uma decisão premeditada. A imagem das “mãos no poema” aderiu em sua memória devido ao ato repetitivo da leitura e durante a escrita o verso irrompeu em seu inconsciente como se a ele pertencesse.

Já o poema “O mar”, também do livro Películas, tem como alicerce dois ecos provenientes de dois poetas citados por Nava, ainda no ensaio “Algumas coincidências”. O primeiro, situado na segunda estrofe, nos remete a uma referência direta ao escritor Herman Melville e a um determinado trecho de seu livro Moby Dick. O segundo eco, por outro lado, se projeta numa imagem encontrada pelo poeta, novamente após a publicação de seu livro, no poema “Poema(s) da cabra” de João Cabral de Melo Neto a quem Nava se propôs a ler naquele momento pela primeira vez.

Segue o poema de Luís Miguel Nava, abordado e citado por ele mesmo em seu ensaio “Algumas coincidências”:

O mar

do sol caindo os raios esticam-na

na água despenteada

O macho cujo peito em poderosos e lentos haustos é

para Melville o mar

do sol servem-lhes os raios de cabelos. (NAVA, 2002, p. 48)

Iniciaremos o cotejo da primeira referência. Extraído do ensaio “Algumas coincidências”, lemos a seguir o trecho de Moby Dick a que Nava faz alusão: “O mar robusto era um macho cujo peito se eleva em poderosos e lentos haustos, como Sansão adormecido” (NAVA, 2002, p.48).

O poeta, consciente dessa memória, transmuta o trecho citado à sua maneira a partir da exploração semântica, fonética e imagética das palavras. Ao contrário do escritor norte-americano, Nava reconstrói o verso em seu poema atribuindo ao mar características humanas. Se, por um lado, o macho, para Melville, se revela como Sansão adormecido, para Nava, estas características fazem alusão ao mar. No entanto a presença de tal antropomorfização confere ao quarto verso de ambas as estrofes a associação entre mar e cabelos. E mais que isso, este paralelismo também invoca a forte presença do sol cujos raios se confundem ora com o mar, ora com os cabelos. Desse modo, o macho a que Nava se refere não só adquire uma dimensão marítima, característica que garante a formação de uma imagem suntuosa, como também confere à figura masculina um cariz solar.

Com base nos versos do poema, “As ondas fazem-se às imagens, a manhã / do sol caindo os raios” e “[...] o mar / do sol servem-lhes os raios de cabelos”, compreende- se que existe uma lacerante presença da luz nos poemas de Nava e que, neste caso, esta presença da luz se engendra por meio da presença do sol. O poeta e crítico português Gastão Cruz a este respeito menciona que a presença da luz torna-se insuportável e notamos sua ocorrência desde seu primeiro livro, Películas. Há, pois, uma atmosfera de violência abrangendo grande parte dos poemas e que se repercute em forma de explosões, relâmpagos e, principalmente, como desejamos fazer ressaltar por meio da análise, da figura do sol. De acordo com o que nos assevera Gastão Cruz em seu posfácio do livro

Poesia Completa (2002), esta luz tem um viés erótico que se liga ao corpo da juventude.

A respeito da segunda natureza de eco, Nava o caracteriza como sendo uma coincidência. Reproduzimos abaixo o poema de João Cabral de Melo Neto (1994, p.254) para apontarmos a incidência de seu verso no poema de Luís Miguel Nava:

O Mediterrâneo é mar clássico, com águas de mármore azul. Em nada me lembra das águas sem marca do rio Pajeú. As ondas do Mediterrâneo estão no mármore traçadas. Nos rios do Sertão, se existe, a água corre despenteada. As margens do Mediterrâneo parecem deserto balcão. Deserto, mas de terras nobres não da piçarra do Sertão. Mas não minto o Mediterrâneo nem sua atmosfera maior

descrevendo-lhe as cabras negras em termos da do Moxotó.

No último verso da segunda estrofe, deparamo-nos com a imagem “a água corre despenteada”, idêntica àquela utilizada por Nava no poema “O mar”. O referido eco é por Nava caracterizado como sendo um exemplo de “coincidência”, haja vista que o poeta desconhecia os versos de João Cabral de Melo Neto no momento de criação dos poemas de Películas. O caráter de coincidência torna-se viável neste contexto, pois não há uma teoria sobre a memória capaz de elucidar o modo como dois poetas, situados em países distintos, conceberam a mesma imagem em seus respectivos poemas.